Querido E.,

Eu costumava colocar todas as coisas mais importantes sobre mim dentro de uma caixa. Era uma caixa bonita, eu gostava de morar dentro dela. Tinham algumas corujinhas voando de um lado pro outro e uma das paredes era rosa, a outra verde limão. Uma imensa máquina de escrever me fazia companhia ali num cantinho, e o motivo pelo qual eu colocava tanta coisa ali era porque eu achava que era o único lugar que me cabia.

Somos doutrinados a nos diminuir para caber nos lugares. Hoje eu sei que fazia isso porque não acreditava que a magia em mim era poderosa o suficiente para me assentar em espaços maiores, portanto, me escondia.

Ter encontrado você foi uma coisa importante para mim, porque você me relembrou lições sobre a magia que há muito tempo eu havia esquecido, e embora a sua pessoa estivesse destinada a se assentar em tronos muito maiores, não pensou duas vezes antes de me abraçar com cuidado e aninhar seu corpo no meu numa madrugada de primavera.

Eu não acho que os fios do nosso destino terminem num laço, mas em muito me alegra saber que as mãos que seguram a agulha e a tesoura foram cuidadosas o suficiente pra permitir que alguns dos meus pontos fossem costurados junto aos seus aqui e ali nessa colcha de retalhos.

Sabe, E., eu descobri que o significado do seu nome é esperança e acho que em toda a magia oculta na linguagem parece irônico que você não seja capaz de esperar grandes coisas de seus próprios feitos nesse momento. É tão difícil, eu sei. Sentir por tempo demais ou ouvir de outra pessoa que não somos o suficiente nos faz achar que o nosso lugar é pequeno e nossos melhores talentos cabem melhor dentro de uma caixa de sapatos embaixo da cama, só pra gente.

Mas eu espero que você seja capaz de romper com o medo e se posicionar em lugares maiores do que dentro apenas de si mesmo. Vejo tanta magia em você, gostaria que visse também. A forma como você ilumina minha noite e me faz sentir como se todas as coisas pudessem ser resolvidas amanhã bem cedo, depois do café, é um sentimento que eu já sinto saudades desde agora.

A vista de fora é linda. Eu gostaria que você pudesse sentir o vento, ver o rio e o vale, apreciar o cheiro das árvores e o barulho que elas fazem no silêncio da noite quando seus galhos são balançados. Por favor, não se diminua para caber em espaços tão pequenos.

Tenho esperança de que um dia você vai acreditar em você o suficiente para saber que merece um lugar fora dessa caixa. Há bagunça em toda parte, mas quanto menor o espaço que tentamos nos encaixar mais as coisas vão ficar fora do lugar pois há muito em nós que não cabe em parte alguma, até criarmos o lugar propício para que essas coisas possam existir em harmonia com quem nós somos.

Você criou lugares novos em mim para sentimentos que eu não podia esconder ou conter em caixa nenhuma.

Por toda a vida somos doutrinados a nos diminuir para caber nos lugares que as pessoas esperam que nós preenchamos. Mas o amor não nos ensina a encolher, ele nos ensina a aumentar. Eu desejo ter sido capaz de fazer você se sentir um pouco maior do que você realmente achava que era. Na maior parte das vezes coragem não é realmente algo que sentimos, mas algo que fingimos sentir para que através do acreditar que ela existe, se torne real em nós.

Sei que há uma pessoa por debaixo dos seus escudos de guerra, e sei que por muito tempo você acostumou a carregar o peso dessa armadura, mas antes de ir embora eu precisava muito te dizer que eu me apaixonei por quem sustentava essa armadura, muito mais do que o quanto ela brilhava ou quão reluzente parecia estar mesmo que você sangrasse por debaixo dela.

Se eu pudesse deixar uma única mensagem depois de tudo, pediria que você deixasse a armadura dentro da caixa e fosse capaz de conhecer o mundo um pouco mais leve, com todo seu glorioso esplendor, em sua própria e gigantesca companhia, que é sem dúvida nenhuma a melhor que já tive em muito tempo.

Não acho que eu vá te escrever mais por enquanto, não aqui, não dessa forma. Mas não parecia certo não me despedir com uma carta – são as palavras mais minhas que esse pulso poderia trazer à existência – talvez a próxima eu te entregue em pergaminho. Essa carta não é apenas para dizer tudo isso e me despedir, é também um obrigada. Por me aquecer e me lembrar o significado da luz que brilha em mim.

