Textos
30/07/2016

essamenina

Quando eu era criança me cansei de ouvir as pessoas dizendo pra minha mãe “essa sua menina é fogo”. Eles não sabiam o quanto estavam certo. Provavelmente acharam que eu ia crescer e parar de fazer arte, mas quanto mais velha eu fico mais arte quero fazer. Espero que vocês ainda vejam muito da minha arte por aí, tenho tentado.

Depois que eu cresci continuaram falando “essa sua amiga é fogo”, “tua namorada é fogo”, “sua irmã é fogo”. E eu, pra ser sincera, me ofendia um pouco com isso. Sentia que não era bom ser fogo. Acho que é porque as pessoas falam em um tom de julgamento, além do mais ninguém gosta de quem “faz arte”.

Que isso, tá fazendo arte, menina? Essa menina é fogo!

Aí descobriram que meu signo é de fogo. Já era pra mim. Só porque eu nasci num dia em que o Sol tava sei lá como e os planetas não sei de que jeito – só sei que nessa época Plutão ainda era planeta – mas só porque eu nasci nesse dia começaram a reformular o “essa sua menina é fogo” pra, “toda esquentadinha”.

Pra piorar dizem que cada signo tem um complemento perfeito, que é uma pessoa regida pelo signo com 6 meses de distância do seu e que vai amenizar, balancear, completar, ou equilibrar, os efeitos do seu signo. Ou seja, o seu oposto no Zodíaco. Pra mim isso corresponde ao pessoal entre os dias 23 de Setembro e 22 de Outubro. É um signo de ar, que de acordo com a crença do Zodíaco controla o meu fogo.

Eu não acredito em signo, mas o fato é que, bem, chega uma hora vida que a gente aprende a abraçar tudo que é, de bom ou de ruim. Não tem jeito fácil de dizer isso então eu só vou dizer: é mesmo verdade, eu sou fogo. Tu sabe o que acontece com o fogo em contato com o ar? Se for chama, morre, se for incêndio, alastra.

De primeira achava ruim quando falavam pra minha mãe que eu sou fogo, depois não gostava quando diziam pras minhas amigas, pro meu namorado, pra minha irmã, que eu era esquentadinha. Achava péssimo, ofensivo até. Mas eu sou fogo.

Começou com uma faísca. Tentei abafar pra não causar muitos estragos mas comecei a me sentir adormecida, não parecia que era eu mesma, então lá fui eu atrás de um novo fósforo pra manter a chama acesa. Acendeu, brilhou, esquentou. Tremulando em azul e laranja, tá tudo certo agora. Epa, queimei. Melhor tomar cuidado com isso, depois de tanto tempo a gente esquece como é lidar com fogo, não pode é perder a prática, dizem que o fogo é traiçoeiro, e não pode ser domado.

Que mania de querer domar os outros. Por acaso alguém pode ser domado? Água pode ser domada? Terra? Ar? Acho que não, é melhor deixar cada um ser. Tem gente que tem medo do fogo, e não nego que fora de si o fogo queima. Sim, é preciso ter cuidado, às vezes eu mesma olho pra mim e falo: Essa sua menina é fogo, mulher!

Então aceitei que eu sou fogo e faço arte. Posso estar como faísca, chama, ou explosão mas sempre vou queimar. Por eu tenho fogo em mim que vem de dentro pra fora, me aquece, me dá forças e ilumina minha vida quando a pior das noites desce e eu sou tomada pela escuridão. Porque eu sou fogo. Não vou deixar de ser fogo, e gosto de ser fogo, fogo faz arte.

Já não falam mais pra minha mãe, nem pra minha irmã, pro meu namorado ou para as minhas amigas. Falam pra mim “Mas você é fogo, ein?”, e eu falo “Sou, sou sim.” e as pessoas saem com medo de serem queimadas. Tudo bem, é só instinto. Eu sei que o fogo também aquece, é luz que irradia a alma. É melhor ser fogo do que morrer de frio, corações de amor congelado é que tem medo do estrago que o fogo pode causar.

Sorte que fogo da alma tremula e dança mas não se apaga. Pena que tem sempre alguém tentando apagar o incêndio. 

I might only have one match but I can make an explosion. This is my fight song, take back my life song, prove I’m alright song. My power’s turned on starting right now I’ll be strong, I’ll play my fight song.

And I don’t really care if nobody else believes, ‘cause I’ve still got a lot of fight left in me.”

