Textos
29/08/2016

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Meu bem,

Não volta não. Eu sei que eu disse que o amor é eterno então depois desse tempo que você tirou pra pensar você talvez tenha ficado nostálgico e sentido a minha falta – Deus sabe que eu ainda guardo uma das suas camisas! – e pensado que isso significa que o seu amor ainda existe, mas não volta não.

Porque isso aí não é amor, é lembrança.

Quando se sentir assim lembre da decisão que você tomou. Lembre do tempo que você precisava, de tudo que você queria viver “no mundo lá fora”, de tudo que eu não podia fazer por você, de todas as coisas que você tinha pra descobrir (sobre você, sobre mim, sobre o mundo!). Me faz um favor e lembre de toda aquela última conversa. Lembre que tudo que eu podia fazer por você eu já fiz, tudo que eu podia ensinar eu ensinei e tudo que eu podia doar de mim eu doei, agora você precisa continuar sozinho. Mas, por favor, não volta não. E eu tô te pedindo isso com o coração mais aberto que eu tive nesses últimos tempos.

E, tudo bem, você talvez ache que eu tô falando isso porque eu não te amo. É bem verdade que o que eu sinto é uma coisa diferente de antes – ver que você não me amava fez com que o meu amor por você diminuísse um pouquinho, sabe? – mas ainda é amor. Não é isso, que eu tô falando tem uma parte de mim que sempre vai te amar porque o meu amor não depende de você pra existir, ele simplesmente existe. Mas tem outra que entendeu que a gente tava fazendo tudo errado. O amor não é complicado e não tem poréns então isso aí que você tá sentindo não é amor, é lembrança.

Na verdade eu tô pedindo isso porque anda acontecendo umas coisas muito inacreditáveis na minha vida, e, pela primeira vez desde que me lembro, eu posso abraçar essas coisas porque eu não estou ocupada demais pensando em como consertar nossos erros, nossos amores, nossos corações, nossos futuros. E eu quero aproveitar isso, eu realmente, realmente, realmente acho que mereço.

No começo não achava, sabe? Nunca me imaginei escrevendo uma carta dessas, ainda mais nunca me imaginei escrevendo uma carta dessas pra você, que já foi a pessoa mais importante da minha vida. Mas estou escrevendo porque eu descobri que eu não quero compartilhar uma vida inteira com uma pessoa que não acreditou em mim, que não teve fé no meu amor, que não achou que eu era o suficiente. Me disseram que isso ia passar e mandaram eu tomar uma boa dosagem de um remédio que os doutores do amor recomendam pra coração partido: tempo. Uma dose de manhã e uma antes de dormir por seis meses, depois um retorno pra tirar o curativo e conferir os exames. Ainda carrego a cicatriz por aí mas o médico disse que isso é normal.

Meu bem, meu amor, meu sunshine, não volta não.

Eu li esses dias que o antídoto para as coisas que nos envenenam está na própria coisa, tipo, se uma cobra te pica o antídoto é retirado da presa da própria cobra. E eu costumava pensar sobre você dessa forma, sabe? Que independente do que tivesse acontecido o meu amor seria tão imensamente eterno que poderia te curar, mas o seu não era, né? Então como eu podia me curar quando a fonte de veneno era maior que a de antídoto?  Às vezes eu acho que é o contrário e os cientistas não descobriram ainda, que talvez o veneno das coisas que nos curam está na própria coisa e na verdade você nunca foi a cura e sim a toxina. Então, por favor, não volta não.

Não volta não porque eu não vou conseguir te explicar em palavras o quanto eu mudei nesse tempo. Não vou conseguir explicar que você não é mais o Sol cuja minha vida revolve em volta, apesar de todo tempo que eu passei te chamando de sunshine. Não vou conseguir te dizer na sua cara o quanto você me quebrou, me magoou, me feriu e me fez sangrar muito mais litros de sangue do que eu jamais pensei ter.

