90 dias antes: Não é que eu não o ame. Eu amo, mas eu percebi que ele não tem me tratado daquela forma mais.

42 dias antes: As coisas tem sido um pouco estranhas. Eu sempre achei que o meu sentimento, por ser tão forte assim, fosse forte o bastante para consertar as coisas para ambos os lados. Que eu pudesse ceder, que eu pudesse permitir, que eu pudesse deixar passar certos aborrecimentos. Mas e se eu não puder?

11 dias antes: Ele gritou comigo. Isso nunca tinha acontecido antes. Chorei muito, não sinto que sou forte o suficiente para fazer isso que preciso fazer.

2 dias antes: Percebo que ele não consegue me olhar direito. Como a gente chegou aqui?

0: Eu perguntei se ele queria continuar comigo e ele disse que não. Perguntei se ele me amava e ele disse que não. Perguntei por que ele não me disse essas coisas antes e ele disse que não queria me magoar. Por que as pessoas acham que dizer, dizer, dizer coisas pode ser melhor do que de fato escolher fazê-las? Foi covarde a forma como ele preferiu me humilhar até que eu não aguentasse mais para que eu terminasse o nosso relacionamento ao invés de fazer isso ele mesmo. Eu disse muitas coisas, chorei e entrei para casa, mas entre o prazo que me levou para chegar do portão da rua na porta da sala ele já havia dado partida no carro. As pessoas vão embora muito antes de terem coragem de realmente ir.

3: Minha mãe abriu a porta do quarto para ver como eu estava me sentindo, abriu a janela, e também me mandou ir tomar banho.

5: A gente meio que tinha combinado de ser amigo, mas por que eu achei que ele fosse me tratar normalmente depois de tudo que ele fez? Ele não está respondendo minhas mensagens.

11: A mãe dele me ligou para saber se eu sei por onde ele anda porque ele tem estado muito estranho e quieto, nem sequer disse o porquê terminamos e ela e a família estão preocupados. Ela disse as coisas mais lindas. Eu não tenho dúvidas de que entre tudo que eu posso amar sobre ele, a família dele é a principal coisa que vai me fazer mais falta.

12: Fiz uma playlist para adicionar as músicas mais fortes que têm me ajudado nesse momento. São três até agora.

16: Ele apresentou o TCC dele, eu não fui convidada ou sequer fiquei sabendo do resultado.

19: Eu tive um ataque de pânico esquisito na rua hoje, não soube que era isso que eu estava tendo na hora, mas agora acho que foi sim. Liguei para ele e ele não atendeu. Liguei o gravador de áudio do meu celular e falei um monte de coisas que eu teria dito a ele se ele tivesse atendido. Chorei muito, e imaginei todas as coisas que ele diria de volta se pudesse me ouvir. Se ainda fosse o mesmo cara que pudesse me ouvir. Me senti melhor tendo oportunidade de fazer esse podcast para mim mesma, mas foi bem intenso, não sei se terei coragem de ouvir algum dia.

20: Ele não retornou a ligação. Ainda bem que não era emergência.

27: O pai dele saiu do emprego que ele estava. Será que saiu? Será que foi mandado embora? Será que eles estão bem? Precisando de alguma coisa? A parte mais difícil é ver pessoas que você ama se afastando e se tornando estranhos a quem você não tem direito de ficar perto. Ninguém te fala que existe um processo de desconhecimento pelo qual você se sujeita a passar a cada Oi, tudo bem? que diz na vida.

39: Foi meu aniversário. Ele não me ligou.

45: Cortei meu cabelo e comecei a fazer aulas de circo.

50: Minha mãe está desconcertada e não sabe muito bem o que fazer comigo, porque ela sabe o quanto ele era importante pra mim. Ela e eu sempre brigamos muito e tivemos um relacionamento áspero. Não porque não nos amamos, mas porque somos ambas intensas demais. Não vou mentir, fui uma adolescente rebelde. Nunca achei que precisaria que ela cuidasse tanto de mim assim, mas esse término com ele me abriu os olhos sobre quantas pessoas tenho ao meu redor que estão dispostas a cuidar de mim. Precisar de pessoas é ótimo para tratar do nosso orgulho. Obrigada por tudo, mãe.

