Textos
19/04/2017

Tem alguém que saiu da sua vida que você diria alguma outra coisa se pudesse?

É um grande clichê, mas eu penso muito sobre o fim das coisas quando penso na morte. Escrevi no meu último texto que a morte é apenas o nome que se dá quando alguma coisa chega ao fim. E, essencialmente, isso significa que todas as coisas vão morrer. E, sabe, a morte de alguém não significa que essa pessoa não existe mais, ou que ela está sete palmos debaixo da terra. Significa que você não pode contactá-la. Significa que não importa o que te aconteça essa pessoa não pode te ajudar. Significa que ela não está aqui mais, e você está, e você vai viver coisas – novas coisas, grandes coisas, coisas assustadoras – sem ela sequer ficar sabendo.

E, sendo bem sincera, a gente não pensa sobre isso direito no dia-a-dia. E tudo bem, porque a morte é o tipo de assunto que torna a vida muito diferente e nem sempre isso é o que deveria ser. Esperar que todo mundo entenda o valor das coisas – das pessoas, das relações – antes da morte não é realista. É como esperar que todo mundo vá se tornar poeta. Algumas pessoas simplesmente não tem o quê precisa.

E, de fato, encarar a fragilidade das coisas é uma condição que requer cautela. E o mundo não é feito de pessoas cautelosas. Você sabe, nem todo mundo vai se tornar poeta. Mas você sabe como é ligar para alguém que você sabe que não vai te atender?

Ligar para alguém que está morto é como esperar que todas as pessoas se tornem poetas. Não pode ser feito. Não pode ser atendido. É uma chamada sem fim, na qual, a cada segundo, você espera que o turu-turu seja substituído por um Alô, que, você sabe, os mortos não podem dizer. E os mortos, mesmo aqueles que encheram a sua vida de vida, não podem falar sobre essas coisas. Porque a morte é o fim das coisas como nós a conhecemos. Por isso às vezes matamos pessoas em nós. Não porque esperamos que elas deixem de existir, mas porque esperamos – precisamos – que elas deixem de existir como nós as conhecemos.

E existem pessoas sobre as quais não podemos dizer certas coisas. Ou pensar certas coisas. Porque elas são queridas demais à nós para que aceitemos que morreram. Existem pessoas que seguram consigo, para sempre, mesmo depois do fim, uma parte nossa. Tão intrinsecamente nossa, de quem éramos, que aceitar a morte da pessoa se torna muito mais difícil pois sabemos que não é apenas à ela que estamos dizendo adeus, mas também à todo eu que éramos enquanto aquela pessoa vivia. Nós seguramos conosco os fragmentos dos outros.

Os outros seguram com eles os nossos fragmentos.

É uma parte do que torna as coisas eternas. Ao morrer eu me diluo de mim e existo, meio aguada, meio fosca, naqueles que me carregam. Isso faz de mim eterna. A morte não pode ser meu fim pois eu não vivo só em mim.

Dizer adeus. Perder alguém. Encarar a morte. São ações que nos custam. Mas vamos ter que fazer isso. Repetidas vezes vamos ter que fazer isso. E nunca vai haver um jeito certo de fazer. Alguns de nós ainda ligam para os mortos sabendo muito bem que se trata de uma linha muda. É curioso como às vezes ao tentar contactar uma pessoa que se foi o que nós estamos fazendo, na verdade, não é esperar que ela volte, mas que traga consigo todo o nós que existe nela.

Por isso, tem alguém que saiu da sua vida que você diria alguma coisa se pudesse? Tem algum alô que você espera ouvir, que faria alguma diferença? Você já teve um dia tão ruim que só uma pessoa que já te conhecia muito antes de você deixar de existir como você conhecia poderia te resgatar de uma existência na qual você não possui mais os fragmentos de si mesmo?

Eu já te disse tudo que eu precisava. E mesmo que haja uma nova infinidade de coisas que aconteceram depois, fragmentos do meu eu que você nunca vai ter acesso, tudo bem. Pois há uma caixa novinha em folha com uma porção de cartas que dessa vez vai realmente ficar apenas comigo. E, sim,  às vezes me falta ouvir as palavras que as minhas frações em você diriam de mim mesma.

Escrevi, por anos, cartas de amor a seu respeito muito ciente de que elas deveriam ser cartas de apenas amigos. E agora guardo quilos e mais quilos de tinta e lágrimas em papel em uma nova caixa do que poderiam ser apenas anônimos.

Pois você não é quem era quando eu deixei um fragmento meu contigo. E é no não sabendo quem você é que eu sei, só pode ser muito diferente do você de antes para deixar morrer o meu eu que te confiei. Entendo que é no enxergar as coisas – como nós as conhecemos – morrerem que aprendemos a enxergar a vida – como não a conhecemos – nascer. Mas o custo é sempre a morte.