Tem coisas que precisam ser ditas mas só porque precisam ser ditas não quer dizer que precisam ser ouvidas. Essa carta é pra dizer isso sem você ter que ouvir, porque eu não quero te fazer sentir culpa. Não se culpe não, meu bem. Eu achava que a gente ia poder usar os aprendizados que o nosso relacionamento nos deu para sermos mais fortes juntos, mas não se culpe não. Use o que você aprendeu com uma pessoa cujos erros – como os nossos – ficaram no passado, assim vocês dois podem evitar os assassinatos, as facadas, as bolsas de sangue tentando recuperar tudo, a bagunça que deixa um coração quando descobre que está batendo para manter viva a pessoa errada.

Era isso que você queria já há algum tempo, então eu te peço, meu bem, não volta não. Fica ai onde você está – aonde quer que seja esse lugar – porque quando você foi pra ele e me deixou pra trás eu não consegui seguir nem a sua sombra, e me levou meses pra entender que não é do lado dela, na escuridão, que eu deveria estar. Demora um pouquinho pra gente descobrir que o amor não corre na frente e nem fica pra trás, né? Amor caminha lado a lado. Então não volta não, fica.

Porque embora o amor seja eterno e as dores não, as cicatrizes de quem foi valente o suficiente para sobreviver também perduram por muito tempo depois de se fecharem. Não volta não, não agora, não deu tempo ainda. Não deu tempo de amadurecer, não deu tempo de esquecer, não deu tempo de eu – de você – me transformar numa pessoa cujos erros ficaram no passado. Não deu tempo ainda – não sei se um dia vai dar -, então não volta não.

O tempo vai passar, e, arrependido ou não você vai descobrir – como eu descobri quando passei por isso – que existe um nível de dor que as pessoas podem suportar e elas podem até sobreviver depois disso, mas quando esse limite é atingido prescrevem um novo remédio pra gente e altas doses dele nos ensina uma verdade que ninguém nunca mais pode desmentir: nós somos o suficiente.

Se um dia esse tempo chegar eu só quero te dizer: Prazer, eu sou o suficiente. E agora te peço pra não voltar porque eu não sou mais uma pessoa que pode aceitar que alguém diga o contrário. Tive overdose de amor próprio.

Yours ever,

Shar

Beijos,
Carol Santana
Textos
17/08/2016

rossandrach

Aconteceu a coisa mais fantástica hoje. Ainda estou meio em choque porque foi muito inesperado, mas um inesperado bom, sabe? Fazia tempo que a vida não me dava “inesperado bom”, hoje deu. Acordei e tinha a foto de um casal que eu conheço, que havia se separado, juntos no instagram. Encheu meu dia de alegria saber que estavam juntos novamente. Eram do tipo que a gente olha e pensa “como são bons juntos”, mas há pouco mais de um ano – quase dois – se separaram e não só eles ficaram com o coração partido, eu também.

Foi uma fase meio louca esse um ano e meio atrás – quase dois -, mais de 50% dos casais de amigos que eu tinha se separaram. Aquele pessoal que começou a namorar na mesma época que eu, e que, como eu, já estava em um relacionamento há muitos anos, sabe? Já era, acabou, fim, the end. E agora tenho visto alguns deles encontrar seu caminho de volta um pro outro. Esse que amanheceu meu instagram foi o terceiro nos últimos meses.

É aquele negócio do se perder no outro. Quando estive em um relacionamento longo eu senti que em muitas coisas eu me anulava do que eu queria, do que eu sonhava, de quem eu era, pra fazer o relacionamento dar certo. E, entenda que eu não estou aqui para falar que isso é errado, mas existe um nível em que isso pode acontecer para ser considerado saudável. As pessoas ficam juntas para se somar, não para se diminuírem.

Um relacionamento longo é uma imensa teia de conforto. Você precisa estar atento para não deixar que isso te prenda e te impeça de viver a sua vida. Alguns marinheiros de primeira viagem não sabem disso, ferem e magoam uns aos outros tentando se libertar da teia em que eles mesmo se deitaram, se enrolaram e se prenderam. É de fato libertador sair dela, é como uma lufada de vento para os claustrofóbicos, passamos longos intervalos de tempo desejando por isso.