53: Acordei chorando de um sonho em que o pai dele tinha morrido. Gravei outro podcast para mim mesma como se eu tivesse conversando com ele e liguei pra minha amiga e pedi que ela perguntasse se estava tudo bem. Estava. Acho, talvez, que a vida simplesmente segue. Independente de quem está nela ou não.

68: As coisas no grupo da galera ainda estão bem estranhas. Sempre fomos ele e eu quem organizamos e chamamos as pessoas para os rolês, e agora eu vejo uma ruptura evidente na nossa dinâmica de grupo. É uma pena. Terminar um relacionamento de 8 anos ainda segue sendo a coisa mais dolorosa que já fiz, mas agora, percebo, é porque não era exclusivamente ele para quem eu disse adeus, mas para toda a garota que eu era e a vida que eu tinha por todo esse tempo que escolhemos estar juntos. Como se remonta e se constrói sozinha depois do que parece uma vida inteira tendo a possibilidade de se apoiar em alguém?

72: Tive um ataque de pânico de novo. Liguei para um amigo meu que mora em Rondônia. Ele me acalmou por 2 horas, e eu dormi. Tem toda uma rede de pessoas prontas para me ajudar no minuto que eu pedir ajuda. Isso sempre esteve aqui?

90: É a formatura da faculdade de uma das nossas melhores amigas e ele não quer ir. Achei que seria uma boa oportunidade de vê-lo. Não porque eu quero voltar (não quero), mas porque sempre sinto que é importante ver as pessoas e estar em contato com elas para saber qual o lugar elas ocupam na minha vida. E já que não temos contato virtual, talvez esse contato face a face.

93: Ele não quer ir à formatura porque está namorando e não quer me “fazer passar por isso” porque ainda “se importa comigo”. Que tipo de idiota esse cara se tornou e por que ele acha que tem tanto poder sobre mim? Ele que foi o covarde, eu quem terminei com ele.

99: Ele foi à formatura. Me cumprimentou de longe e sorriu como se fôssemos velhos amigos. Eu sorri de volta e naquele segundo foi como se tudo tivesse bem. Não porque eu o amo, mas porque eu desejo que a gente seja capaz de manter um convívio saudável. A namorada dele estava ao lado, ele não nos apresentou.

100: Ele não ficou em nenhum lugar que eu estava na festa e deu o maior trabalho aos nossos amigos que não queriam deixar ninguém desconfortável e ficaram indo e vindo de um ambiente pro outro entre ele e eu. Foi patético, mas a festa foi incrível, e, surpreendentemente, eu me diverti muito com as minhas amigas. Beijei um cara que não conhecia pela primeira vez, e, para falar a verdade, foi bem melhor do que eu jamais imaginei que seria.

107: A sensação de saber que ele encontrou outra pessoa tão rápido após um relacionamento de oito anos só confirma todas as minhas certezas sobre ele não ser o cara por quem me apaixonei. O cara por quem eu me apaixonei teria tido grande dificuldade em dizer adeus. Não é como se eu o amasse menos, é só que não gosto mais dele ou sou capaz de admirá-lo como sempre fiz, e isso, bem… Isso muda tudo.

120: Nas últimos meses uma amiga também terminou um relacionamento longo com o amor da vida dela e temos conversado por umas 3 horas por dia. Tenho muitas garotas fortes e corajosas ao meu lado e me sinto muito abençoada por isso. Por que não observei isso antes?

145: O mar sempre teve um papel muito importante na minha vida. Hoje um amigo meu me convidou para fazer uma viagem à praia e eu topei. Acho que vai ser incrível tirar uma semana da minha vida e ir renovar minhas energias.

178: Chorei muito quando entrei no mar. Muito. Uma parte de mim está lá até agora, eu acho.

181: Havia prometido a mim mesma que eu não tentaria nenhum tipo de contato com ele depois da forma como as coisas se desenrolaram e o cuidado zero que ele teve com o meu bem estar, mas decidi não ficar com essas coisas só pra mim, e, apesar de saber que ele agiu da forma como agiu porque me culpa por muitas coisas, eu sei que preciso falar. Foram 28 páginas, frente e verso, não tenho certeza se vou entregar. Vou esperar por um sinal.