Espero que saiba que eu gostaria muito de ter ficado, te ajudado a carregar as coisas pesadas, tentar curar as feridas debaixo da armadura e aninhado meu corpo no seu com carinho por algumas madrugadas a mais – em qualquer estação – mas é muito difícil lutar contra você por esse espaço quando você não acha que merece caber nele.

Há magia em toda parte, meu bem, acredito que as suas chances de mudar as coisas e ser forte são muito maiores fora dessas armaduras pesadas que você insiste em carregar para se esconder em espaços menores do que é. Tenho certeza que ainda vou te ver se assentando em tronos muito maiores. Tudo começa a acontecer quando a gente deixa os medos, as caixas e as contenções de quem somos no passado e se projeta para ser quem somos destinados para ser.

com amor,
arw

 

Eu podia sentir que ele me amava em cada aspecto que é possível de se amar alguém. Nas coisas que se podem ver e nas que não se podem, no entanto, quando ele olhava pra mim eu sentia a colisão dos sentimentos dele com os meus emergirem de dentro pra fora. Acho que eu brilho mais forte perto dele, mas não sei se ele sabe que também é uma parte da combustão.

O amor, eu acho, começa como uma admiração antes de queimar e brilhar.

A gente admira as pessoas pelo que elas escolhem ser, apesar do que a vida insiste em torna-las. Há quem escolha ser forte, ou ao menos se sentir forte mesmo que não seja, pra conseguir continuar. 

Eu soube desde o primeiro momento que ele me admirava, mas eu não tenho certeza se ele soube que era recíproco. É curioso como a gente pensa pouco de si mesmo.

Ninguém esteve tão presente no nosso inverno quanto nós mesmos. Ninguém acompanhou tão de perto quando apareceram pra roubar os frutos, ninguém viu a troca de cor das folhas – uma a uma. Só a gente que viu, centímetro por centímetro, quando a seiva começou a nutrir as folhas, tão antes de elas caírem ao chão. A gente é quem sentiu os galhos sacolejarem e depois se partirem. Só a gente sabe quanto frio fez.

As flores são bonitas, e as pessoas as vêem de longe. Mas é curioso como a gente pensa pouco de si mesmo, porque ninguém esteve tão presente no nosso inverno quanto nós mesmos.

Em muitos aspectos eu acho que ele me lembrou um pouco das belezas simples. À distancia a lua é linda e iluminada, mas de perto é cheia buracos, vazios e muitas coisas que um estrangeiro não pode conhecer até ter chegado perto o suficiente.

Coração dos outros é terra estrangeira pra gente. Ainda não tenho certeza de que um dia o conheceremos bem o suficiente pra ganhar cidadania e visto permanente pra viver de perto cada detalhe, mesmo as crateras mais fundas.

Eu poderia fazer uma lista de todas as coisas que são bonitas de longe: café fervendo, a lua e as estrelas, o século XVIII, peixes com escamas azuis brilhantes, tulipas roxas, o coliseu, a vista do alto de um despenhadeiro, o mar.

Nem tudo a gente pode chegar perto o suficiente. Ô mania de querer tocar as coisas intangíveis.

Uma estrela brilhou no nosso encontro, ele disse – antes de me tocar.

Quando duas estrelas colidem e uma delas é mais densa que a outra ela absorve o calor e juntas se tornam uma maior. É o que chamam de globular cluster. Quando uma estrela pouco quente e viva – a vermelha, que já queimou muito hidrogênio – colide com uma estrela mais densa e viva que ela – a azul, com mais massa e que queima hidrogênio mais intensamente e por isso é mais inflamável – ela pode se tornar tão quente que fica azul mesmo tendo sido vermelha a vida toda. É o que chamam de blue sttraglers.

A gente não entende o que torna as coisas bonitas. A beleza que podemos ver é apenas o que sobreviveu aos colapsos e combustões. As flores só são bonitas à distância porque nós não vemos quão perto da morte elas chegaram no inverno – se soubéssemos veríamos as flores como um deboche na cara da morte.

Por isso que quando ele olhou pra mim e disse que eu era uma das coisas mais lindas que ele já tinha visto, eu sabia que não era sobre as flores que ele podia ver mas sobre cada vento e neve que eu contei que tinha enfretado, mesmo que para ele a estação mais fria ainda esteja na metade.

É mais difícil pensar pouco de nós mesmo quando tem alguém logo ali nos lembrando constantemente de que somos maiores do que o inverno. Ele não precisava lembrar, ele precisava descobrir. Nem toda beleza que eu vi nele foi suficiente pra que ele brilhasse.

