Querido Daryl,

Eu achava  engraçado o que o medo faz conosco.

O medo é como uma capsúla protetora. Quando somos criança e nossa mãe diz que não devemos colocar a mão no fogão pois podemos nos queimar, nós entendemos que queimar é algo ruim que nos causa dor, e temendo que isso aconteça nós evitamos o fogo, e sabemos que assim estaremos seguros. O medo nos salva da dor da queimadura,  o medo nos protege da ferida, e não nos permite ter cicatrizes.

Pelo menos, é o que dizem. Engraçado eu estar escrevendo sobre isso, porque eu sempre tive tantos medos, e hoje eu não tenho mais, porém quando tinha, nunca escrevi sobre isso, e agora não tenho mais, porém escrevo para que você saiba.  Talvez porque quando eu tinha medo eu achava que todo mundo a qualquer momento fosse me quebrar, e eu tentava de todas as formas me proteger disso. Me proteger dessa queimadura, dessa ferida, dessa cicatriz.

E agora escrevo porque quero que saiba que não está sozinho. Muitas pessoas se sentiram assim, eu me senti assim, e eu não tenho mais medo. Não é que eu não sinta a dor, é que eu não tenho mais medo de me ferir. Escrevo também porque eu descobri que não vale a pena. Digo, viver dentro da capsúla protetora. Não vale a pena. Muitas pessoas te falaram isso, mas existe um mundo lá fora que merece ser vivido ao máximo. Em todas as suas cores, na máxima saturação que houver. Nós éramos preto no branco, e eu seria tudo outra vez, mas quando se diz respeito às cores da vida não pode existir preto e branco.

Eu gostaria que você não tivesse que passar por tudo que eu passei para entender isso. Eu gostaria que você não tivesse que cometer os meus erros, fugir como eu fugi, se fechar dentro de si mesmo como eu fiz, e magoar as pessoas ao meu redor, que queriam me dar apoio enquanto eu sentia que o chão sob os meus pés havia desaparecido. Eu gostaria que você percebesse antes, mas você é teimoso demais, e essa carta é pra dizer que eu respeito isso. Eu não quero que você sofra, mas tudo que eu fiz até hoje para te proteger da queimadura, fez com que você se queimasse mais, por isso essa carta é para dizer que eu não vou tentar mais.

Foi o meu medo que te feriu. O meu medo abriu o buraco sob os seus pés, de modo que você não pode mais confiar que eu vá te segurar, e essa carta é para dizer que eu espero que um dia você se erga sobre seus próprios pés. Eu gostaria de ter sido mais forte e menos medrosa para não ter feito nada disso, mas como sabemos, eu não fui e agora ambos pagamos por isso.

Mas essa não é mais uma carta de amor, são sentimentos loucos traduzidos em palavras para que você possa entender o que eu entendi. É também um pedido, para que você se cure, seu moço! Hoje eu posso dizer o que nunca pensei que fosse dizer, que eu espero que você seja feliz com quem estiver. Eu nunca pensei que eu fosse dizer isso porque eu sempre achei que eu era essa pessoa que te fazia feliz, mas o seu medo me afastou tanto, que eu não posso mais aceitar esse amor desfigurado que você diz sentir. Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos, e eu sei que não é isso que eu mereço, por isso essa carta é para dizer que eu não tenho esperanças de ser o chão sob os seus pés.

Você tentou de todas as formas me dizer que não queria que eu fosse, e quanto mais eu tentava, mais você se fechava dentro da sua capsúla protetora do medo me afastando para dentro de um abismo de dor. E essa carta é para dizer que eu não quero mais estar nesse abismo, e eu tentei de todas as formas sair dele ao seu lado, por acreditar que eu poderia te tirar do seu medo enquanto você me tirava da minha dor, mas você foi tão convincente em suas fugas que eu já não posso te alcançar mais.

Eu sinto a dor. Não quero que você ache que eu não a sinto. Não é que eu não sinta a dor, é que eu não tenho mais medo de me ferir. Eu achei que eu fosse ficar bem se eu não sentisse a dor. E achei que eu fosse te salvar de sentir a sua, e tudo que eu fiz para evitar a sua ferida fez com que você se afundasse ainda mais dentro dela, porque, como eu um dia, você hoje acha que pode evitar a dor.

