Elogiaram meu cabelo hoje. A esposa de um amigo meu de infância, com quem eu estudei há mais de dez anos, me abraçou hoje e disse que meu cabelo estava lindo. Na hora eu só agradeci, porque nem todo dia eu amo meu cabelo, tem dias que eu quero cortar ele todo fora, mas quando eu amo, eu fico lisonjeada em ver que outras pessoas o acham tão a minha cara assim, e é lindo.

Quando eu estudei com esse amigo meu eu era uma garota muito diferente. Pra começo de conversa, eu era bem estudiosa. Eu tinha um imenso prazer em pegar um livro didático de história e lê-lo inteiro muito antes de chegar nas partes da matéria que era para estar estudando. Eu gostava de sentar e ver como coisas que, até então eu não entendia, funcionavam (desde que não fosse física, ai você já está forçando as coisas!). Bem diferente da garota que quase não conseguiu colar grau na faculdade porque lutou bravamente contra a urgência de largar um curso cuja profissão proposta não queria exercer. Eu me tornei uma estudante diferente do que eu fui, eu sei disso.

Tampouco eu tinha esse cabelo que ela elogiou. Há dez anos atrás eu usava um castanho natural mais liso com certas ondas se insinuando nas pontas, porque com 14 anos eu ainda não tinha tido as muitas versões de tintura, cortes, alisamentos, e descolorações que vieram a seguir que transformaram bastante a estrutura do meu fio. Tinha tido algumas delas, mas já tinha deixado o cabelo crescer natural, e nunca tive uma muito radical a ponto de me olhar no espelho e me sentir outra pessoa. Não tinha ainda, mas a garota que eu fui nesse tempo fez isso e muito mais depois, porque a identidade é muito relacionada com a impressão que temos de nós mesmas, e às vezes acontece de a gente precisar enxergar outra coisa no espelho pra amar quem somos quando olhamos para dentro. Aos poucos eu fui me tendo cabelos diferentes, e isso me definiu tanto quanto o castanho natural – e agora bem mais cacheado – que eu tenho hoje me define – mais livre, menos modificada pelo que esperariam que eu fosse, mais bagunçada, menos Rapunzel imaculada e preservada na torre. Eu sei disso.

Também nesses dez anos depois, com quase 30 – sim t-r-i-n-t-a – quilos a mais do que aos 14 anos, eu não me importo tanto com o meu peso como eu teria me importado se eu saísse na segunda feira a tarde pra ir ao cinema, com esse mesmo amigo cuja esposa elogiou meu cabelo, conforme a gente fazia (e o ingresso era 2,50 a meia entrada) e um estranho me olhasse torto no ônibus. Hoje eu levaria esses quase 30 quilos à praia, dentro de um biquíni para tomar sol e não teria me importado.  Naquela época? Eu não teria nem comprado um biquíni, quanto mais ido à praia. A mulher que eu sou hoje, Rapunzel semi-careca correndo pela floresta, vai emagrecer para não ter mais dores nas costas, mas não faria o mínimo esforço para se esconder da opinião das pessoas dentro de um maiô (a menos que achasse o maiô bonito, mas não por se achar feia em um biquíni). Ser a garota que usava blusa larga por cima do biquíni na piscina me ensinou muito sobre como não ser a garota que precisa se esconder, eu sei que ser essa garota foi importante para essa princesa livre que se lançou da torre – e quase morreu na queda – não achar nunca mais que enclausurada na torre era seu lugar. Eu sei disso.

Eu sei que quando eu olhava para o que a minha vida deveria se parecer aos 24 anos, eu não teria jamais esperado que eu estaria me propondo a fazer uma segunda faculdade, no exterior, pra trabalhar com arte. Ou que eu estaria mostrando meu corpo na praia, não ligando para emagrecer por conta do que os caras iam pensar, e muito menos que a esposa de um amigo meu ia elogiar meu cabelo – muito diferente do que ele era aos 14 anos, quando eu fazia planos muito diferentes do que eu vivo hoje – e eu ia, por conta de elogios assim, perceber quão precioso foi que eu tenha me tornado uma pessoa muito diferente do que eu esperava ser. Da ponta da minha cabeça – literalmente – até a unha do mindinho do meu pé.

Porque eu não sabia quem eu era nessa época.

Eu sabia o que os outros esperavam que eu fosse. E me levou muitos livros lidos, um coração partido aqui e outro ali, muitos joelhos ralados, alguns carimbos no meu passaporte, nenhuma mala extraviada – com a graça de Deus – certos copos de cerveja que eu nunca pensei que fosse tomar, madrugadas em choro no chuveiro do meu banheiro, outras madrugadas em oração, no pé da minha cama, tesouras no cabelo, tinta ruiva na sobrancelha, páginas e mais páginas de cartas escritas, enviadas, rasgadas, queimadas, quilômetros e quilômetros em corrida fitness pelo parque, biquínis lindos e areias fofas, elogios de mulheres que admiro muito e nunca pensei que fosse conhecer, e centenas e mais centenas de tijolos demolidos, em opiniões alheias que aceitei que cimentassem sobre mim para descobrir que não só eu podia ter o cabelo que eu quisesse ter, como também ser quem eu quisesse ser.

