Textos
13/02/2017

Eu queria muito escrever um texto sobre o amor.

Dizem que um escritor precisa escrever sobre o que conhece, e eu queria muito escrever sobre o amor. E não consegui, sabe? Foram muitas semanas – eu não disse horas, ou dias – encarando uma tela em branco e apertando muito mais as teclas que apagam do que as constroem. E eu acho que o motivo pelo qual eu não posso escrever mais sobre isso é porque, pra falar a verdade, eu não sei se eu ainda sei o que é o amor.

Sempre achei que soubesse. Puxa, como fui bem resolvida com isso por toda minha vida! Foi meio da noite pro dia que eu percebi que o amor não podia ser nada daquilo que eu criei na minha mente, porque ele estava me matando. Então a primeira coisa que eu preciso te contar sobre o que eu entendi depois de desaprender tudo que eu não sabia que não era amor é que, diferente do que achava, o amor não é uma pessoa. Hum-uhn, não senhora.

O amor não é ele ou ela. Não vai ou fica, não. O amor é enquanto você for, e deixa de ser quando você não for mais – o que quer que você seja – tudo aquilo que você for. Mas você não vai encontrá-lo nos outros, porque o amor não é uma única pessoa, é meio que um espelho que você não vai entender muito bem o que tá refletido se estiver quebrado ou sujo – mas ainda vai ser o seu reflexo.

E enquanto eu estava pensando no que escrever no meu texto sobre o amor  eu entendi que o amor não podia ser nada daquilo que até então eu pensava que era, porque o amor não destrói, ele cura. É importante que eu te conte essa segunda coisa que eu aprendi sobre o amor: a cura nunca estará em quem te feriu. Não volte pra lá tentando encontrar aconchego ou certezas, quem te feriu é porque estava, de alguma forma, ferido, e não há nada que você possa fazer para mudar essa situação, porque o amor dos outros não está em você.

Acho que, embora eu não saiba muito sobre o amor para ter certeza, sei o suficiente pra dizer que, Hey, você vai ficar bem. Seu coração já está bem, viu? Seu coração está curado. Eu sei, eu sei, você acha que não porque o seu coração pesa como se estivesse fora do eixo, e também meio partido, fora que o ritmo também não parece muito certo e você não sente a velocidade estável como sentia antes. Mas o seu coração está curado. Você precisa curar sua mente. Todas as memórias guardadas nela, todos os perfumes, texturas e sabores que você acha que nunca vai esquecer e te mantém acordada à noite é o que torna teu coração pesado, desajustado, quebrado e descompassado. Mas a sua mente vai se curar. Avise a ela, é importante que saiba disso, porque o processo começa quando você olhar para aquele espelho e o reflexo nele te sorrir de volta todo despido dos vários antes e muito ansioso por todos os depois.

Eu gostaria de poder dizer que o amor é isso ou aquilo outro, mas acho que eu ainda não aprendi direito o que ele é porque a pessoa que viveu tudo aquilo que eu achava que era amor não mora mais em minha mente – será que algum dia terei aprendido?

De modo que esse texto não é sobre o que o amor é, e sim sobre o que ele não é. O amor não é difícil e te faz sangrar, isso é outra coisa. O amor não sai por ai e te deixa sozinha para lidar com seus demônios, isso é outra coisa. O amor não te liga só de segunda à quarta e depois some, isso é outra coisa. O amor não te bate mas depois pede desculpas e compra flores, isso é outra coisa. O amor não te faz pedir desculpas por coisas que você não achava que devia, isso é outra coisa. Amar pessoas que te odeiam só significa que você não se ama o suficiente pra gostar de você. Mas eu gostaria muito que você tentasse pois enquanto você não puder encontrar dentro de você a força para ser o mundo inteiro vai te dizer para não ser. Enquanto você não puder encontrar dentro de você a força para amar o mundo inteiro vai ter o poder de não amar.

