Textos
19/07/2017

Querida cecília,

Feliz aniversário.

Há muitos anos eu não escrevo uma carta nominal à alguém mas me parece que você vai aproveitar essa, portanto, senti de escreve-la. Quero muito que você aproveite os seus 22 anos pois se eles forem tão maravilhosos quanto os meus você soprará 23 velas daqui 364 dias como uma mulher muito diferente, e se não forem, bem, não precisam ser, de fato. Pois embora eu te ache uma das pessoas mais maravilhosas de todo este mundo também sei que você não vai fazer nada como eu – ou qualquer outra pessoa – e os seus 22 anos serão tudo que você precisa que eles sejam.

O ano é 2017 e embora ele não pareça dizer muito às outras pessoas em geral eu espero que este seja um ano para você guardar no seu coração, não porque você foi à Londres, viu o Benedit ou fez qualquer outra dessas coisas que serviriam para aquecer o meu coraçãozinho vendo seu feed no instagram, mas porque eu te vejo se transformando a cada dia e se superando muito e encontrando em si mesma forças que aparentemente ninguém disse a você que você tinha.

Essa carta é um pouquinho pra isso, se eu tiver que falar bem a verdade (e tenho). Essa carta é para te dizer que talvez você não esteja vendo a luz no fim do túnel, porque a luz é você. E te disseram pra olhar pra frente, mas nunca te disseram pra olhar pra dentro.

Eu estou dizendo.

Foram 21 anos completos até agora. 21 invernos não ingleses, com 21 natais não londrinos e pelo que os olhos podem ver há muita coisa no lugar onde não deveria estar e muitos lugares cheios de ausência pelo que não está lá, mas deveria. E eu acho que com o passar do tempo se perde um pouco a percepção de que se sentimos como se não estivéssemos onde deveríamos estar é porque talvez não devêssemos estar ali e sim aqui.

Eu acho que você está onde precisa estar, sabe, meu bem?

Eu te vejo com toda essa força, sonhos e flexibilidade, e toda essa vontade de ganhar o mundo que, eu sei, vai te apresentar mundos extraordinariamente inesperados e eu só posso dizer que você precisa estar ai, por enquanto.

E que eu mal posso esperar para que o túnel se desmorone e o mundo inteiro possa ver toda essa luz que não está no fim dele, está bem embaixo e emana de você. Alguns tijolos precisam cair pra isso, sabe? Alguns passos precisam ser dados e é preciso muita força para se mover debaixo dos escombros, mas eu estou muito pronta para te ajudar porque é tudo tão poderoso o que você pode fazer que não poderia ser diferente. Não haveria de ser diferente mesmo.

Então, aproveite essa jornada até o vigésimo terceiro inverno.

Você sabe, há muitas flores espalhadas entre um solstício e outro, e eu tenho certeza de que no minuto que você enxergar a luz ela te fará ver todo o resto com muito mais clareza – mesmo se o túnel parecer ter ruído – porque você constrói suas próprias estradas.

Muito obrigada por me dar o privilégio de acompanhar esse caminhar nada além de mágico, surreal e com um quê tão nosso de mia dolan, você é como uma estrela no meu céu escuro que me aponta direções no meio da noite iluminando minha vida por vezes tão negra.

Há uma verdade que me levou mais do que 22 invernos para aprender e eu quero muito que você se lembre muito dela por todas as estações que a vida ainda vai te dar: o túnel, bem como seus caminhos, é você quem constrói ou derruba de acordo com a necessidade de chegar a lugares, a luz é nada além de você com sua necessidade de enxergar sempre mais longe do que os olhos poderiam ver na escuridão.

Feliz 22, meu bem. Não é como se você precisasse que uma cidade inteira de estrelas brilhassem pra você, pois na verdade você é a estrela na cidade, e, antes que você diga qualquer coisa por favor lembre-se: é mais do que um sonho de quimera, e sim, você é boa o bastante.

Eu estarei aqui, e você vai ficar bem.

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com amor, lene

 

Beijos,
Carol Santana
Textos
04/07/2017

Eu costumava deitar embaixo de uma árvore bem grande e olhar pro céu azul procurando formatos em nuvens.

A imaginação é uma coisa poderosa e eu sempre tive muito dela, e, embora isso nunca tenha me feito sentir-me mais poderosa, me impediu de ter medo. Foi ali, olhando brechas de azul perfurarem galhos verdes enquanto as nuvens corriam e se desmanchavam em segundo plano que eu aprendi a criar.

Imaginar coisas que não existem como se elas estivem ali requer mais do que paciência. Requer fé. Imaginação é uma questão de fé. Uma nuvem pode se desmanchar a qualquer momento, e um coração pode, tão rapidamente quanto se formou, transformar-se em uma coisa qualquer. Um coelho vira um chapéu, uma espada vira uma máscara.

Embora nenhuma dessas coisas esteja de fato ali, você está. Você e a certeza de que aquelas coisas poderiam estar também. Imaginar não é a certeza de que uma coisa existe ou pode existir, mas não imaginar é a certeza de que nada diferente vai acontecer, portanto, imaginação é uma questão de fé.