211: O aniversário dele caiu no dia das eleições e nos encontramos por acaso na zona eleitoral. Eu o abracei e parabenizei, e não me senti estranha ou mal por fazer isso, foi como uma coisa que eu teria feito com qualquer pessoa, para ser educada. Depois eu me sentei com uma amiga que estava trabalhando de mesária, e senti que ele ficou me olhando por um tempão. Será que é porque pintei o cabelo? Porque perdi 10 quilos?

217:Não existem sinais quando você já sabe o que precisa fazer. Liguei para ele e pedi que viesse na minha casa pegar a carta. Veja, eu não quero destruir o relacionamento novo dele, não foi por isso que escrevi. Eu não quero que ele volte pra mim, não foi por isso que eu escrevi. O que eu quero, eu acho, é que ele saiba que nada do que ele pensa que eu fiz é verdade em algum lugar além do que na cabeça dele, e que eu jamais teria feito nada intencionalmente para magoá-lo. Eu quero que ele confie em mim, mas eu sei que ele não vai. Não depois de tudo, então, eu acho… eu só escrevi por mim mesma.

250: Tenho feito novas acrobacias e aprendido movimentos incríveis no circo. Por que eu não comecei antes?

291: Foi aniversário da minha afilhada, que também foi por 6 anos considerada afilhada dele, e ele não ligou pra ela para dizer sequer oi. Eu não estava esperando que ele fizesse isso pois é claro para mim que ele não quer nenhum laço com a vida que teve comigo, mas não deixa de ser estranho, era a afilhada dele.

307: Feliz Natal.

324: Tenho escrito muito e estou satisfeita com o progresso da minha escrita. Os textos no blog estão criando um formato que eu amo, e muita gente tem gostado também. É assim que a felicidade se parece, né? Acho que sim.

365: Não acredito que já foi um ano.

398: Tenho saído com um cara de quem gosto muito. Mas é bem complicado porque ele teve o coração partido de uma forma muito estrondosa e não sei se se recuperou disso, mas posso dizer com certeza que ele gosta de mim. É uma coisa engraçada encontrar gente com quem eu possa conversar por hoooras sem perceber que o tempo passou. O primeiro encontro que eu tive com esse cara foi quase roteiro de filme, de tão acertado. Inclusive as borboletas no meu estômago logo antes de ele me beijar.

420: Eu percebi que tinha medo de me enxergar. Esse foi o ano em que a fotografia me salvou e mudou tudo que eu sabia sobre eu mesma.

486: Decidi fazer um curso de roteiro de cinema, mas é em outro país e muito caro. Ainda não sei como vou chegar lá.

501: Saímos de galera com nossos amigos em comum. Foi a quarta vez que nos vimos e foi muito sossegado. É como se nunca tivessemos tido nada. Será que era para ser assim mesmo ou só nos tornamos pessoas tão diferentes que é difícil até de recuperar a memória de quem éramos? Fácil certamente não foi, mas eu não sinto culpa, medo ou vergonha de quem eu sou ou como eu cheguei aqui.

537: Comprei um presente de aniversário para a irmã dele pelo simples fato de que vi na loja e sabia que ela ia gostar. Não soube como entregar porque não quero, de forma alguma, que isso significa que estou tentando uma aproximação. Não sinto falta de estar num relacionamento com ele ou da presença dele na minha vida, mas a família dele ainda faz muita falta. Liguei para a mãe dele e ela foi na minha casa buscar. Conversamos muito e foi excelente, mas muito doloroso. Minha mãe e ela choraram juntas.

570: Eu escrevi 11 textos a respeito de um relacionamento com outro cara, a quem – hoje percebo – amo muito e me reensinou tanto sobre amor que eu nem lembrava muito antes do meu super término mais dramático da história. Onze.

581: O novo cara me pediu em namoro e eu percebi que eu não quero me envolver com ninguém tão seriamente porque eu ainda estou vivendo a fase de me dedicar 100% a mim mesma. Então decidimos não continuar mais juntos. Isso doeu, mas eu não sinto a dor me rasgando por dentro como antigamente. Talvez eu esteja mais forte, é como se tivessem me partido, certo? E ai colecionei os pedaços, e recolei tudo em um novo mosaico. Dessa vez me refiz em cimento.

