Querido leitor,

Puxa, que impacto começar uma carta assim. Ainda mais quando somos tão íntimos. Mas, eu realmente quero bater um papo mais direto hoje, você topa? Vamos lá! Eu sei que a Cecília e Tatá topariam, então faça-me o favor de entrar a bordo pois temos muito o que falar.

Eu tô aqui hoje, meu bem, porque – como sempre que me dá na telha de aparecer por aqui e sangrar alguns sentimentos pela ponta dos dedos – me deu uma vontade de falar um pouquinho sobre algumas várias coisas que eu venho pensando aqui comigo desde que pude refletir sobre isso há quase um ano atrás com os pés n’areia e o coração na mão.

Eu quero falar sobre identidade e sobre crescimento pessoal. E porquê as pessoas passam uma vida inteira dizendo que a vida é sobre se descobrir, e como a felicidade está diretamente ligada ao fato de se encontrar, quando na verdade deviam estar mais preocupados em nos avisar que a vida não é de fato sobre encontrar a si mesmo percorrendo rotas que outras pessoas percorreram, mas se respeitar o suficiente para amar o que você tem, entender o que você precisa – e porque precisa disso – e começar a construir a sua própria rota.

Descobrimento implica necessariamente em procurar coisas que estão perdidas, mas eu não tenho mais tanta certeza de que a vida é sobre isso tão mais do que ela é sobre criar a si mesmo – e começar com quem você é. Eu acho que por vezes você vai olhar para trás e não saber como foi que chegou aí onde está, mas o fato é que não saber o caminho pra casa é que te deixa perdido – muito mais do que não saber qual rota te levou até ai. Porque o ter chegado onde você está já passou, mas o voltar disso ainda está para ser feito.

Por um longo tempo enquanto eu ainda não sabia onde eu estava tudo que pude fazer foi cuidar de mim, porque o plano era ficar bem. Mas, sabe, o trabalho de apresentar-se a si mesmo é um tanto quanto suado pois requer, em primeiro lugar, dizer adeus a quem não mais somos.

E por longos 22 anos eu fui a única versão de mim mesma que eu conhecia. Dizer adeus pra isso foi um trampo sem fim, mas eu teria feito mais cedo se confiasse na minha imaginação o suficiente para acreditar que aquela garota que eu sempre admirei e quis ser estava a um Adeus de distância.

Por vezes eu acho que os sonhos são uma chance à criação, e que não exercer essa criatividade é como matar a criança que mora na nossa alma.

E eu sei que eu sonhei com ser forte. Sonhei mesmo. Foram váaaarias horinhas descuidadas que passei imaginando em como deveria ser essa sensação achando que ainda não havia chegado meu momento e sem me dar conta de quanta felicidade estava contida nessas horinhas de descuido, era como estar sentada de costas para o sol olhando pro leste às seis da tarde e zangada comigo mesma por não enxerga-lo se por.

Crescer não é sobre mudar a pessoa que você é, mas sobre mudar a forma que você trata a pessoa você é. Em muitos aspectos eu ainda sou a mesma garota, embora eu hoje alterne meu olhar entre a linha do horizonte e umas conchinhas a beira mar, enquanto a garota que eu fui sonhava em voar, voar, voar e dormir em nuvens de algodão. Crescer não foi sobre sonhar em me tornar quem as pessoas achavam que eu era, mas, essencialmente, sobre ser quem eu era.

Quem eu sou.

E aonde estou eu agora além de aqui, dentro de mim?

Haverão de ter ainda muitos segundos, minutos e horas gastos – ganhos – criando essa garota. Descobrindo esse lugar. E no caso de não encontrá-lo no mapa, desenha-lo ali como se chegar até ele fosse rabiscar uma folha em branco. Perdemos tripulação, lançamos botes salva-vidas, jogamos mais cartas ao mar do que ele podia se encarregar de entregar, abandonamos o navio e quase morremos na praia, mas você sabe o que dizer sobre a tempestade.

E se não sabe esse é sempre o lugar onde poderá descobrir que quando a tempestade tiver passado você não se lembrará de como você passou por ela, como você fez para sobreviver. Você nem terá certeza de que a tempestade realmente passou. Mas uma coisa é certa, quando você sair da tempestade você não será a mesma pessoa de quando entrou nela. É pra isso que serve a tempestade.

Eu só posso esperar que você me acompanhe nesse va-a-a-a-a-i e v-e-e-e-e-m salgado e rítmico das ondas de uma descuidada.