Beijos,
Carol Santana
Textos
20/07/2016

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Você me libertou. Não tenho como expressar o quanto estou feliz em finalmente poder dizer essas palavras. Não acho que foi, exatamente, um grande favor, afinal era só o ciclo natural das coisas. Mas você me libertou. Não me entenda mal, o que vivemos sempre será eterno mas eu não preciso mais de você para ser feliz. Você me libertou.

Quando você não se importou o quanto eu precisava ouvir a sua voz, era você me libertando. Quando você não quis me ouvir, era você me libertando. Quando você não me ligou para perguntar como eu me sentiria sobre levá-la na festa, era você me libertando. Quando você nem me apresentou a ela, era você me libertando. Quando você fingiu que não me viu, era você me libertando. Todas as vezes que você pensou em me mandar uma mensagem e não mandou, era você me libertando. Quando você não me falou tchau, era você me libertando. Quando você apertou meu braço disfarçadamente porque não tinha coragem de simplesmente balançar a cabeça e reconhecer minha existência, era você me libertando. Quando você me usou como desculpa para se afastar das pessoas que se importam com você, era você me libertando.

Eu não preciso mais de você para ser feliz, porque você libertou. Quando eu era a única pessoa para quem você queria contar sobre sua faculdade e você não me ligou, era você me libertando. Quando você deu seu casaco pra ela e eu fiquei com frio, era você me libertando. Quando eu passei tão mal que vomitei por um dia inteiro e meu corpo ficou dolorido como quem foi atropelado por um caminhão e eu não pude te ligar porque eu não faço ideia de quem você é, era você me libertando.

As pessoas tem o costume de procurar um novo amor para superar um antigo. Acham que uma presença diferente vai curar a ausência deixada por quem se foi, que uma amor diferente vai preencher com sorrisos, cozinha cheirando pão fresco. As pessoas acham que um amor diferente vai cuidar da ferida aberta que pulsa e sangra como se tivessem jogado sal sobre ela. Acho engraçado quando meus amigos terminam um relacionamento e logo depois de um mês já estão namorando outras pessoas. É fácil apagar as fotos do instagram e começar tudo de novo, deletando uma história de amor para começar uma nova. Mas não é bem assim que funciona.

É, mas não dessa forma.

Quando pegamos nosso coração, essa parte do corpo que mantém todo o resto vivo, e entregamos nas mãos de uma pessoa que não está conseguindo cuidar de seu próprio órgão, que não está conseguindo segurar em suas mãos o próprio coração, nós estamos criando um assassino. Não podemos criar um assassino, as pessoas merecem viver. Para entregar nosso coração nas mãos de alguém é necessário, em primeiro lugar, que ele esteja conosco, e você me libertou. Você me entregou meu coração de volta, ensanguentado, quase sem pulsar, remendado, cortado, ferido e divido em três, você estava me libertando.

A culpa foi minha, de ter transformado você em um assassino de corações. Ninguém devia ter tanta responsabilidade em mãos. Eu devia ter segurado meu próprio coração e cuidado dele eu mesma, mas o entreguei a você, que por um longo tempo não soube o que fazer com ele. Mas você me libertou. Eu não sinto mais dor, eu não sangro mais, e sinto esse coração pulsar tão forte e costurado como nunca esteve, sadio e liberto eu não posso evitar de te agradecer. Antes eu via flores em você, mas essa liberdade cardíaca me deu uma nova perspectiva das coisas, e eu vejo flores dentro. De mim.

Precisamos parar de entregar nossas coisas mais frágeis e preciosas àqueles que não sabem, e não querem aprender, como cuidar delas. É verdade o que dizem, realmente é necessário um novo amor para curar um coração assassinado. É o amor próprio, e ele liberta muito mais que qualquer outra coisa.

Beijos,
Carol Santana
Textos
06/07/2016

Sem título

Eu me lembrei de você hoje.

Estava andando na rua quando parei em uma esquina e olhei pra cima pra ver se o sinal estava fechado pra eu poder atravessar e BANG, fui atingida. Não era um motorista, não que você se importe, mas, estou bem. Fui atingida, abençoada, por uma visão do céu, que estava espetacular. Azul, daquele azul lindo que você ama, e traz paz de espírito, e com um monte, várias, infinitas, fofas e brancas nuvens por toda parte. Foi a coisa mais linda do dia.

Comecei a rir pensando que se fosse ligar pra te contar isso provavelmente eu ia me embaralhar toda e começar a gaguejar e fazer sons engasgados que geralmente eu fazia quando estava perto de você, do tanto que você me deixava nervosa, mas ai depois comecei a pensar, eu nem me lembro mais como eram esses sons, só lembro que você achava muito engraçado me ver tão nervosa a ponto de fazê-los.