600: Eu comecei a fazer um curso de roteiro online com a Shonda Rhimes. Shonda Fucking Rhimes. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Será se morri e tô no céu? Eu nunca imaginei que fosse ter sonhos tão grandes e sentimentos tão intensos por nada de novo, quanto mais por um projeto e não por uma pessoa. O projeto, eu acho, deve ser eu.

607: Foi aniversário de uma amiga nossa em comum e ele foi, bem como a namorada dele. Estávamos todos em uma roda quando eles chegaram e cumprimentaram todos, menos eu.

619: Nem tudo que vivi descrevo aqui. Foram 13 podcasts até agora. Será que devo apagá-los? Não tenho coragem de ouvir pois cada um tem mais de 10 minutos e eu choro muito na maioria deles. A dor, eu acho, nem sempre pode ser descrita como algo bonito, às vezes ela só vai ser sentida dentro de você e o mundo não vai ficar sabendo.

625: Foi aniversário dele, ele convidou todos do grupo menos eu. Até hoje quando saio com os nossos outros amigos ouço as histórias dessa festa.

643: Fui madrinha de casamento daquela minha amiga que terminou na mesma época que eu, e não apenas ela se casou com o cara com que tinha terminado como eu também dei um empurrãozinho para isso. As histórias podem se repetir infinitas vezes, o desfecho é sempre individual de cada um pelas estradas que decidem trilhar. Que dia lindo.

708: Eu ouvi todos os podcasts que gravei para mim mesma como se fossem uma ligação para ele. Chorei por horas. De lembrar daquela dor, mas também – e principalmente – por ver que esse é um sentimento muito distante de mim. A tempestade, ela passou. É muito doloroso até hoje saber que tive que passar por tudo. Foram como buracos negros se abrindo no meu estômago e me consumindo de dentro pra fora até que eu quase desaparecesse. Mas eu não desapareci.

725: Meu sobrinho nasceu.

744: Fiz um novo amigo homem. É engraçado porque ele costumava ser o meu melhor amigo e agora não sei como me portar perto de amigos homens porque de certa forma perdi essa referência.

750. Passou outro ano há algumas semanas e só agora me dei conta.

751: Meu celular quebrou e perdi todos os meus arquivos. Inclusive os áudios que gravei nos últimos dois anos. Foi libertador não ter mais aqueles arquivos dos podcasts. Mas não tão libertador quanto foi tê-los quando precisei.

789: O cara por quem me apaixonei depois dele se tornou um dos meus amigos mais próximos. É curioso como algumas dores se transformam em arte, outras em amizade, outras em mais dor e outras em um grande limbo de esquecimento. O que determina isso?

800: Fiquei tão doente como jamais estive na minha vida e estava viajando em SP. Minha mãe teve que me dar banho porque eu senti tanta dor que não era capaz de erguer meus braços para lavar o cabelo. Nessa mesma viagem tentaram me dar um golpe na rua e um amigo que fiz há duas semanas me ligou e me confortou por 3h numa ligação enquanto eu quase chorava de dor num quarto de hotel em outra cidade. Em nenhum momento eu pensei e ligar para ele ou pensei nele. A cura é o desaparecimento da memória ou a sensação de que ela está numa gaveta profunda em algum lugar na sua mente, mas você simplesmente não é mais a pessoa que precisa dela?

823: Ainda não tenho dinheiro o suficiente para fazer a minha pós graduação em cinema conforme tenho sonhado, mas decidi ir aos Estados Unidos conhecer e saber como serão as coisas uma vez que eu estiver morando lá para fazer meu curso (Serão 3 anos! Quando será que esse momento vai chegar? Parece tão longe, mas estou tão animada!). Uma amiga da minha mãe disse que pode arranjar um emprego para mim em New York no café do cunhado dela. Não é nada certo, mas, será que devo ir? Se eu não for talvez a zona de conforto me consuma.

845: Tirei meu visto.