Não garanto seguir as pegadas que os outros deixaram na minha praia, mas prometo pôres-de-sol em paleta de roxo com laranja, água de coco gelada e todo tipo de conchinhas que você puder carregar. Quando vejo o mar existe algo que diz que a vida continua – se entregar é uma bobagem – e se você apenas pudesse ver isso também, puxa, meu bem! Como eu gostaria que pudesse. Tem uma vista tão bonita daqui, se você souber pra onde olhar. Não é atoa que a água espelha o nosso reflexo. Grandes ventos no litoral podem até causar o maior rebuliço, mas eles também levam embora uma grande sujeira. Eu não acho que esteja naufragando mais, Totó.

Ah, olha só o que eu achei: cavalos marinhos.

com todo o amor do mundo,

carol mckinnon

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Querida cecília,

Feliz aniversário.

Há muitos anos eu não escrevo uma carta nominal à alguém mas me parece que você vai aproveitar essa, portanto, senti de escreve-la. Quero muito que você aproveite os seus 22 anos pois se eles forem tão maravilhosos quanto os meus você soprará 23 velas daqui 364 dias como uma mulher muito diferente, e se não forem, bem, não precisam ser, de fato. Pois embora eu te ache uma das pessoas mais maravilhosas de todo este mundo também sei que você não vai fazer nada como eu – ou qualquer outra pessoa – e os seus 22 anos serão tudo que você precisa que eles sejam.

O ano é 2017 e embora ele não pareça dizer muito às outras pessoas em geral eu espero que este seja um ano para você guardar no seu coração, não porque você foi à Londres, viu o Benedit ou fez qualquer outra dessas coisas que serviriam para aquecer o meu coraçãozinho vendo seu feed no instagram, mas porque eu te vejo se transformando a cada dia e se superando muito e encontrando em si mesma forças que aparentemente ninguém disse a você que você tinha.

Essa carta é um pouquinho pra isso, se eu tiver que falar bem a verdade (e tenho). Essa carta é para te dizer que talvez você não esteja vendo a luz no fim do túnel, porque a luz é você. E te disseram pra olhar pra frente, mas nunca te disseram pra olhar pra dentro.

Eu estou dizendo.

Foram 21 anos completos até agora. 21 invernos não ingleses, com 21 natais não londrinos e pelo que os olhos podem ver há muita coisa no lugar onde não deveria estar e muitos lugares cheios de ausência pelo que não está lá, mas deveria. E eu acho que com o passar do tempo se perde um pouco a percepção de que se sentimos como se não estivéssemos onde deveríamos estar é porque talvez não devêssemos estar ali e sim aqui.

Eu acho que você está onde precisa estar, sabe, meu bem?

Eu te vejo com toda essa força, sonhos e flexibilidade, e toda essa vontade de ganhar o mundo que, eu sei, vai te apresentar mundos extraordinariamente inesperados e eu só posso dizer que você precisa estar ai, por enquanto.

E que eu mal posso esperar para que o túnel se desmorone e o mundo inteiro possa ver toda essa luz que não está no fim dele, está bem embaixo e emana de você. Alguns tijolos precisam cair pra isso, sabe? Alguns passos precisam ser dados e é preciso muita força para se mover debaixo dos escombros, mas eu estou muito pronta para te ajudar porque é tudo tão poderoso o que você pode fazer que não poderia ser diferente. Não haveria de ser diferente mesmo.

Então, aproveite essa jornada até o vigésimo terceiro inverno.

Você sabe, há muitas flores espalhadas entre um solstício e outro, e eu tenho certeza de que no minuto que você enxergar a luz ela te fará ver todo o resto com muito mais clareza – mesmo se o túnel parecer ter ruído – porque você constrói suas próprias estradas.

Muito obrigada por me dar o privilégio de acompanhar esse caminhar nada além de mágico, surreal e com um quê tão nosso de mia dolan, você é como uma estrela no meu céu escuro que me aponta direções no meio da noite iluminando minha vida por vezes tão negra.

Há uma verdade que me levou mais do que 22 invernos para aprender e eu quero muito que você se lembre muito dela por todas as estações que a vida ainda vai te dar: o túnel, bem como seus caminhos, é você quem constrói ou derruba de acordo com a necessidade de chegar a lugares, a luz é nada além de você com sua necessidade de enxergar sempre mais longe do que os olhos poderiam ver na escuridão.

Feliz 22, meu bem. Não é como se você precisasse que uma cidade inteira de estrelas brilhassem pra você, pois na verdade você é a estrela na cidade, e, antes que você diga qualquer coisa por favor lembre-se: é mais do que um sonho de quimera, e sim, você é boa o bastante.