Vai chegar um dia que você vai entender que não pode. E a única solução se não podemos evitar a dor, é senti-la. Mas por mais que eu queira ser a pessoa a te mostrar isso e senti-la com você, não posso. Não é esse o amor que eu mereço. Então, acho, essa é uma carta de despedida. Aqui me despeço dos medos que eu tive, e dos medos dos quais tentei, inutilmente, te proteger. Me despeço de você, desejando que você um dia encontre o amor que acha que merece, desejando que um dia você não sinta medo da dor, apesar de senti-la. Desejando que você abrace todos os riscos da vida, com todas as cores, e toda saturação e que você seja capaz de colocar a mão no fogo novamente.

Quando a gente acredita em alguém, quando a gente sabe quem alguém é e quem essa pessoa pode ser conosco, a gente coloca a mão no fogo por ela. E eu sinto muito que você não tenha colocado por mim, eu teria colocado por você. Eu teria colocado meu corpo inteiro, mas se você prefere não confiar nas minhas palavras e quer cometer os meus erros, fugir como eu fugi, se fechar dentro de si mesmo como eu fiz, e magoar as pessoas ao seu redor, que querem te dar apoio enquanto você sente o chão sob os seus pés desaparecer, não há nada que eu possa fazer por você.

Eu não me conheço, nenhum pouco. Pensei que a essa altura já seria feliz, mas quanto mais eu me forço mais eu percebo que preciso abrir mão do controle. Vou deixar acontecer, apenas, deixar acontecer. É apenas uma faísca, mas é o bastante para me levar adiante, e quando escurece e não há ninguém por perto, ela continua a brilhar. Todos os dias eu tento ao máximo acreditar que amanhã as coisas vão melhorar mas acordo pra uma fria realidade na qual nada mudou. Mas vai, vou deixar acontecer.

É apenas uma faísca mas é o bastante para me levar adiante, e quando escurece e não há ninguém por perto, ela continua a brilhar. E o sal nas minhas feridas hoje não queima mais do que queimava antes, não é que eu não sinta a dor é que não tenho mais medo de me ferir. E o sangue nessas veias não está pulsando nenhum pouco a menos do que antes, mas essa é a esperança que eu tenho, e a única coisa que me mantém viva.

Eu vou deixar acontecer, porque é apenas uma faísca mas é o bastante para me levar adiante.

Eu espero que você entenda que você não pode evitar a dor, e que o medo não vai te proteger da queimadura. Espero que você não tema o fogo, e que coloque a mão nele por alguém cheio de erros, defeitos e bagagem, porque essa pessoa é especial. Espero também, e principalmente, que a sua ferida se feche e que você descubra, como eu descobri, que a vida ainda pode ser linda, mesmo com cicatrizes.

Não é engraçado o que o medo faz conosco.

É triste.

Com todo amor do mundo,

Shar

_________________________________

 

  • dia 15/08/2015

    Oi, Carol <3

    Ai, meu Deus.
    Eu queria poder dizer que não sentir a dor é a melhor solução, mas sei que não é. A dor precisa, sim, ser sentida para que a nossa cura nos faça entender o porquê do sofrimento. Uma professora diz que as pessoas fazem de tudo para evitar o sofrimento e a decepção, mas eu acredito que só sentindo-os é que conseguimos deixar que as coisas aconteçam. Se ficarmos fugindo nada nunca vai acontecer, pois não permitimos que as coisas (inclusive boas) aconteçam e possam nos ensinar a crescer.
    Eu acredito na palavra. As pessoas falam muito em como elas não valem nada diante de ações, mas ainda acredito em palavras. Porque, desde sempre, foram elas que me salvaram. Eu não seria nada sem elas, com certeza. E, como eu disse, Last Hope tem sido a minha cura. Engraçado como levei tempo demais para entender o porquê ela é a minha preferida e o que ela poderia me ensinar. Eu achava que era sobre, realmente, "a última esperança", mas – pelo menos para mim – é sobre largar mão do controle e deixar acontecer. Acredito que seja, também, sobre sentir a dor e conseguir seguir em frente.
    Como sempre, lindo texto. Não é o meu preferido, mas gostei demais das referências explícitas da canção nele <3

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

    [Responder]



Top