Faz tempo que eu não deito embaixo de uma árvore bem grande e olho pro céu azul procurando formatos em nuvens, e às vezes eu acho que isso me tira um pouco da imaginação. Não que tire o que já tenho, mas me saboto em não exercita-la para que se multiplique. Imaginação é uma questão de hábito. Você começa com nuvens, e depois transforma qualquer coisa abstrata em uma coisa mágica.

Mas eu sei que as nuvens estão ali, sabe? E eu sei que eu posso começar a qualquer minuto, e eu sei que elas vão – ou pelo menos podem – acender uma luzinha azul de imaginação que vai aquecer toda a minha vida quando faltar fé. Fé uma questão de hábito. Nem todos os dias vão transformar coelhos em chapéus ou espadas em máscaras, mas você precisa começar de algum lugar.

Pensar em árvores me fez entender as lições mais valiosas que carrego. Aprendi, raízes antes de frutos, há muito tempo.

E embora às vezes isso seja fácil de ser ofuscado pela correria e ansiedade, o que eu precisava ter aprendido veio muito depois: sementes, antes de flores, porque beleza é uma questão de imaginação, e imaginação é uma questão de fé, e fé é uma questão de hábito.

Plante coisas boas. A sua vida não é uma desgraça. Encarar a realidade e saber das suas fraquezas e dificuldades não significa que tudo está dando errado. Tudo dar errado agora não significa que vai ser assim para sempre.

Repita comigo, a minha vida é bonita.

Repita até acreditar. Beleza é uma questão de… bem, acho que já deu pra entender.

Não reclame de cada mínimo detalhe do seu dia – da sua vida horrível e inútil, oh, que grande azar estar vivo!

Ter imaginação, ver beleza e ter fé não é uma questão de otimismo. Todas as pessoas vão morrer a qualquer momento, e todas elas tem batalhas muito mais dolorosa do que você nem consegue supor – desculpe, não era pra soar tão mórbido! – mas antes disso todas vão viver um pouco, e vencer um pouco, e, com um pouquinho de esforço, florir o mundo. Sua gentileza não vai salvar o mundo se você não puder ser gentil consigo mesmo.

Plante coisas boas.

E comece por você. Sementes, antes de flores.

Todos os anos tem primaveras, mesmo aqueles de nuvens tão pesadas que nem parecem se mover sequer pra cessar a chuva. Chuva, aliás, só floresce sementes já plantadas.

Plante coisas boas e acredite, por um dia só, que vai florir. Amanhã leia esse texto de novo, porque sobrevivência é uma questão de fé, imaginação e hábitos frutíferos. Acredite, meu bem, já há pessoas demais matando sonhos nesse mundo. Seja um jardineiro criativo ao invés de um coveiro conformado.

Imaginação não é sobre utopia. Transformar uma nuvem em um coração, um coelho ou uma espada requer, antes de qualquer outra coisa, saber que a nuvem está ali, pra começo de conversa. Azul não é a cor mais fria. É o que se enxerga através dos galhos quando não há nuvens para se imaginar serem qualquer outra coisa. Mesmo chuva, mesmo sementes, mesmo flores.

E você passou a vida acreditando que nuvens eram apenas algodões pendurados ali descuidadamente pra bloquear a luz, tsc.

“The creative adult is the child who has survived.”- Ursula K. Le Guin

 

 

Beijos,
Carol Santana
Textos
04/05/2017

 

Querida,

Já devem ter te falado que você vai se esquecer dele, certo? Que o tempo vai passar e você vai esquece-lo e você vai ficar bem, mas, o que, de fato, significa esquecer alguém? Esquecer alguém é não lembrar dos domingos regados à pamonha? Dos banhos de chuva e risadas? Das surras de cócegas e todos os beijos com gosto de café? Se esquecer alguém significar não lembrar mais do cheiro do perfume ao passar por um estranho na rua, e já não mais virar o rosto eu diria que não, não sei como funciona esse negócio de esquecer.

Como se esquece dessas coisas? Como se esquece do exato peso do corpo de alguém sobre o seu? Como se esquece da pontada no peito que alguém te causa porque te deixa tão sem ar que você não se lembra de ser capaz de respirar direito, ou emitir sons corretamente? Como você se esquece de alguém que sempre foi o seu futuro, mas não está mais no seu presente e preenche cada espaço em branco do que a sua memória classifica como passado? Como se vê origamis apenas como origamis?

Você é capaz?

Você é capaz de passar por alguém na rua com o mesmo perfume de uma pessoa que preencheu cada parte do seu ser e sequer virar o pescoço pra olhar de novo? Algumas pessoas são, pois passam por pessoas e pessoas diariamente sem nunca serem capazes de distinguir a fragrância.

A minha era limão com capim e cassis de fundo amadeirado, mas eu não acho que ele jamais teria se lembrado, meu bem. Não só porque esse era o perfume e eu misturava muito com o creme de lavanda e o sabonete de erva-doce criando uma combinação atípica, mas porque eu já não imagino que ele era assim tão especialista em ler meus detalhes como você me dizia que era.