Eu estarei aqui, e você vai ficar bem.

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com amor, lene

 

Eu costumava deitar embaixo de uma árvore bem grande e olhar pro céu azul procurando formatos em nuvens.

A imaginação é uma coisa poderosa e eu sempre tive muito dela, e, embora isso nunca tenha me feito sentir-me mais poderosa, me impediu de ter medo. Foi ali, olhando brechas de azul perfurarem galhos verdes enquanto as nuvens corriam e se desmanchavam em segundo plano que eu aprendi a criar.

Imaginar coisas que não existem como se elas estivem ali requer mais do que paciência. Requer fé. Imaginação é uma questão de fé. Uma nuvem pode se desmanchar a qualquer momento, e um coração pode, tão rapidamente quanto se formou, transformar-se em uma coisa qualquer. Um coelho vira um chapéu, uma espada vira uma máscara.

Embora nenhuma dessas coisas esteja de fato ali, você está. Você e a certeza de que aquelas coisas poderiam estar também. Imaginar não é a certeza de que uma coisa existe ou pode existir, mas não imaginar é a certeza de que nada diferente vai acontecer, portanto, imaginação é uma questão de fé.

Faz tempo que eu não deito embaixo de uma árvore bem grande e olho pro céu azul procurando formatos em nuvens, e às vezes eu acho que isso me tira um pouco da imaginação. Não que tire o que já tenho, mas me saboto em não exercita-la para que se multiplique. Imaginação é uma questão de hábito. Você começa com nuvens, e depois transforma qualquer coisa abstrata em uma coisa mágica.

Mas eu sei que as nuvens estão ali, sabe? E eu sei que eu posso começar a qualquer minuto, e eu sei que elas vão – ou pelo menos podem – acender uma luzinha azul de imaginação que vai aquecer toda a minha vida quando faltar fé. Fé uma questão de hábito. Nem todos os dias vão transformar coelhos em chapéus ou espadas em máscaras, mas você precisa começar de algum lugar.

Pensar em árvores me fez entender as lições mais valiosas que carrego. Aprendi, raízes antes de frutos, há muito tempo.

E embora às vezes isso seja fácil de ser ofuscado pela correria e ansiedade, o que eu precisava ter aprendido veio muito depois: sementes, antes de flores, porque beleza é uma questão de imaginação, e imaginação é uma questão de fé, e fé é uma questão de hábito.

Plante coisas boas. A sua vida não é uma desgraça. Encarar a realidade e saber das suas fraquezas e dificuldades não significa que tudo está dando errado. Tudo dar errado agora não significa que vai ser assim para sempre.

Repita comigo, a minha vida é bonita.

Repita até acreditar. Beleza é uma questão de… bem, acho que já deu pra entender.

Não reclame de cada mínimo detalhe do seu dia – da sua vida horrível e inútil, oh, que grande azar estar vivo!

Ter imaginação, ver beleza e ter fé não é uma questão de otimismo. Todas as pessoas vão morrer a qualquer momento, e todas elas tem batalhas muito mais dolorosa do que você nem consegue supor – desculpe, não era pra soar tão mórbido! – mas antes disso todas vão viver um pouco, e vencer um pouco, e, com um pouquinho de esforço, florir o mundo. Sua gentileza não vai salvar o mundo se você não puder ser gentil consigo mesmo.

Plante coisas boas.

E comece por você. Sementes, antes de flores.

Todos os anos tem primaveras, mesmo aqueles de nuvens tão pesadas que nem parecem se mover sequer pra cessar a chuva. Chuva, aliás, só floresce sementes já plantadas.

Plante coisas boas e acredite, por um dia só, que vai florir. Amanhã leia esse texto de novo, porque sobrevivência é uma questão de fé, imaginação e hábitos frutíferos. Acredite, meu bem, já há pessoas demais matando sonhos nesse mundo. Seja um jardineiro criativo ao invés de um coveiro conformado.

Imaginação não é sobre utopia. Transformar uma nuvem em um coração, um coelho ou uma espada requer, antes de qualquer outra coisa, saber que a nuvem está ali, pra começo de conversa. Azul não é a cor mais fria. É o que se enxerga através dos galhos quando não há nuvens para se imaginar serem qualquer outra coisa. Mesmo chuva, mesmo sementes, mesmo flores.

E você passou a vida acreditando que nuvens eram apenas algodões pendurados ali descuidadamente pra bloquear a luz, tsc.

“The creative adult is the child who has survived.”- Ursula K. Le Guin

 

 

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