O custo da vida é sempre a morte.

Se eu pudesse te dizer algo, logo a ti, razão das minhas primeiras cartas guardadas numa caixa de sapatos, logo a ti que sempre me leu muito bem, que sempre atendeu minhas ligações, eu diria que acho que tudo bem você não enxergar isso. E tudo bem não se enxergar nisso.

E tudo bem não atender o telefone.  Não são todas as pessoas que vão se tornar poetas e encontrar beleza em todas as coisas. Em todas as mortes. Em todas as dores. Em todos amores.

Mas todas vão sim, em algum momento, se tornar poesia.

Beijos,
Carol Santana
Textos
18/03/2017

Querido,

É bem verdade o que nos disseram.

O tempo realmente cura, sabe? O tempo permite que o pijama no guarda-roupa perca um pouco do cheiro, e que o sorvete da esquina se misture às milhares de sorveterias que só vendem sorvetes ao invés de um combo de banana split com sorvete sensação – ah, os floquinhos de chocolate! – e beijos doces. O tempo propicia à árvore que se fortaleça ali nos lugares onde dedos recém entrelaçados um dia rasparam suas iniciais. É também o tempo que preenche os domingos preguiçosos com uma porção de açúcar aonde deveria haver um segundo lugar ocupado no sofá, para um segundo controle do vídeo-game sem parecer que o segundo lugar ou o segundo controle devessem estar ali.

É como disseram, eu sei.

Que o tempo passa e a gente se distancia das pessoas que éramos quando nos apaixonamos. É bem verdade, eu sei. É bem verdade que não vamos morrer ou ser infelizes, ou sorrir menos porque não estamos juntos. Não sei se está feliz, mas espero que esteja e isso não significa que precisa – ou que deve, ou que vai – ser ao meu lado. E, tudo bem, sabe?. Porque ninguém disse isso, mas eu descobri que vamos amar pessoas diferentes, com intensidades diferentes e em momentos diferentes por causa de quem somos quando estamos com elas – e por causa de quem precisamos ser aqui e ali ao longo do tempo.

E não vai ser mais ou menos amor. Mas foi também o tempo que esfregou na minha cara que é possível ser diferente e ainda assim ser amor. Ser muito amor. Ser amor pra caralho.

Não gostaria que você achasse que escrevo qualquer uma dessas palavras com algum arrependimento por tudo que vivemos, ou – e, principalmente – arrependimento por ter partido, pois há muito sentimento aqui, mas, arrependimento não é um deles. E como a gente chama um arrependimento que não chega a ser do que foi, mas de tudo que haveria de ser? Esse foge um pouco do meu controle, você sabe, eu sempre tive a imaginação um pouco fértil.

O tempo, que vagaroso vai passando e ao pôr-do-sol corre mais depressa, insiste em nos mostrar que ele vai levar todas as coisas até que, uma a uma, elas tenham nos dito adeus por completo, e, mesmo ele – que é eterno – vai embora quando morremos. E pensei sobre isso, sabe, meu bem? Pensei sobre como a morte é, na verdade, quando o tempo de alguma coisa chega ao fim.

O que significa que a morte no relacionamento não significa a morte do amor. E às vezes me ocorre, que poderia ter tentado, que não estávamos prontos e que mesmo o amor não pode escapar do remédio – que é o tempo. Mas é quando o tempo passa rápido e o pôr-do-sol devagar que todas as respostas clareiam a noite feito céu estrelado. Nunca estaríamos prontos. Ninguém está pronto para o amor. Ninguém se prepara para ele. Ninguém pode compreendê-lo. Ninguém pode explicá-lo.

Não estávamos prontos, não poderíamos ter estado. Não há simulação para a prova do amor, não há gabarito com resposta certa. Há, sim, algumas reprovações e acertos. Mas não há remédio – mesmo o tempo – para curar o que não é um mal da alma. O amor é bem do coração. No fim das contas talvez o amor não tenha curado o meu amor porque ele só pode dar fim ao que é efêmero. E posso até morrer um dia, mas o meu amor..

Talvez signifique que embora alguns amores não morram, a morte do fim é quando seu tempo acaba. E só posso concluir com isso que depois dele vem um novo.

Recomeço.

Haveriam de ter nos dito, meu bem, que o tempo só pode consertar o que está quebrado, e de inteira que me tornei acabei tropeçando na verdade de que cabe mais do que um amor eterno em seres humanos assim tão complexos como nós. Poucas pessoas acham uma caixa só o suficiente para guardar memórias especiais, a maioria transborda pelas bordas e se espalha universo afora. Como se as memórias fossem o próprio amor, desacelerando até o mais rápido dos pôres-do-sol – que transformam um céu azul em laranjado logo antes de ele brilhar na noite escura.

Faithfully yours,

M

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Beijos,
Carol Santana
Textos
13/02/2017

Eu queria muito escrever um texto sobre o amor.