As nuvens estavam tão fofas que eu me senti naquela fase do Mario cheia de nuvens, sabe? Que tem uns morrinhos verdes e a gente vai pulando neles e quando o pé do Mario toca no morrinho ele vai baixando até que se chegar embaixo você morre? É, aquela fase que geralmente o yoshi morre, sabe? Então, lembrei dela, e lembrei da quantidade de tempo e quantidade de risadas que gastamos jogando esse jogo, meu Deus, faz tanto tempo que essas lembranças parecem de outra pessoas implantadas aqui no meu HD com um pendrive externo porque, francamente, não tem lógica que tudo isso foi a gente que viveu.

Não foi, eram outras pessoas. Pra começar eram um casal, nós não somos um casal. Eram um casal e precisavam muito da companhia, da sorriso e da mão do outro segurando a deles pra serem felizes e essa não é nossa situação. Eles também podiam ligar um pro outro pra dividir coisas, como quando alguém da família perde o emprego, como quando alguém perde dinheiro na rua e fica muito triste, se forma, ganha bebê, perde 12 quilos, descobre uma receita nova, é promovido ou compra um carro, e, você sabe, esse também não é nosso caso, não podemos contar um com o outro para nada, porque aquelas eram outras pessoas e tudo que nós somos agora está longe de ser amor, amizade ou sequer empatia. Somos só estranhos no supermercado, alguém com quem se trombaria na fila do banco e pediria um “desculpe” amarelado.

Também lembrei de você porque eu vi um coelho nas nuvens e ai eu lembrei do dia que a minha irmã ganhou um coelho e ficamos brincando com ela no quintal daquela casa que eu morei, onde tinha grama, e depois eu pensei “gosto de coelhos”, e quando começo a pensar em animais automaticamente me vem à cabeça a imagem de você com uma coberta peluda e marrom envolta por todo o corpo se fingindo de urso e quando eu penso em ursos eu lembro daquela coisa medonha que fica sobre o seu guarda-roupas, e, francamente, doe isso pra um orfanato!

Na sequência eu lembrei que hoje é quarta e tem jogo, e que você provavelmente veria o jogo, lembrei que eu preciso escrever uma cena detalhada de um jogo de futebol para o meu livro e você disse que ia me ajudar a narrar isso, mas você nunca fez isso. Você nunca me explicou como funciona o futebol, nunca fez um buquê de origami pra mim e nem se importou se eu queria ou não usar aliança. Tem muita coisa que você nunca fez, então, por que de repente começo a me preocupar com as coisas que você está fazendo agora?

Não posso fazer isso, não tenho energias suficientes pra gastar me preocupando com isso. Não porque eu não me importe com você, ainda me importo um pouco, e te amo um pouco, é só que eu não gosto mais de você. É eu sei, muito Dexter e Emma, mas.. tem uma coisa que você nunca soube: a nossa história é exatamente igual à de Dexter e Emma. Você lembra de quando a gente terminou no primeiro ano da faculdade e depois de algumas semanas eu te liguei e pedi pra conversarmos porque eu queria voltar? Isso aconteceu depois de eu assistir Um Dia e decidir que nós éramos muito bons pra sermos tão burros quanto Dex e Em, bons demais.

Mas você nunca foi de ver, gostar ou realmente entender esse tipo de história, então, acho que não tem mesmo porque explicar como pode esse negócio de eu ainda te amar mas não gostar mais de você. Sabe qual é o problema dos relacionamentos? São sempre duas pessoas que escolhem começar mas uma delas desiste no meio do caminho e à outra só resta fazer o mesmo, e sabe do que?

Hoje tem jogo, mas nosso time perdeu porque não soube jogar junto. Cê é louco, Cachoeira? Que bagunça é essa que esses jogadores desorientados fizeram aqui no ataque? O amor é tão simples quanto tentar colocar uma bola numa rede enquanto 11 caras suados tentam te impedir: nem todo mundo é bom de bola, e eu sempre achei que você era o melhor dos jogadores, mas sabe quando uma pessoa fica muito tempo sem jogar que quando volta fica evidente que ela está tentando fazer o que fazia antes só que isso não funciona mais porque ela é uma pessoa diferente de antes, numa realidade diferente de antes? Então!

CARTÃO VERMELHO! Até daqui algumas partidas, vou jogando com um integrante a menos até lá. Do que é que eu estou falando? Eu não sei nada de futebol! Eu acho que o que eu realmente queria dizer era que: eu me lembrei de você hoje.

Opa, o sinal abriu.

 

Beijos,
Carol Santana
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