@ohhcouture

Eu cresci amando contos de fadas.

Quando eu era mais nova a minha mãe lia histórias fantásticas para mim. Desde antes de eu nascer eu ouvi falar sobre leões reis, guarda-roupas mágicos, princesas corajosas, sapatinhos vermelhos de cristal e gatos sorridentes guiando o caminho. Todas essas histórias tem uma coisa em comum. Uma só não, aliás, várias.

A primeira delas é que nenhum personagem começa a história da forma como terminou. Enquanto escritora eu sei que a jornada foi feita para transformar o personagem, e que se ela não o faz amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem ele era quando começou o livro, é como se ela nem tivesse existido. Quem gostaria de escrever ou viver uma história que era melhor nem ter existido? Nenhum personagem merece isso – ninguém merece isso.

A jornada do herói, como chamam, é o que faz a história valer a pena. Todos os personagens a iniciam de uma forma e a terminam de outra. A vida é sobre isso, e é por isso que nos dizem para nunca ter medo de transformações. Mudar de opinião, gostar de uma coisa que você experimentou há muito tempo e não gostava, cortar o cabelo mais curto do que jamais pensou ter coragem, assumir seu gosto musical ou estilo em se vestir, trocar de curso na faculdade, se distanciar de pessoas que você confiava e não confia mais. Amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem você era quando começou. Você vai passar – muito – por isso. Significa encontrar a sua verdadeira voz.

E observei também um denominador comum entre essas jornadas e esses heróis. É que são jornadas difíceis. Não pode haver nada de simples em abandonar toda a vida que se conhece para se arriscar no além-mar. Digo, no desconhecido. Os personagens que não embarcaram em jornadas foram convocados para elas por acidente, ou por acaso – mas a jornada os mudou mesmo assim, trazendo a eles um novo conhecimento e perspectiva sobre si mesmos que não tinha antes. Dorothy Gale é uma personagem por quem tenho grande apreço. E ela nunca embarcou numa jornada, ela foi sugada para dentro de uma.

O terceiro ponto que costura todas as histórias vai além da transformação que a jornada proporciona e como essas jornadas se apresentam. É quem trilha a jornada conosco. Totó, eu não acho que estejamos mais no Kansas. Eu nunca disse, mas poderia ter dito muitas vezes. Porque foi muito mais de uma vez em que me vi girando no olho do furacão, sem chão sob meus pés e sem apoio para as mãos, sendo lançada para muito distante da minha zona de conforto e nada além de um amigo muito leal ao lado.

Tem pessoas que escolhemos para estar ao nosso lado, tem pessoas que são chamadas para as mesmas aventuras que nós, outras que são jogadas pelo furacão no meio delas, tem gente que nos escolhe para andar com elas pelos tijolos amarelos. E é a lealdade de quem caminha conosco que determina os pedaços do caminho em que vamos cantando de braços dados e os quais vamos fugindo de raios, trovões e macacos voadores se aproximando do oeste.

E veja bem, o nosso trajeto permanece o mesmo. A distância que percorremos permanece a mesma. Amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem éramos começamos, ainda é uma coisa que nós vamos passar. Mas o terceiro ponto – é quem trilha a jornada conosco – é que determina a forma como todo o resto acontece.

Eu percorri uma jornada certa vez com uns leões medrosos. São pessoas que se apresentam para nós como pessoas aparentemente forte e de bom coração, mas que não tem bravura o suficiente para enfrentar seus próprios medos, e por isso tem medo de todo o resto. Sair em busca de coragem é entender que quando não há medos do lado de dentro os medos do lado de fora não tem força para atrapalhar.

Encontrei também certos espantalhos, expostos às durezas da vida sem nenhum tipo de cuidado e por mais tempo do que alguém pode suportar – é fácil esquecer o que realmente importa. Ter pessoas em nossas vidas com a cabeça no lugar e um cérebro em pleno funcionamento é o que nos permite continuar a jornada mesmo quando queremos seguir um caminho mais fácil. Os amigos com cérebro sabem que não dá pra fugir de onde precisamos ir, trilhar, chegar. Eles são sinceros e nos colocam de volta na estrada de tijolos amarelos.