Mas o amor não é uma teia de conforto, e um relacionamento – longo ou curto – que se pareça com uma deve de fato chegar ao fim. O amor não é uma coisa que te impede de sair para dançar com as suas amigas, não é uma sensação de pânico que bloqueia sua garganta porque seu parceiro não gosta de fazer coisas com você, não é querer ir fazer escalada em dupla e nunca ir. O amor não te torna uma pessoa diferente, ele faz com que você sinta orgulho de ser quem você é: uma cantora de chuveiro, um fazedor de cosquinhas, uma chef de cozinha criativa, um treinador assíduo, uma ginasta em formação, um grande e enorme ursinho de pelúcia em tamanho real, uma amante de flores, um escalador, uma dançarina. Uma infinidade de coisas que nenhum dos dois pensou que poderia ser até descobrir que era.

E algumas pessoas não sabem quem são, por isso é comum encontrar parceiros que ditam para o outro quem ser. E o outro aceita, porque não existe persona formada ali dentro para lutar contra. A luta começa quando descobrimos quem somos, e o que queremos. Mesmo que estejamos apenas sendo inseguros, imaturos e egoístas para perceber que já temos alguém ao nosso lado disposto a passar por todo o processo de redescobrimento conosco. Queremos fazer sozinhos, ser independentes, viajar o mundo, ter experiências.

Alguns de nós realmente querem, outros estão apenas seguindo o fluxo porque ainda não descobriram quem são ou o que querem de verdade. É por isso que alguns casais terminam mas voltam. É necessário muito orgulho e amor próprio para ir embora, e muita humildade e certeza para voltar. O verdadeiro amor é aquele que ama o que não pode ser amado, perdoa o que não pode ser perdoado, tem fé no que já não há mais esperanças, esquece o que não pode ser esquecido e espera o que parece inalcançável. Acontece só que às vezes ele não vai ser visível de primeira.

Tem casal que precisa de mais de um chance para amar. Por isso que quando eu vi a foto do antigo (e agora novo) casal e descobri que estavam juntos novamente eu achei inesperado, mas um inesperado bom, sabe? Algumas pessoas não vão ficar com o amor de suas vidas porque nunca se amaram o bastante para ir embora dos amores errados, algumas pessoas não vão ficar com o amor de suas vidas porque nunca foram humildes o suficiente para voltarem para eles, algumas pessoas não vai ficar com o amor de suas vidas porque não sabem quem são e por isso não sabem quem o amor de suas vidas é.

Mas algumas pessoas vão ficar com o amor de suas vidas, e é acreditas que somos essas pessoas é o que nos faz amar o que não pode ser amado, perdoar o imperdoável, ter fé no que parece perdido e esperar o que parece inalcançável. Eu achava que quem amava de segunda vista estaria sempre sujeito a superar as dores causadas no passado, os erros cometidos, as mentiras ditas, os enganos que foram feitos e as incertezas vividas, e de fato isso é verdade. Começar um novo relacionamento com a mesma pessoa é estar sujeito ao medo de que ela vai errar onde já errou, e tentar diariamente superar isso. Mas muito mais que isso, amar pela segunda vez é entender que o amor da primeira vez nunca acabou, só era necessário se redescobrir, e assim mesmo, do jeito mais torto que pode haver, se aceitar e saber que a vida é melhor com essa velha-nova pessoa ao lado.

Amor não é teia que prende, é asa que liberta. É que às vezes de primeira a gente não sabe disso.

Beijos,
Carol Santana
Textos
30/07/2016

essamenina

Quando eu era criança me cansei de ouvir as pessoas dizendo pra minha mãe “essa sua menina é fogo”. Eles não sabiam o quanto estavam certo. Provavelmente acharam que eu ia crescer e parar de fazer arte, mas quanto mais velha eu fico mais arte quero fazer. Espero que vocês ainda vejam muito da minha arte por aí, tenho tentado.