849: Meu avô morreu.

851: Embarque para uma viagem com a qual sonhei muito. Mas na verdade não estava realmente preparada para tanta coisa linda e de tirar o fôlego que encontrei. Tem tanto lá fora, a gente não faz ideia até se lançar.

856: New York é a cidade mais acolhedora e fria do mundo ao mesmo tempo. De alguma forma muito estranha, parece um lar.

857: O emprego não deu certo. Estou sozinha numa cidade estrangeira. Sem emprego. Sem casa. Sem família. Sem amigos e com dinheiro para apenas mais duas semanas. O que eu tenho? Como um raio me atingindo e me acertando enquanto escovo os dentes, prestes a fazer check out no hostel onde dormi pela última semana e sem saber onde dormirei nessa noite, eu choro, olho no espelho, e sei que ainda tenho eu, minha escrita e minha fé. Eu não preciso de mais nada.

861: Estou morando em New Jersey com uma amiga e a família dela que muito gentilmente me acolheu. Eles tem o mesmo sobrenome do cara que eu namorei há dois anos atrás, por oito anos. É tão estranho que agora eu seja parte dessa família, sou uma deles. Sou Ribeiro agora e da melhor e mais saudável forma que eu poderia ter me tornado uma, de uma forma não planejada, inusitada e muito divertida. Essas pessoas me deram uma oportunidade que eu nunca poderia ter sonhado, porque eu confiei neles e lhes dei a opção de me ajudar. Deus faz as coisas perfeitas. Sempre.

870: Tenho um emprego legal que vai me sustentar aqui pelos próximos meses até chegar a hora de voltar para casa. Tenho escrito coisas, conhecido gente, tomado sol na praia e chegado cada vez mais perto de ser a pessoa que eu sempre sonhei ser. Eu estou feliz.

884: Uma das minhas melhores amigas terminou um relacionamento de oito anos e me ligou. Eu não soube muito bem o que dizer, exceto que há muito mais pela frente do que parece haver agora, e que ela é muito mais forte do que parece. Para provar isso, eu decidi escrever isso aqui. O relato mais pessoal e escancarado que jamais fiz e sei que esse é o único momento de fazê-lo, porque ele não dói em mim mais e pode ajudar várias pessoas a pararam de doer também.

893: Um cara incrível que conheci há duas semanas e que tenho amado conhecer me deu uma flor e me pediu em namoro. A vida nunca para de surpreender.

957: Meu livro tá quase pronto, vou enviá-lo às editoras antes do final do ano. Eu estou em casa novamente. No meu quarto, na minha cama, na minha escrivaninha. Tem um mundo incrível que eu não lembrava há muitos anos como era, como podia ser. Não basta saber que esse mundo existe, é preciso fazer parte dele e permitir que ele faça parte de você. Sonho com ele às vezes, o cara que escolheu não fazer parte disso, quero dizer, mas é raro e a presença dele não faz parte e nem falta pra pessoa que eu sou, é como uma memória meio de outra vida. E tudo isso teria sido inaceitável no meu dia 1, mas é a forma como as coisas são. Eu estou exuberantemente feliz em ter chegado até aqui. Altamente orgulhosa e esperançosa de que a jornada da minha amiga em direção a ela mesma e tudo além do que ela é sequer capaz de sonhar, seja incrível. Como eu sei que ela é. Como eu sei que você, leitora, é. Os corações se partem. Mas são mosaicos lindos que construímos depois.

1.000: Eu não sei ainda. Mas eu sei que o que quer que seja eu posso aguentar.

Eu o vi 5 vezes no total, sendo 4 delas com a namorada. Eu não sinto falta dele, mas sinto falta da família dele e de como eles me faziam sentir parte dela. É curioso que agora eu esteja tendo a chance de fazer parte de uma outra família agora sem ser a minha e sem ser a dele, porque foram as duas únicas que tive até hoje.