Disseram que era pra eu escrever sobre o que eu conheço, e eu não pude escrever sobre o amor porque não acho que eu saiba direito o que ele é nesse momento ou o que refletiria, mas mesmo eu, que não sei nada sobre o amor, posso escrever que o amor da sua vida – primeiro, segundo, sexto, décimo segundo – não vai ser medido, encontrado ou identificado a partir do que você sentiu pelos outros antes, então se essas histórias acabaram tomando outros rumos você trate de curar sua mente e colar teu espelho, porque até aqui o que posso dizer é que amor da sua vida não é o primeiro que mudou tudo ou o segundo que segurou sua mão depois de o primeiro ter ido embora, ou o terceiro que tirou seu fôlego e te levou pra ir ver o mundo. O amor da sua vida é o último, aquele que te faz não sentir nada tão aconchegante por ninguém nunca mais, e fica porque sabe que você também está refletindo todo o aconchego que ele também emana.

Beijos,
Carol Santana
Textos
30/12/2016

Digito essas palavras sorrindo, e isso é fantástico.

É fantástico porque eu não imaginaria, depois de 364 dias totalmente diferentes de qualquer coisa que eu já vivi pelos últimos 22 anos da minha curta existência, que eu poderia falar coisas boas sobre essa experiência que foi estar vivo em 2016. Mas essa talvez seja, para mim, a maior beleza do desconhecido: nossa imaginação nunca é fértil o suficiente para desvendar a quantidade de maravilhas que ele pode trazer.

Em Abril foi meu aniversário e eu fiz uma postagem muito especial – talvez a mais especial até hoje – aqui no Horinhas, listando as 22 coisas que havia aprendido até aquele dia. E, falei muito de mim nessa postagem. Sobre as minhas experiências, o que eu acredito e as verdades que propago por ai. Então, para finalizar esse ano – épico – chamado 2016 eu resolvi fazer uma nova lista contendo tudo que no dia 01 de Janeiro deste ano eu não fazia, e, de forma brusca ou muito gentil, este ano fez questão de me mostrar.

1. Ninguém vai me amar tanto quanto eu devo amar a mim mesma.

2. Algumas pessoas não estão prontas para ouvir algumas verdades, isso não significa que eu devo mentir para elas.

3. Não posso impedir as pessoas de se decepcionarem comigo porque não sou responsável pela interpretação que elas tem a respeito do que digo ou faço. Elas são.

4. Posso dar cada molécula de amor que existe em meu corpo a uma outra pessoa, e sobreviver sem essas moléculas, isso não significa que ela não vai precisar de outras coisas para se sentir completa, ou viva, ou amada.

5. Falando em amor, as pessoas que me amam vão me amar mesmo se eu pisar na bola duas ou três vezes, porque o amor independe de argumentos ou condições favoráveis. Ele é incondicional.

6. Só existe um sentimento além da dor capaz de transformar tudo que uma pessoa é, acredita e entende na vida e esse sentimento é o amor. Eu vou passar por mudanças na vida sem poder escolher por qual via elas virão.

7. As pessoas em quem mais confiamos são as que tem o maior potencial de nos magoar porque elas é que viram o que há de mais imperfeito, fraco e humano em nós. Algumas vezes elas vão usar essas imperfeições e fraquezas como desculpas para irem embora.

8. Falando em ir embora, vai quem escolher ir, isso está além da minha capacidade de ser legal, amável, bondosa, gentil ou perfeita.

9. As pessoas fazem o melhor que podem para sobreviver, e algumas vão precisar adentrar estradas que divergem da minha. Não é culpa delas.

10. Culpa, aliás, é um sentimento que não tem qualquer utilidade e devo evitar senti-lo o tanto quanto possível. As coisas aconteceram da forma que tinham de acontecer.

11. Quem realmente se importa liga, manda mensagem, manda carta, aparece no meio da madrugada com um pote de açaí e um DVD, faz o que for preciso, mas encontra uma forma de estar presente.

12. Distância, ou falta dela, não significa amor – ou falta dele.

13. Existe sempre uma reserva de stamina em algum lugar dentro de mim esperando aquele momento em que vou dizer “eu não aguento mais”, e só eu me conheço bem o suficiente para cavar no lugar certo e fazer jorrar essa reserva.

14 Às vezes é muito necessário que desconheçamos uma pessoa para sermos capazes de amá-la novamente.