Depois que eu cresci continuaram falando “essa sua amiga é fogo”, “tua namorada é fogo”, “sua irmã é fogo”. E eu, pra ser sincera, me ofendia um pouco com isso. Sentia que não era bom ser fogo. Acho que é porque as pessoas falam em um tom de julgamento, além do mais ninguém gosta de quem “faz arte”.

Que isso, tá fazendo arte, menina? Essa menina é fogo!

Aí descobriram que meu signo é de fogo. Já era pra mim. Só porque eu nasci num dia em que o Sol tava sei lá como e os planetas não sei de que jeito – só sei que nessa época Plutão ainda era planeta – mas só porque eu nasci nesse dia começaram a reformular o “essa sua menina é fogo” pra, “toda esquentadinha”.

Pra piorar dizem que cada signo tem um complemento perfeito, que é uma pessoa regida pelo signo com 6 meses de distância do seu e que vai amenizar, balancear, completar, ou equilibrar, os efeitos do seu signo. Ou seja, o seu oposto no Zodíaco. Pra mim isso corresponde ao pessoal entre os dias 23 de Setembro e 22 de Outubro. É um signo de ar, que de acordo com a crença do Zodíaco controla o meu fogo.

Eu não acredito em signo, mas o fato é que, bem, chega uma hora vida que a gente aprende a abraçar tudo que é, de bom ou de ruim. Não tem jeito fácil de dizer isso então eu só vou dizer: é mesmo verdade, eu sou fogo. Tu sabe o que acontece com o fogo em contato com o ar? Se for chama, morre, se for incêndio, alastra.

De primeira achava ruim quando falavam pra minha mãe que eu sou fogo, depois não gostava quando diziam pras minhas amigas, pro meu namorado, pra minha irmã, que eu era esquentadinha. Achava péssimo, ofensivo até. Mas eu sou fogo.

Começou com uma faísca. Tentei abafar pra não causar muitos estragos mas comecei a me sentir adormecida, não parecia que era eu mesma, então lá fui eu atrás de um novo fósforo pra manter a chama acesa. Acendeu, brilhou, esquentou. Tremulando em azul e laranja, tá tudo certo agora. Epa, queimei. Melhor tomar cuidado com isso, depois de tanto tempo a gente esquece como é lidar com fogo, não pode é perder a prática, dizem que o fogo é traiçoeiro, e não pode ser domado.

Que mania de querer domar os outros. Por acaso alguém pode ser domado? Água pode ser domada? Terra? Ar? Acho que não, é melhor deixar cada um ser. Tem gente que tem medo do fogo, e não nego que fora de si o fogo queima. Sim, é preciso ter cuidado, às vezes eu mesma olho pra mim e falo: Essa sua menina é fogo, mulher!

Então aceitei que eu sou fogo e faço arte. Posso estar como faísca, chama, ou explosão mas sempre vou queimar. Por eu tenho fogo em mim que vem de dentro pra fora, me aquece, me dá forças e ilumina minha vida quando a pior das noites desce e eu sou tomada pela escuridão. Porque eu sou fogo. Não vou deixar de ser fogo, e gosto de ser fogo, fogo faz arte.

Já não falam mais pra minha mãe, nem pra minha irmã, pro meu namorado ou para as minhas amigas. Falam pra mim “Mas você é fogo, ein?”, e eu falo “Sou, sou sim.” e as pessoas saem com medo de serem queimadas. Tudo bem, é só instinto. Eu sei que o fogo também aquece, é luz que irradia a alma. É melhor ser fogo do que morrer de frio, corações de amor congelado é que tem medo do estrago que o fogo pode causar.

Sorte que fogo da alma tremula e dança mas não se apaga. Pena que tem sempre alguém tentando apagar o incêndio. 

I might only have one match but I can make an explosion. This is my fight song, take back my life song, prove I’m alright song. My power’s turned on starting right now I’ll be strong, I’ll play my fight song.

And I don’t really care if nobody else believes, ‘cause I’ve still got a lot of fight left in me.”

Beijos,
Carol Santana
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