A gente encontra formas diferentes de chegar em lugares que um dia sonhou, e independente do trajeto é inevitável que cheguemos lá muito diferente de como pensamos que chegaríamos. Eu nunca soube se ele leu a carta, mas eu soube que eu a escrevi e nenhum dia se passa em que fazer o que eu precisava fazer por mim mesma não tenha sido a parte mais importante do processo. Eu nunca soube se ele me perdoou por não ter sido suficiente, mas eu me perdoei. A playlist nunca passou de três músicas, mas eu as ouvi por mais de 3 mil vezes nesse tempo todo. Eu o vi 5 vezes, mas me vi um milhão a mais nesse tempo, me ouvi mais de 3 mil vezes e isso é o que fez toda a diferença. Foram 16 podcasts, com a quebra do celular perdi todos eles.

Esse texto, diferente de taaaantos outros que escrevi aqui, não existe porque eu preciso dele. Existe porque a forma como a gente se cura ensina aos que precisam acreditar que a cura é possível. Porque ela é. A cura não foi sobre ele deixar de ser o amor da minha vida, porque ele foi, mas sobre eu escolher ter uma vida diferente.

Mosaicos coloridos no cimento. As coisas mais bonitas todas tem certos buracos e rachaduras, é a única forma da luz entrar e sair.

O coração se parte. Mas ele também se reconstrói.

Mais forte.

Tem quatro meses que eu furei minha orelha. Tenho o primeiro furo desde que eu nasci, ai fiz o segundo e o terceiro furo nas duas orelhas quatro meses atrás. Depois de uma semana tirei os brincos para limpar e o terceiro furo da orelha direita fechou nos dois minutos que me levou pra lavar o brinco com água boricada. Hoje eu tenho três furos de um lado e dois do outro, hahaha, foi muito divertido.

Na hora do furo, apesar de ser rápido, senti uma dor que não esperava. Todo mundo me falou que seria tão rápido que eu nem sentiria, mas eu senti, e ai me assustei porque ninguém me disse que eu sentiria isso. É confuso, sabe, sentir coisas que as pessoas não te disseram que você iria sentir. Mas eu sabia que ia doer depois, até a cicatrização.

Eu não sei como você chegou até aqui, porquê você chegou até aqui ou em que estado você chegou; o que te trouxe. Mas eu estou feliz por você estar aqui agora, porque nesse momento compartilhamos o mesmo espaço, e é importante que cada coisa tenha seu lugar.

Quando eu comecei o ano de 2018 eu sabia que ele seria um ano que mudaria a minha vida. Não por causa dos furos na minha orelha, mas porque eu sentia. Dentro de mim.

Mudanças chegam a nós como tempestades, com pequenas ondas reverberando à distância, de modo que quem está prestando atenção pode antecipar o que ainda não chegou. E eu senti meu coração reverberando por um tempo. Hoje eu me olho no espelho e eu vejo meus furinhos na orelha e eu sei que todas as coisas estão relacionadas.

Tem gente que não me vê há anos. Gente que me conheceu quando eu só tinha um furinho em cada orelha e ainda era alérgica demais para preenchê-los. Gente que talvez achou que já tinha visto tudo que tinha pra ver em mim, conhecido tudo que havia pra conhecer, sabido tudo que havia pra saber, rido tudo que tinha pra rir, confiado tudo que tinha pra confiar. Talvez era tudo isso mesmo o limite.

Era.

Mas isso foi antes. Antes de 2018.

Em alguns anos eu sei que eu vou olhar esse texto que agora escrevo deitada numa cama de Hostel em Nova Iorque, um texto que comecei a escrever várias vezes e não consegui terminar ainda, e eu vou pensar que no momento em que ele estava sendo escrito eu talvez não soubesse o que estava fazendo tão bem quanto saberei lá, naquele momento.

E, sabe, não ser ainda tão completa assim não me impede de ser o melhor que eu preciso agora. Porque eu sei que eu vou estar pra sempre inacabada, e absolutamente preenchida mesmo assim. Mesmo agora. Como era quando tinha só um furo na orelha. Como eu era quando as pessoas acharam que já tinham visto tudo que tinha pra ver de mim.

Mas eu nem cheguei lá ainda. Eu não tô nem perto. Eu sou só um garota de orelha furada, que pegou um trem pra um lugar, sem cama pra dormir quando chegasse lá.