Uma parte de todas as coisas lindas sempre vai ser que nem a lua, cheia de buracos e vazios que nenhum estrangeiro pode conhecer até ter chegado perto o suficiente. Eu queria muito que ele pudesse ver motivos para continuar emitindo calor e brilho apesar disso, porque quando a estrela dele colidiu com a minha e ele me informou em um idioma mágico que o céu se iluminou de um jeito diferente, ele não sabia, mas ele também era parte da combustão.

É uma pena que por vezes demais a gente se acostume com o inverno para entender o fenômeno que começa com pequenas sementes se descongelando e brotando em terrenos áridos e quase inférteis. Mas eu ainda vou continuar admirando as flores, as luas, as estrelas e as pequenas belezas de quem se veste de força pra se sentir quente e continuar.

Mesmo de longe.

Porque ainda em seu inverno, ele me olhava como se eu fosse a coisa mais linda que ele já pudesse ter visto, e isso foi antes, durante e depois de tropeçar nos buracos e vazios deste corpo solar reluzente que sobrevive e brilha com mais luz à noite. E eu posso sentir, independente dos quilômetros de distância invernal que nos separam.

Eu nunca falei isso.

Não pra você, não em voz alta. Nem pra mim mesma, porque as palavras tornam tudo real, e pronuncia-las é trazer à existência coisas que não existiam, ou que existiam mas podíamos ignorar antes de serem verbalizadas.

Mesmo não dizendo eu sentia. E percebo agora que é muito difícil modalizar sentimentos para que pareçam com o que precisamos que eles sejam. Eu não poderia ter deixado você ir embora sem que soubesse, sem que conhecesse o sentimento real que eu sinto, ao invés do que o que eu achei que deveria ser.

Foi o que me trouxe aqui. As palavras sempre me buscam quando tento me esconder, por tempo demais, das verdades. Tempo demais em silêncio também me faz organiza-las melhor, é na saudade que as palavras me abraçam como se nunca tivessem ido embora.

Não sei se algum dia você vai ler esses pedaços de alma que espalhei no meio das letras e perceber que poderia ter amado essa mulher, mas não vejo como isso vai fazer diferença, já que daqui a pouco eu não serei mais ela. Mas eu vou me esforçar, pois prezo pela sinceridade nas coisas e a guria que eu sou hoje quer te contar algumas coisas – eu não quero mais me engasgar na tentativa de conter as palavras dela.

Talvez foi a minha síndrome de tentar fazer as pessoas se sentirem melhores. Foi a minha tentativa de permitir que as pessoas – você – contassem suas histórias e fossem ouvidas. Foi aquele negócio que eu sempre faço, de ser muito doce e prestativa, compreensiva e amável. Disponível e receptiva.

Foi tanta coisa. Foi quase tudo antes de ser qualquer coisa, porque você foi pra mim a maior possibilidade que eu tive desde que eu decidi aceitar o talvez. Você não foi um quase talvez. Tudo em ti era um talvez certo. Seu jeito de me dar bom dia nas primeiras semanas, a forma como você queria compartilhar coisas pequenas, o fato de que você estava passando por grandes coisas na sua vida e falar sobre isso comigo o tranquilizava. Os teus segredos só a mim confidenciados, os conselhos que eu dei sem você pedir. O dia que eu li sua personalidade quase tão facilmente como a cigana lê o futuro com algumas linhas na palma d’uma mão aberta.

Tudo, absolutamente tudo em você gritava Talvez pra mim.

Você gritou tão alto depois de um período tão grande em que eu passei navegando em silêncio que não tinha como eu não ter ouvido. Foram meses e meses sem nada além de um mar azul e o eco da minha própria voz.

Eu nunca falei isso. Não em voz alta, não pra você. Eu não sei até hoje se você foi a tempestade ou o bote salva vidas, o deserto ou o oásis, a noite ou as estrelas, mas o fato é que eu gostaria muito que você olhasse pra esses pedacinhos de alma que espalhei no meio das palavras e entendesse como o seu talvez amor talvez tenha me mudado, me aquecido e me partido. Muito antes de toda essa maré ter virado meu barco.

Eu nunca vou dizer isso. Não em voz alta, não pra você, mas eu quase tenho certeza de que eu queria muito que o seu talvez tivesse ficado. Que sentimento é esse eu não sei, talvez nem tem nome. Talvez eu chamasse ele de você, de amor, de querido. Se você não tivesse me mudado, me aquecido e depois partido, talvez a gente descobrisse.

As chances são grandes de que mesmo quando você olhar pra trás e perceber que talvez tivesse amado essa mulher, mesmo lá, a gente não descubra mais.

 

Páginas123... 27»



Top