O furacão tira a gente de casa, nos joga em outra terra, com perigos diferentes e estranhos além de tudo que pensamos existir, e ele tem a gentileza de nos dar coragem e sensatez, mas às vezes ele jogar pessoas com bom coração no meio das nossas aventuras, (por vezes pessoas que por terem sido afastados demais não se lembram de como fazer de outra forma, mas o coração segue lá dentro). Percorrer o caminho com pessoas que tem coração é um fator que determina quão longe você pode chegar. As pessoas de coração são as que tem gentileza o suficiente para nos avisar quando pisamos fora do caminho e quando estamos deixando que as transformações necessárias que a jornada exige está nos levando pra longe demais de quem éramos.

Tem pessoas que procuram saber das nossas fraquezas para nos tirar do nosso caminho. A lealdade das pessoas que muda quem nós somos e faz a jornada valer a pena para além de nós é quando elas nos enxergam da forma mais fraca que podemos chegar, sabendo quão limitados somos e nos fortalece para que sejamos capazes de mudar sem esquecer de quem somos. Chegar ao fim da jornada é chegar diferente, sim. Mas ainda é necessário que sejamos nós mesmos. A jornada é do herói, mas ele nunca chega ao fim dela sozinho. Nunca. Carrega partes do eu que saiu na jornada, carrega partes de quem caminhou com ele, de quem o carregou até ali, de quem ele é agora.

Ele nunca chega conforme saiu. Nunca.

Ele ganha coisas que nunca sonhou existirem. Deixa para trás toda a vida que conheceu sem saber se ainda vai caber nela quando voltar – se ela vai caber nele. A transformação começa no embarcar. No abrir mão, no ser capaz de aceitar a estrada de tijolos amarelos como um meio para um fim.

Eu cresci amando contos de fadas. Mas eu só de fato os entendi quando vivi um. A jornada não é sobre encontrar o amor. Nem sempre se escolhe a jornada, às vezes o furacão nos joga pra dentro dela. Mas nunca nos joga sozinhos. A jornada é sobre encontrar a si mesmo – e o mundo todo que cabe aqui dentro, muito além do meu celeiro. E todo mundo que caminha na estrada dourada (já me disseram que é que nem a vida).

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I wish to go home.
E a aventura acaba tão rápido quanto começou,
a estrada de tijolos desapareceu, nenhuma cidade esmeralda no horizonte,
e o celeiro no quintal.

com amor,
cs
(que vai de glinda às vezes)

source: pinterest

Eu queria dizer que esse texto começou com um Alô? Porque eu quase liguei pra ele antes de escrever esse texto.

Foi por pouco, e precisei fazer um daqueles acordos comigo mesma, sabe? De que eu ia esperar 22h despontar na tela do celular antes de ligar. Que eu ia contar as estrelas sozinha e que se o comichão de dançar pela noite estrelada me subisse pelas pernas eu ia imaginar que eu estava no meu lugar seguro, a clareira onde eu imagino as noites mais bonitas.

Eu não liguei pra ele antes de escrever esse texto porque eu não teria sabido o que dizer quando ele atendesse. Eu não teria conseguido levar a pergunta adiante, eu teria tido medo da resposta e, se eu for sincera – sempre sou – eu não acho que ele teria sabido o que responder. É um desses caras cheios de imaginação também, vai ver se senta pra contemplar estrelas e não nota as constelações porque antes de enxerga-las se perde em nuvens fofas e brancas que percorrem o céu escuro e se desfazem como algodão doce num saco plástico que a gente teima em soprar.

Mas às vezes pra imaginar amor é preciso, primeiro, saber que ele pode enraizar ali. E isso é tanto pra tanta gente.

O amor assusta as pessoas. Porque nem todo mundo sabe que dá pra percorrer um céu estrelado na ponta dos pés e escorando a cabeça em braços quentes. As pessoas esquecem de certas coisas. Algumas porque o tempo apaga as informações, outras porque precisam do espaço dessas memórias pra lembrarem de outras coisas. Mas tem gente que espera estar pronto pro amor, e isso… bem, o amor não aparece apenas quando se está pronto pra ele – o que quer que isso quer dizer. Às vezes é sobre ele estar pronto pra gente.

Depois de arruinar algumas músicas em potencial com pessoas de quem não queremos lembrar, é difícil – de fato! – esperar pelo amor. Não é como se fôssemos abrir a porta da sala, sentar ali no sofá com uma xícara de chá e esperar por ele chegar como quem espera a visita. Chega mais, fique à vontade. Sinta-se em casa.

Eu não liguei pra ele antes de escrever esse texto. Poderia, você sabe. Mas não liguei não.