Eu me mudei de país. Furei minha orelha. Fui conhecer gente que eu nem sonhei que existia. Eu chorei no meio da rua, de gratidão. Eu saí pra dar uma volta e eu ouvi gente falando três linguas diferentes, ai eu desci em seis paradas na linha 7 de metrô e eu estava na Broadway. Meus cinco furinhos na orelha e eu estávamos na Broadway.

Mas eu não cheguei lá ainda.

Eu não tô nem perto. Mas eu cheguei aqui.

E aqui… É onde tudo começa. É em mim, onde tudo começa. Porque cada coisa tem que ter seu espaço e eu sei que eu não estive presente nesse meu espaço por um tempo. Mas eu cheguei aqui agora. 2018, eu não posso acreditar que foi só a metade.

A vida é sobre dar tempo para que as coisas se encaixem nos seus lugares. Tirar o que transborda em excessos desnecessários, abandonar as correntes que algemamos em nós mesmos, vestir roupas confortáveis para ir ver o pôr do sol e comprar bilhetes pra outras cidades sem ter lugar pra passar a noite. No fim das contas pode ser qualquer ano. O que importa é como a gente se apresenta no espaço, porque nem sempre dá pra mudar de país – às vezes não dá pra mudar nem de bairro! – mas sempre dá pra mudar a gente, e a forma como vemos tudo.

Talvez você devesse começar furando a orelha, vai doer um pouco mas depois vai passar. E quando tiver passado e você olhar no espelho, só vai ver você e o que a dor te deixou (brincos lindos e reluzentes!). Porque tudo passa, mas a gente fica aqui nesse nosso espaço. Vai doer um pouco, mas depois vai passar.

(E olha que eu ainda nem cheguei lá!)

 

 

@ohhcouture

Eu cresci amando contos de fadas.

Quando eu era mais nova a minha mãe lia histórias fantásticas para mim. Desde antes de eu nascer eu ouvi falar sobre leões reis, guarda-roupas mágicos, princesas corajosas, sapatinhos vermelhos de cristal e gatos sorridentes guiando o caminho. Todas essas histórias tem uma coisa em comum. Uma só não, aliás, várias.

A primeira delas é que nenhum personagem começa a história da forma como terminou. Enquanto escritora eu sei que a jornada foi feita para transformar o personagem, e que se ela não o faz amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem ele era quando começou o livro, é como se ela nem tivesse existido. Quem gostaria de escrever ou viver uma história que era melhor nem ter existido? Nenhum personagem merece isso – ninguém merece isso.

A jornada do herói, como chamam, é o que faz a história valer a pena. Todos os personagens a iniciam de uma forma e a terminam de outra. A vida é sobre isso, e é por isso que nos dizem para nunca ter medo de transformações. Mudar de opinião, gostar de uma coisa que você experimentou há muito tempo e não gostava, cortar o cabelo mais curto do que jamais pensou ter coragem, assumir seu gosto musical ou estilo em se vestir, trocar de curso na faculdade, se distanciar de pessoas que você confiava e não confia mais. Amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem você era quando começou. Você vai passar – muito – por isso. Significa encontrar a sua verdadeira voz.

E observei também um denominador comum entre essas jornadas e esses heróis. É que são jornadas difíceis. Não pode haver nada de simples em abandonar toda a vida que se conhece para se arriscar no além-mar. Digo, no desconhecido. Os personagens que não embarcaram em jornadas foram convocados para elas por acidente, ou por acaso – mas a jornada os mudou mesmo assim, trazendo a eles um novo conhecimento e perspectiva sobre si mesmos que não tinha antes. Dorothy Gale é uma personagem por quem tenho grande apreço. E ela nunca embarcou numa jornada, ela foi sugada para dentro de uma.

O terceiro ponto que costura todas as histórias vai além da transformação que a jornada proporciona e como essas jornadas se apresentam. É quem trilha a jornada conosco. Totó, eu não acho que estejamos mais no Kansas. Eu nunca disse, mas poderia ter dito muitas vezes. Porque foi muito mais de uma vez em que me vi girando no olho do furacão, sem chão sob meus pés e sem apoio para as mãos, sendo lançada para muito distante da minha zona de conforto e nada além de um amigo muito leal ao lado.