15. Falando em desconhecer, não escolhemos quem vai ficar na nossa vida. E isso é muito bom, significa que todo mundo possui direitos, e opiniões, e vontades, e sonhos, e uma liberdade que não está condicionada a nós.

16. Eu também possuo direitos, opiniões, vontades, sonhos e uma liberdade que não está condicionada aos outros. E eu preciso respeitar isso e parar de condicionar quem eu sou a quem os outros esperam que eu seja.

17. Devo agir com as pessoas conforme quem eu sou, não conforme quem elas são.

18. Eu não preciso aceitar merda nenhuma que qualquer um tente me fazer acreditar que é a verdade.

19. Eterno é uma condição que damos às coisas cuja memória perdura, mesmo que a coisa em si não.

20. Se eu não souber quem eu sou vou permitir que as pessoas me digam, mas ninguém está realmente habilitado para determinar coisas tão importantes quanto meu caráter.

21. Pessoas boas fazem coisas ruins às vezes, isso não significa que não se importam. Significa que são tão humanas quanto eu.

22. Quando eu não souber mais o que fazer ou como continuar é muito importante tentar dançar até minhas pernas bambearem, ou tomar um banho, ou escrever sobre o que sinto, ou falar com alguém.

23. O que as pessoas pensam sobre mim não é quem eu sou.

24. Existem pessoas que agradecem aos céus pela minha existência, de alguma forma eu mudei a vida delas. Por que estou pensando tão pouco a respeito de mim mesma?

25. Sou a única pessoa do mundo que nunca vai me abandonar, não importa o quanto eu me afaste de mim mesma. Eu mereço algum crédito por isso.

26. Falando em abandonar, nenhum colírio no mundo é capaz de me fazer enxergar as coisas importantes da vida tanto quanto a solidão é.

27. Tudo vai passar, e eu também. Para os outros, para o mundo e até para mim mesma, mas eu preciso sentir as coisas enquanto elas estão acontecendo.

28. Se sentir fraco é o primeiro passo para encontrar toda força interior que ninguém nunca disse que eu tinha.

29. Muito mais importante do que para onde estou indo é quem vai comigo, como vamos chegar lá e porquê eu quero estar neste lugar.

30. Final é só uma coisa que eu escrevo antes de começar tudo outra vez da maneira mais diferente que eu puder imaginar.

31. Todos os relacionamentos do mundo possuem três versões: a minha, a sua e a verdade. Perspectiva é a única coisa capaz de me fazer seguir em frente.

01. Quando uma coisa termina não significa, sob nenhuma hipótese, que ela não tenha sido lendária. Obrigada por tudo, 2016!

Beijos,
Carol Santana
Textos
14/12/2016

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Querido,

Foi uma longa jornada até aqui.

Épica, não é mesmo? Com muitos clichês, alguns tombos. Vários altos e baixos, um coração partido aqui e ali. Meia dúzia de promessas feitas e seis dezenas de outras não cumpridas. Alguns vários potes de Nutella, numa vibe meio “beber pra esquecer os problemas”. Você sabe, cada um tem sua forma de escapar da realidade.

Meu querido, meu bem, meu amor. Foi uma estrada cheia de curvas, altos e baixos. Buracos se perdendo no desfiladeiro, lágrimas se fundindo com água no chuveiro, gritos sufocados no travesseiro. E eu quero que você saiba que eu passaria por tudo outra vez, pois eu sei que cada momento da minha vida me preparou para te encontrar. Meu novo amor.

Parece apropriado dizer meu novo amor, sabe querido? Pois sou uma nova eu. Você jamais teria me amado no passado pois foram épocas macabras em que eu mal podia amar a mim mesma. Puxa, eu magoei um bocado de gente. Fiz escolhas tortas que entortaram meu coração pra lados escuros e ainda por cima não tive certeza de quem eu era por longos anos. Mas sei hoje que você, que ainda vai me amar, vai me amar com tudo que restou, ferveu e se transformou aqui dentro.

Você que ainda vai me amar jamais vai ter que esquecer daquelas coisas tão imaturas que fiz quando procurava por mim mesma, pois você já me conheceu toda completa. Você que ainda vai me amar vai saber que eu gosto de canela, e para ti vai ser como se sempre tivesse sido dessa forma. O cheiro de café na manhã, e a canela invadindo a casa. Você que ainda vai me amar vai ter conhecido essa mulher incrível que te ensinarei a amar, pois eu a amo também.