Porque as pessoas que vão me amar, vão amar apesar de qualquer cor que estiver no meu cabelo. E as pessoas que vão ficar, vão ficar independente de esse cabelo estar no alto de uma torre, se jogando de lá de cima para permitir que outros subam por causa dele, ou correndo solto por uma floresta e sentindo o vento só porque eu escolhi estar lá. Quem ficou, viu. Quem ficou viu os cabelos cortados e tingidos, e também os viu crescer e pularem sobre meus ombros quando eu corria pelo bosque. Quem ficou sentiu o cheiro dos cappuccinos com canela, comeu dos ovos mexidos pela manhã. Quem ficou, leu as cartas – pelo menos algumas delas. Todo mundo que ficou viu os biquínis na praia. Sentiu tanta alegria em me ver lá sorrindo que quase pôde sentir o cheiro de sal, o gosto do mar.

Ah sim! Quem ficou aqui para elogiar meu cabelo e vê-lo representar a pessoa que eu escolhi ser, também soube sobre os carimbos no passaporte, ouviu sobre pôres-do-sol no além-mar, me fotografou em metrôs estrangeiros, riu comigo à meia noite de outros fusos, me deu livros que eu nunca sonhei escrever, ouviu sobre todos que eu queria escrever, sonhou sobre as premiações que eu sonho em participar, comentou em fotos de viagens que eu nunca ousei imaginar que faria, e me recomendou álbuns de músicos que eu não teria gostado quando eu tinha 14 anos. Quem ficou viu. Tudo aquilo que quem foi embora não teve a ousadia de confiar que eu podia ser – às vezes só uma garota com o cabelo castanho e bem cacheado, por vezes, bem mais que isso.

Obrigada a quem foi embora, por me ensinar tanto sobre a pessoa que eu não queria ser.
Muito mais obrigada a quem ficou, por amarem a pessoa que eu sabia que poderia me tornar – e ainda mais por ficarem pela mulher que fui e sou por todo esse felizes para todo o durante.

Aos 14 anos eu não teria imaginado que o cara que me passava cola nas provas de física teria crescido para se casar com uma mulher que admiro tanto, e eu também não teria imaginado que essa mesma mulher elogiaria o meu cabelo. Principalmente porque aos 14 anos eu nunca teria tido esse cabelo que tenho hoje. E eu não sei se foram os (quase!) 30 quilos a mais que eu quero perder não para só depois me amar, ou os carimbos no passaporte, ou as muitas tinturas de cabelo desse intervalo, mas, quando eu disse obrigada!, eu sei que tinha uma parte bem grande de mim que também quis dizer; obrigada por aceitar essa mulher que se lançou da torre.

Eu sei disso, apesar de não ter dito.

Quem ficou, viu. Quem ficar, verá.

 

 

  • Thami
    dia 01/10/2018

    Que bom q eu fiquei, e que bom q vc ficou cmg também

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    dia 08/10/2018

    @Thami, mto feliz por você ter ficado comigo. Te amo mttttt <3

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  • dia 01/10/2018

    Oii, Carol. Não sei se você tinha esse direito de me emocionar tanto com essa cartinha maravilhosa <33 acho que me identifiquei um pouco com você, mas ainda me sinto como se fosse a moça de quatorze anos, só que agora consegui ver que um futuro surpreendente também pode estar me aguardando, e que isso pode me dar esperanças agora.
    Não te conheço ao nível de ter intimidade e saber seus medos e sonhos, mas sinto um certo orgulho por ti e desejo todo amor do mundo para essa mulher maravilhosa de hoje. Aos que ficaram, tiveram sorte em acompanhar você nesse crescimento pessoal.

    Obrigada por essa carta linda, vou relê muitas vezes, e te convido a participar do projeto de escrita (em forma de cartas) que está tendo no meu blog :) szszsz

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    dia 08/10/2018

    @Karoline Lima, aaaaaaaaaah! rainha dos cupcakes hahaha! mto obrigada pela visita e pelo carinho de sempre! <3
    quando você mencionou do projeto no blog da Nina eu me lembrei dele, haha! e apesar de amá-lo eu ando meio fugindo de projetos que exijam datas especifícas e temas específicos para postagem porque a coisa que mais me motiva hoje como blog e a rotina de me dividir em várias coisas, é saber que eu consigo sentar e falar sobre o que eu sinto necessidade no momento. Mas mto feliz por você participar desse projeto, porque eu o acho lindo! <3

    mto mto mto mto obrigada por esse comentário lindo! <3

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  • Larissa
    dia 01/10/2018

    Fiquei e por aqui vou permanecer … ❤️

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