Tem pessoas que escolhemos para estar ao nosso lado, tem pessoas que são chamadas para as mesmas aventuras que nós, outras que são jogadas pelo furacão no meio delas, tem gente que nos escolhe para andar com elas pelos tijolos amarelos. E é a lealdade de quem caminha conosco que determina os pedaços do caminho em que vamos cantando de braços dados e os quais vamos fugindo de raios, trovões e macacos voadores se aproximando do oeste.

E veja bem, o nosso trajeto permanece o mesmo. A distância que percorremos permanece a mesma. Amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem éramos começamos, ainda é uma coisa que nós vamos passar. Mas o terceiro ponto – é quem trilha a jornada conosco – é que determina a forma como todo o resto acontece.

Eu percorri uma jornada certa vez com uns leões medrosos. São pessoas que se apresentam para nós como pessoas aparentemente forte e de bom coração, mas que não tem bravura o suficiente para enfrentar seus próprios medos, e por isso tem medo de todo o resto. Sair em busca de coragem é entender que quando não há medos do lado de dentro os medos do lado de fora não tem força para atrapalhar.

Encontrei também certos espantalhos, expostos às durezas da vida sem nenhum tipo de cuidado e por mais tempo do que alguém pode suportar – é fácil esquecer o que realmente importa. Ter pessoas em nossas vidas com a cabeça no lugar e um cérebro em pleno funcionamento é o que nos permite continuar a jornada mesmo quando queremos seguir um caminho mais fácil. Os amigos com cérebro sabem que não dá pra fugir de onde precisamos ir, trilhar, chegar. Eles são sinceros e nos colocam de volta na estrada de tijolos amarelos.

O furacão tira a gente de casa, nos joga em outra terra, com perigos diferentes e estranhos além de tudo que pensamos existir, e ele tem a gentileza de nos dar coragem e sensatez, mas às vezes ele jogar pessoas com bom coração no meio das nossas aventuras, (por vezes pessoas que por terem sido afastados demais não se lembram de como fazer de outra forma, mas o coração segue lá dentro). Percorrer o caminho com pessoas que tem coração é um fator que determina quão longe você pode chegar. As pessoas de coração são as que tem gentileza o suficiente para nos avisar quando pisamos fora do caminho e quando estamos deixando que as transformações necessárias que a jornada exige está nos levando pra longe demais de quem éramos.

Tem pessoas que procuram saber das nossas fraquezas para nos tirar do nosso caminho. A lealdade das pessoas que muda quem nós somos e faz a jornada valer a pena para além de nós é quando elas nos enxergam da forma mais fraca que podemos chegar, sabendo quão limitados somos e nos fortalece para que sejamos capazes de mudar sem esquecer de quem somos. Chegar ao fim da jornada é chegar diferente, sim. Mas ainda é necessário que sejamos nós mesmos. A jornada é do herói, mas ele nunca chega ao fim dela sozinho. Nunca. Carrega partes do eu que saiu na jornada, carrega partes de quem caminhou com ele, de quem o carregou até ali, de quem ele é agora.

Ele nunca chega conforme saiu. Nunca.

Ele ganha coisas que nunca sonhou existirem. Deixa para trás toda a vida que conheceu sem saber se ainda vai caber nela quando voltar – se ela vai caber nele. A transformação começa no embarcar. No abrir mão, no ser capaz de aceitar a estrada de tijolos amarelos como um meio para um fim.

Eu cresci amando contos de fadas. Mas eu só de fato os entendi quando vivi um. A jornada não é sobre encontrar o amor. Nem sempre se escolhe a jornada, às vezes o furacão nos joga pra dentro dela. Mas nunca nos joga sozinhos. A jornada é sobre encontrar a si mesmo – e o mundo todo que cabe aqui dentro, muito além do meu celeiro. E todo mundo que caminha na estrada dourada (já me disseram que é que nem a vida).

_________________

I wish to go home.
E a aventura acaba tão rápido quanto começou,
a estrada de tijolos desapareceu, nenhuma cidade esmeralda no horizonte,
e o celeiro no quintal.

com amor,
cs
(que vai de glinda às vezes)
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