Você que ainda vai me amar vai ter tido suas próprias memórias em desfiladeiros, chuveiros e travesseiros. E você vai saber que todas essas experiências te prepararam para estar comigo. Você vai me amar apesar de todas essas coisas, pois já perdeu o suficiente na sua vida para saber o que realmente é precioso. Você, meu querido, é completo. Não vai procurar em mim algo para preencher vazios em você, você sabe quem é. Aho, como essas certezas pessoais são preciosas em um relacionamento!

Sei que apesar dos trancos e barrancos haverão os dias em que você, que ainda não me ama, vai me amar apesar de me odiar. Vai me amar apesar do meu cabelo bagunçado, meu jeito desengonçado, meu espírito desequilibrado. Você, que ainda não me ama, vai me amar como não pensou que poderia amar outra pessoa novamente.

Mas não é novamente, meu amor. Todos os amores de nossas vidas são diferentes, entende? Pelas infinitas pessoas que nos transformamos ao longo dessa vida. Pelas infinitas pessoas que conhecemos ao longo dessa vida. Pelas infinitas experiências que nos modificam nessa vida. Pelas infinidades de infinitos que cabem em nossa vida.

Ah, meu bem. Esse amor – tão doce – de jogar as pernas para cima e jogar vídeo-game, comer pipoca, ver filmes e ler livros com a cabeça no colo um do outro, vai aquecer seus dias gelados como se nunca tivessem experienciado a solidão algum dia. Sei que você ainda não me ama, talvez seu coração ainda esteja tomando as decisões tortas da sua vida, ou talvez ele ainda esteja totalmente intoxicado pela sombra que alguém deixou.

Estamos meses separados de sequer ouvirmos falar da existência um do outro. Daqui algumas luas vamos nos encontrar na fila de um cinema, ou tentar comprar a última Nutella no mercado, ou ver um ao outro lendo o mesmo livro no metrô, e você vai se lembrar de como é a sensação de sentir que seu coração está finalmente livre de tudo aquilo que você já não ama mais, apesar de ter te transformado tanto.

É uma coisa difícil aceitar que não amamos mais tudo aquilo que passamos todos esses anos acreditando que teríamos no travesseiro ao lado pelo resto de nossas vidas, não é mesmo, meu bem? É uma sensação de engano na boca do estômago. De vazio no peito. De nó no coração. Você, que ainda não me ama, vai saber do que estou falando pois sei que você já amou antes. E acabou.

E, puxa vida, como você se sentiu sozinho depois disso. Como você teve tempo pra se conhecer e fazer tudo que realmente ama. Redescobrir suas paixões. Reestabelecer suas prioridades. Puxa, como isso te preparou para saber que seu coração estaria livre e curado um dia. Minha nossa, como isso foi importante para que seus olhos se revirassem e sua boca se curvasse num sorriso meio de esguelha naquela fila, ou naquele mercado, ou naquele metrô.

Ah, meu bem. Obrigada por segurar firme ao longo de cada desfiladeiro, chuveiro e travesseiro que teve que enfrentar sozinho antes de me amar. Sei que você poderia ter desistido em qualquer um deles, mas o fato de ter persistido é o que moverá nossos pés em direção um ao outro. Se, pelo menos, continuarmos nos movendo.

Você ainda não me ama, mas, quando finalmente estiver pronto para isso, saiba que também vivi umas coisas exageradamente fantásticas que prepararam a minha vida para ser o amor da sua. Ou, pelo menos, dessa sua versão que seguiu acreditando que me encontraria mesmo depois dos vários potes de Nutella esvaziados a uma colher só. Te digo isso agora pois quero que saiba, o amor é a coisa mais absolutamente transformadora que já vivi, e, no entanto, quão revelador é saber que precisamos mudar até estarmos prontos para amar alguém?

À você que ainda vai me amar quero dizer: estou muito feliz em saber que um dia vou te encontrar. É como se eu sempre tivesse te amado, por toda a minha vida, sem saber que todo esse amor é pra você.

Beijos,
Carol Santana
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