Não sei se eu tenho a resposta para qualquer uma das perguntas que as pessoas me fazem sobre esquecimento. Mas, sendo sincera, a resposta certa para a pergunta errada pode não significar muita coisa porque a gente não devia estar falando sobre a eficiência da memória aqui.

Todas as perguntas erradas se resumem numa única resposta certa: você pode amar alguém e não pertencer a ela – ou ela a você. Pois o que, de fato, significa, ser de alguém? Por toda a vida nos ensinaram que éramos dos outros. Irmãos de alguém, filhos de alguém, netos de alguém, amigos de alguém, namorados de alguém. Mas não é apenas possível – é necessário – que sejamos nossos. Portanto, não estar romanticamente envolvido com alguém não significa que você precise amar essa pessoa nenhum pouco a menos, e não significa que vá – por vezes você vai amar mais.

A libertação do amor não é quando o amor acaba, ou quando a convivência acaba, ou quando um deixa de estar na vida do outro, ou quando um vai pra outro país e o outro fica, ou qualquer outra coisa que signifique afastamento, isolamento ou perda de contato. Em realidade a maioria das pessoas é capaz de conviver muito com uma pessoa e ainda assim não amá-la ou conhecê-la, entende, meu bem?. Estar junto não significa, de fato, estar feliz. Ou livre, ou amando.

A libertação do amor é quando você sabe que pode amar uma pessoa mesmo que ela não te recompense por isso e você sabe que tudo bem. É quando você sente um perfume na rua e se vira para olhar e isso te faz sorrir, porque você sabe que em algum lugar no mundo alguém que você ama está usando aquele perfume, e você deseja apenas que essa pessoa esteja bem. É quando você não sente que precisa mudar a pessoa para transforma-la no que você precisa que ela seja – magra ou gorda, morena ou ruiva, escritora ou professora, atleta ou cientista, casado ou solteiro, morador de uma cidade ou de outra – porque você vai amá-la independente de qualquer coisa que ela venha a se tornar, por qualquer coisa que ela seja.

Eu vejo muito, o tempo todo, o amor ser associado com reciprocidade. Mas o amor não necessariamente vai ser recíproco, porque ele não é uma recompensa. Não se ama alguém porque ela te ama de volta ou não, se ama alguém apesar disso. O mundo das pessoas vai continuar girando esteja você neles ou não, por isso você pode se libertar de qualquer pergunta que signifique que a outra pessoa precisa, de alguma forma, lembrar do seu amor. E se o amor não consiste em lembrar a falta dele certamente não é esquecer.  O amor não vem, necessariamente, por meio de uma palavra, um beijo ou abraço. Ele é como uma energia que se envia alguém, e não se pode enviar apenas no caso de essa pessoa te enviar também. Falta de reciprocidade não significa, por si só, relacionamento abusivo ou sofrimento.

Você entende um pouco com o tempo, meu bem, que amar alguém não te torna proprietário dela, de modo que ela é livre para fazer o que bem entender com esse amor.

Esquecer a pessoa é esquecer como os cílios dela pode ser longo ou curto, como ela te fazia rir com piadas bobas ou te fazia sorrir com uma pamonha no fim da tarde de domingo. Você nem sempre vai esquecer alguém só porque a pessoa não está mais por ai, mas a boa notícia é que da pra ser livre de alguém sem necessariamente esquecer essa pessoa, entendendo que ela nunca te pertenceu, pra começo de conversa. Pode-se estar livre de alguém junto ou separado, perto ou longe, aqui ou lá.

O amor não é sobre lembrar, é sobre libertar.

Alguns perfumes vão te deixar refém para sempre. Alguns lugares nunca vão entender pra onde foi o amor e porque ele e eu  não vamos mais lá. Algumas árvores vão crescer mais fortes sem a gente pra subir nelas, e algumas flores nunca mais serão regadas e isso não as fará morrer. Há esquinas pelas quais nossas mãos dadas jamais passarão novamente, e garçons de quem nunca nos despedimos. Alguns dias de chuva não serão como eram antes, e não é esquecendo isso que você vai se libertar, sabe, meu bem? Mas se libertando você talvez seja capaz de esquecer.

A cura não é sobre esquecer, é sobre libertar-se. Não só de tudo que foi, mas – e especialmente – de tudo que poderia ter sido.

E se você me perguntasse eu diria que a libertação vem de várias formas. Eu ainda não consigo beber achocolatado em copos sem me lembrar da sensação gostosa do alumínio gelado nas minhas mãos. Mas hoje é quarta-feira e eu comi uma pamonha muito boa. Você pode descobrir o que funciona melhor pra você, e, se não souber por onde começar, vá e molhe seu rosto na chuva. Nem todas as fragrâncias vêm de flores reais e plantadas, mas até mesmo os jardins de papel precisam de novos motivos para continuarem existindo.

Vá, molhe seu rosto na chuva. Você pode até estar molhando sozinha, mas isso não significa que não vai estar sendo amada.

 

com todo o amor de mundo,

e um respingo de chuva

M.

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Beijos,
Carol Santana
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