Daí o sol vai se pondo, e acompanho da janela da sala. Um cheiro de bolo recém assado começa a apontar pelo ambiente, o chá começa a esfriar. Eu olho pra um lado na rua, olho pro outro. Passa um cachorro na calçada, daqueles pequenos, marrom bem clarinho, o rabinho pra lá e pra cá. Viro a caneca de novo e é mais um gole. Mas até aqui, nada.

Não, não é assim que se espera o amor.

Mas às vezes é assim que ele aparece. E então há uma outra porção de cenários em que ele se apresenta, sendo a maioria deles muito inesperados. Resposta pra perguntas que não sabíamos que tínhamos. Ocupando espaços que não percebemos que existiam. Rindo em silêncios que outrora eram habitados apenas por nós mesmos. Dançando debaixo de estrelas que a gente não vê a olho nu.

Quando a gente menos espera. Quem a gente menos espera. Por motivos que a gente menos espera. Onde a gente menos espera. Vestindo o que a gente menos espera. Cantando o que a gente menos espera. Tocando o que a gente menos espera. E às vezes não precisa de um toque sequer, pra de fato sermos tocados. Mas o telefone dele não tocou antes de eu escrever esse texto, porque eu não liguei.

Como poderia, se ele não estava esperando o amor?

Não soube o que era. Por vezes, quando um amor vai embora, o que sobra da bagunça e do caminhão de mudança é só o silêncio. Ouvi-lo é o que nos faz escutar todo o resto. Ouça.

 

 

 

Percebe?

O barulho que você não escuta, é o telefone não tocando.

Eu sei que era amor sim. O silêncio soube que era amor sim. O chá que tomei enquanto escrevia esse texto soube que era amor sim. Minhas amigas de Teresina que leem esse texto do outro lado do país souberam que era amor sim. O cachorro marrom que passou na calçada abanando o rabinho no fim da tarde soube que era amor sim.

Mas ele não soube. Porque não aprendeu a ler entrelinhas, não aprendeu a ouvir o silêncio.

 

 

 

Percebe?

Mas já pensou se eu tivesse ligado? O que será que ele teria dito depois do alô? Será que ia ter gente em casa? Será que em algum momento teria dito, ei, bem vinda? chega mais, fique a vontade. você não é nada do que eu esperava, quando eu esperava, vestindo o que eu esperava, cantando o que eu esperava, sorrindo pro que eu esperava, mas sinta-se em casa.

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love,
cs

 

 

 

Se ele pudesse ler isso acharia que escrevi para ele. Acharia que escrevo pra ele. Parece arrogância, eu sei, mas ele acharia, porque é desses que costuma tomar tudo para si, inclusive todas as verdades do mundo.

Essa aqui não, essa aqui é pra mim. Essa aqui é a minha verdade.

E já ouvi que a verdade é uma questão de perspectiva, sabe? Que as pessoas tem direito à interpretação de texto, e que o ponto de vista dos outros deve ser respeitado. Nesse contexto isso não é nada além de uma mentira. E aqui escrevendo essa carta eu quero dizer que a mentira também é importante, porque só através dela é que descobrimos o que é verdade. Só pode haver a verdade porque há a mentira.

Essa carta não é sobre um ponto de vista, porque a verdade não é sobre como as pessoas entendem os fatos: a verdade é sobre os fatos. Logo, essa carta não é sobre a percepção, ou como ele usou a percepção dele para ferir, magoar e ser dono da verdade. As pessoas tomam perspectivas para si, e constroem castelos com tijolos de mentira, desconsiderando completamente a verdade de quem modelou o barro: isso não é ponto de vista, isso é se aproveitar de quem não pôde se posicionar com explicações. E há tantas pessoas que se cercam de um imaginário e nunca permitem que você o desconstrua.

Quando as pessoas vão embora, independente do porquê, o como é o que nos diz o que elas não disseram quando chegaram.

Dylan Furst

A verdade dói. Ela sempre vai doer em alguém. Às vezes ela dói em quem não é forte o suficiente para proclamá-la, às vezes ela dói em quem não é forte o suficiente para ouvi-la, tem outras chances de ela doer em quem a forjou sob ferro e fogo temperados a força em labaredas de ódio. Disfarçam muitas coisas de verdade, sabe? Se ele pudesse ler isso acharia que escrevi para ele, porque ele me feriu com verdades forjadas mais de uma vez, e aceitei as marcas quentes de sua incompreensão pois é fácil aceitar quando uma pessoa te culpa, quando você a ama a suficiente para esquecer de quem você é.

