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Meu bem,

Não volta não. Eu sei que eu disse que o amor é eterno então depois desse tempo que você tirou pra pensar você talvez tenha ficado nostálgico e sentido a minha falta – Deus sabe que eu ainda guardo uma das suas camisas! – e pensado que isso significa que o seu amor ainda existe, mas não volta não.

Porque isso aí não é amor, é lembrança.

Quando se sentir assim lembre da decisão que você tomou. Lembre do tempo que você precisava, de tudo que você queria viver “no mundo lá fora”, de tudo que eu não podia fazer por você, de todas as coisas que você tinha pra descobrir (sobre você, sobre mim, sobre o mundo!). Me faz um favor e lembre de toda aquela última conversa. Lembre que tudo que eu podia fazer por você eu já fiz, tudo que eu podia ensinar eu ensinei e tudo que eu podia doar de mim eu doei, agora você precisa continuar sozinho. Mas, por favor, não volta não. E eu tô te pedindo isso com o coração mais aberto que eu tive nesses últimos tempos.

E, tudo bem, você talvez ache que eu tô falando isso porque eu não te amo. É bem verdade que o que eu sinto é uma coisa diferente de antes – ver que você não me amava fez com que o meu amor por você diminuísse um pouquinho, sabe? – mas ainda é amor. Não é isso, que eu tô falando tem uma parte de mim que sempre vai te amar porque o meu amor não depende de você pra existir, ele simplesmente existe. Mas tem outra que entendeu que a gente tava fazendo tudo errado. O amor não é complicado e não tem poréns então isso aí que você tá sentindo não é amor, é lembrança.

Na verdade eu tô pedindo isso porque anda acontecendo umas coisas muito inacreditáveis na minha vida, e, pela primeira vez desde que me lembro, eu posso abraçar essas coisas porque eu não estou ocupada demais pensando em como consertar nossos erros, nossos amores, nossos corações, nossos futuros. E eu quero aproveitar isso, eu realmente, realmente, realmente acho que mereço.

No começo não achava, sabe? Nunca me imaginei escrevendo uma carta dessas, ainda mais nunca me imaginei escrevendo uma carta dessas pra você, que já foi a pessoa mais importante da minha vida. Mas estou escrevendo porque eu descobri que eu não quero compartilhar uma vida inteira com uma pessoa que não acreditou em mim, que não teve fé no meu amor, que não achou que eu era o suficiente. Me disseram que isso ia passar e mandaram eu tomar uma boa dosagem de um remédio que os doutores do amor recomendam pra coração partido: tempo. Uma dose de manhã e uma antes de dormir por seis meses, depois um retorno pra tirar o curativo e conferir os exames. Ainda carrego a cicatriz por aí mas o médico disse que isso é normal.

Meu bem, meu amor, meu sunshine, não volta não.

Eu li esses dias que o antídoto para as coisas que nos envenenam está na própria coisa, tipo, se uma cobra te pica o antídoto é retirado da presa da própria cobra. E eu costumava pensar sobre você dessa forma, sabe? Que independente do que tivesse acontecido o meu amor seria tão imensamente eterno que poderia te curar, mas o seu não era, né? Então como eu podia me curar quando a fonte de veneno era maior que a de antídoto?  Às vezes eu acho que é o contrário e os cientistas não descobriram ainda, que talvez o veneno das coisas que nos curam está na própria coisa e na verdade você nunca foi a cura e sim a toxina. Então, por favor, não volta não.

Não volta não porque eu não vou conseguir te explicar em palavras o quanto eu mudei nesse tempo. Não vou conseguir explicar que você não é mais o Sol cuja minha vida revolve em volta, apesar de todo tempo que eu passei te chamando de sunshine. Não vou conseguir te dizer na sua cara o quanto você me quebrou, me magoou, me feriu e me fez sangrar muito mais litros de sangue do que eu jamais pensei ter.

Tem coisas que precisam ser ditas mas só porque precisam ser ditas não quer dizer que precisam ser ouvidas. Essa carta é pra dizer isso sem você ter que ouvir, porque eu não quero te fazer sentir culpa. Não se culpe não, meu bem. Eu achava que a gente ia poder usar os aprendizados que o nosso relacionamento nos deu para sermos mais fortes juntos, mas não se culpe não. Use o que você aprendeu com uma pessoa cujos erros – como os nossos – ficaram no passado, assim vocês dois podem evitar os assassinatos, as facadas, as bolsas de sangue tentando recuperar tudo, a bagunça que deixa um coração quando descobre que está batendo para manter viva a pessoa errada.

Era isso que você queria já há algum tempo, então eu te peço, meu bem, não volta não. Fica ai onde você está – aonde quer que seja esse lugar – porque quando você foi pra ele e me deixou pra trás eu não consegui seguir nem a sua sombra, e me levou meses pra entender que não é do lado dela, na escuridão, que eu deveria estar. Demora um pouquinho pra gente descobrir que o amor não corre na frente e nem fica pra trás, né? Amor caminha lado a lado. Então não volta não, fica.

Porque embora o amor seja eterno e as dores não, as cicatrizes de quem foi valente o suficiente para sobreviver também perduram por muito tempo depois de se fecharem. Não volta não, não agora, não deu tempo ainda. Não deu tempo de amadurecer, não deu tempo de esquecer, não deu tempo de eu – de você – me transformar numa pessoa cujos erros ficaram no passado. Não deu tempo ainda – não sei se um dia vai dar -, então não volta não.

O tempo vai passar, e, arrependido ou não você vai descobrir – como eu descobri quando passei por isso – que existe um nível de dor que as pessoas podem suportar e elas podem até sobreviver depois disso, mas quando esse limite é atingido prescrevem um novo remédio pra gente e altas doses dele nos ensina uma verdade que ninguém nunca mais pode desmentir: nós somos o suficiente.

Se um dia esse tempo chegar eu só quero te dizer: Prazer, eu sou o suficiente. E agora te peço pra não voltar porque eu não sou mais uma pessoa que pode aceitar que alguém diga o contrário. Tive overdose de amor próprio.

Yours ever,

Shar



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