Dizem que um escritor precisa escrever sobre o que conhece, e eu queria muito escrever sobre o amor. E não consegui, sabe? Foram muitas semanas – eu não disse horas, ou dias – encarando uma tela em branco e apertando muito mais as teclas que apagam do que as constroem. E eu acho que o motivo pelo qual eu não posso escrever mais sobre isso é porque, pra falar a verdade, eu não sei se eu ainda sei o que é o amor.

Sempre achei que soubesse. Puxa, como fui bem resolvida com isso por toda minha vida! Foi meio da noite pro dia que eu percebi que o amor não podia ser nada daquilo que eu criei na minha mente, porque ele estava me matando. Então a primeira coisa que eu preciso te contar sobre o que eu entendi depois de desaprender tudo que eu não sabia que não era amor é que, diferente do que achava, o amor não é uma pessoa. Hum-uhn, não senhora.

O amor não é ele ou ela. Não vai ou fica, não. O amor é enquanto você for, e deixa de ser quando você não for mais – o que quer que você seja – tudo aquilo que você for. Mas você não vai encontrá-lo nos outros, porque o amor não é uma única pessoa, é meio que um espelho que você não vai entender muito bem o que tá refletido se estiver quebrado ou sujo – mas ainda vai ser o seu reflexo.

E enquanto eu estava pensando no que escrever no meu texto sobre o amor  eu entendi que o amor não podia ser nada daquilo que até então eu pensava que era, porque o amor não destrói, ele cura. É importante que eu te conte essa segunda coisa que eu aprendi sobre o amor: a cura nunca estará em quem te feriu. Não volte pra lá tentando encontrar aconchego ou certezas, quem te feriu é porque estava, de alguma forma, ferido, e não há nada que você possa fazer para mudar essa situação, porque o amor dos outros não está em você.

Acho que, embora eu não saiba muito sobre o amor para ter certeza, sei o suficiente pra dizer que, Hey, você vai ficar bem. Seu coração já está bem, viu? Seu coração está curado. Eu sei, eu sei, você acha que não porque o seu coração pesa como se estivesse fora do eixo, e também meio partido, fora que o ritmo também não parece muito certo e você não sente a velocidade estável como sentia antes. Mas o seu coração está curado. Você precisa curar sua mente. Todas as memórias guardadas nela, todos os perfumes, texturas e sabores que você acha que nunca vai esquecer e te mantém acordada à noite é o que torna teu coração pesado, desajustado, quebrado e descompassado. Mas a sua mente vai se curar. Avise a ela, é importante que saiba disso, porque o processo começa quando você olhar para aquele espelho e o reflexo nele te sorrir de volta todo despido dos vários antes e muito ansioso por todos os depois.

Eu gostaria de poder dizer que o amor é isso ou aquilo outro, mas acho que eu ainda não aprendi direito o que ele é porque a pessoa que viveu tudo aquilo que eu achava que era amor não mora mais em minha mente – será que algum dia terei aprendido?

De modo que esse texto não é sobre o que o amor é, e sim sobre o que ele não é. O amor não é difícil e te faz sangrar, isso é outra coisa. O amor não sai por ai e te deixa sozinha para lidar com seus demônios, isso é outra coisa. O amor não te liga só de segunda à quarta e depois some, isso é outra coisa. O amor não te bate mas depois pede desculpas e compra flores, isso é outra coisa. O amor não te faz pedir desculpas por coisas que você não achava que devia, isso é outra coisa. Amar pessoas que te odeiam só significa que você não se ama o suficiente pra gostar de você. Mas eu gostaria muito que você tentasse pois enquanto você não puder encontrar dentro de você a força para ser o mundo inteiro vai te dizer para não ser. Enquanto você não puder encontrar dentro de você a força para amar o mundo inteiro vai ter o poder de não amar.

Disseram que era pra eu escrever sobre o que eu conheço, e eu não pude escrever sobre o amor porque não acho que eu saiba direito o que ele é nesse momento ou o que refletiria, mas mesmo eu, que não sei nada sobre o amor, posso escrever que o amor da sua vida – primeiro, segundo, sexto, décimo segundo – não vai ser medido, encontrado ou identificado a partir do que você sentiu pelos outros antes, então se essas histórias acabaram tomando outros rumos você trate de curar sua mente e colar teu espelho, porque até aqui o que posso dizer é que amor da sua vida não é o primeiro que mudou tudo ou o segundo que segurou sua mão depois de o primeiro ter ido embora, ou o terceiro que tirou seu fôlego e te levou pra ir ver o mundo. O amor da sua vida é o último, aquele que te faz não sentir nada tão aconchegante por ninguém nunca mais, e fica porque sabe que você também está refletindo todo o aconchego que ele também emana.

Beijos,
Carol Santana
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