Mas não é sobre isso. Não pode ser. Você precisa aprender que há uma vida, – é a sua – e há uma verdade, – é a sua – e o que as pessoas tentaram te fazer acreditar além disso não é sobre você, é sobre elas. O que você viveu, o que você fez com isso, quem você é, o que você escolheu fazer com o que te deram, a pessoa que você construiu, as intenções que teve, as pessoas de quem abriu mão, e até as de quem não abriu – mas foram mesmo assim. É sobre você. Você é o dono dessa verdade, não deixe que nenhum amor no mundo te faça abrir mão disso: quem você é a verdade, não quem te disseram que você é.

Eu sei que a gente teve tudo. Ele e eu, é o que quero dizer. E foi por esse motivo que por muito tempo eu não entendi quando foi que a gente se desfez um do outro. Como, ou porquê foram respostas difíceis, tijolos pesados, entende? Mas quando nunca é uma resposta precisa o suficiente, porque o tempo nos muda e com ele perdemos a perspectiva e precisão dos fatos: adquirindo outras. Novas verdades são refeitas com o tempo, e é por causa dela que estou aqui. Não por causa do que existiu, não por causa do que foi contado, não por causa de quem viveu isso, não por causa do que poderia ter sido, não por causa do ponto de vista de quem contou histórias sem saber delas.

É por mim.

A verdade sempre vai doer em alguém. Conhecer a dele, forjada em brasa e ferro, me feriu. Por muito tempo procurei explicações para pecados que eu não cometi, me desculpei por falhas que não foram minhas, me humilhei por um perdão de que nunca precisei, chorei por sonhos que não destruí e tentei remendar corações que eu não parti. Mas essa dor não é minha, porque a dor da minha verdade é dele que nunca a ouviu e construiu castelos sobre tijolos de mentiras mal interpretadas.

E é tão fácil imaginar a grandeza dos reinos construídos às pressas nas carcaças dos sonhos dos outros. Por isso deixamos.

Mas não posso deixar mais, não posso. É por mim. Só posso contar essa verdade porque há uma mentira, e eu não posso mais deixa-la queimando por ai. Então, sei que se ele pudesse ler essa carta ele acharia que é pra ele, e ele a queimaria como fez com todo o resto que precisou destruir para fundamentar seu palácio forjado sob um ponto de vista egoísta e enganoso. Não posso lutar contra tais chamas, por isso eu diria – se fosse pra ele – que a queimasse então.

Pela última vez pra ele.

Pela primeira vez por mim. E a verdade está aqui agora, e não me dói proclamá-la, e me sinto forte o suficiente em ouvi-la, e me orgulho em como ela se manteve aqui por mim, e da integridade em meu castelo e da coragem que tenho em habitar nele. É tão difícil para as pessoas admitirem que erraram, principalmente quando elas ferem os outros, flambando-os em seus comos, quandos e porquês. Por isso eu não acho que minhas explicações resolveriam qualquer coisa, e antes era esse o motivo de eu não tentar me explicar, mas agora é por mim.

É por mim que eu estou aqui. É por mim esse castelo.
Foi por mim. Que sobrevivi, que escrevi, que dancei, que acreditei.
Mas não vou me explicar, e esse é o motivo de essa carta também ser por mim. Porque hoje eu sei que mais do que não precisar mais: eu não quero. Eu acredito em mim, e isso basta. Eu sei quem eu sou e nenhum ponto de vista corrompido pode mudar isso, nenhum falso amor pode me torturar para que eu acredite que preciso.

As pessoas sempre vão embora. Quando elas precisam, porque já não podem mais ficar onde não lhes cabe. O como é o que mascaram em labaredas inflamáveis e perigosas para não admitirem de que é por elas – nos fazem acreditar de que foi por nós. O como é o que fica. Hoje eu sei que não foi por mim. Aqui do alto dos meus tijolos rearranjados eu vejo que o porquê não foi por mim, apesar do que o como tentou fazer parecer. Por isso eu diria a ele que queimasse essa carta se pudesse lê-la.

Mas não pode, porque teria que por a mão no fogo primeiro.

Meu quando é agora, meu como é essa carta
o porquê agora você já sabe.

É por mim, e isso basta.

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proud and standing,
alive and healed,

absolutely sure and honest,
cs

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