esse texto de amor é na verdade sobre o silêncio

Dia 10/05/2018
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Sobre Textos

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Eu queria dizer que esse texto começou com um Alô? Porque eu quase liguei pra ele antes de escrever esse texto.

Foi por pouco, e precisei fazer um daqueles acordos comigo mesma, sabe? De que eu ia esperar 22h despontar na tela do celular antes de ligar. Que eu ia contar as estrelas sozinha e que se o comichão de dançar pela noite estrelada me subisse pelas pernas eu ia imaginar que eu estava no meu lugar seguro, a clareira onde eu imagino as noites mais bonitas.

Eu não liguei pra ele antes de escrever esse texto porque eu não teria sabido o que dizer quando ele atendesse. Eu não teria conseguido levar a pergunta adiante, eu teria tido medo da resposta e, se eu for sincera – sempre sou – eu não acho que ele teria sabido o que responder. É um desses caras cheios de imaginação também, vai ver se senta pra contemplar estrelas e não nota as constelações porque antes de enxerga-las se perde em nuvens fofas e brancas que percorrem o céu escuro e se desfazem como algodão doce num saco plástico que a gente teima em soprar.

Mas às vezes pra imaginar amor é preciso, primeiro, saber que ele pode enraizar ali. E isso é tanto pra tanta gente.

O amor assusta as pessoas. Porque nem todo mundo sabe que dá pra percorrer um céu estrelado na ponta dos pés e escorando a cabeça em braços quentes. As pessoas esquecem de certas coisas. Algumas porque o tempo apaga as informações, outras porque precisam do espaço dessas memórias pra lembrarem de outras coisas. Mas tem gente que espera estar pronto pro amor, e isso… bem, o amor não aparece apenas quando se está pronto pra ele – o que quer que isso quer dizer. Às vezes é sobre ele estar pronto pra gente.

Depois de arruinar algumas músicas em potencial com pessoas de quem não queremos lembrar, é difícil – de fato! – esperar pelo amor. Não é como se fôssemos abrir a porta da sala, sentar ali no sofá com uma xícara de chá e esperar por ele chegar como quem espera a visita. Chega mais, fique à vontade. Sinta-se em casa.

Eu não liguei pra ele antes de escrever esse texto. Poderia, você sabe. Mas não liguei não.

Daí o sol vai se pondo, e acompanho da janela da sala. Um cheiro de bolo recém assado começa a apontar pelo ambiente, o chá começa a esfriar. Eu olho pra um lado na rua, olho pro outro. Passa um cachorro na calçada, daqueles pequenos, marrom bem clarinho, o rabinho pra lá e pra cá. Viro a caneca de novo e é mais um gole. Mas até aqui, nada.

Não, não é assim que se espera o amor.

Mas às vezes é assim que ele aparece. E então há uma outra porção de cenários em que ele se apresenta, sendo a maioria deles muito inesperados. Resposta pra perguntas que não sabíamos que tínhamos. Ocupando espaços que não percebemos que existiam. Rindo em silêncios que outrora eram habitados apenas por nós mesmos. Dançando debaixo de estrelas que a gente não vê a olho nu.

Quando a gente menos espera. Quem a gente menos espera. Por motivos que a gente menos espera. Onde a gente menos espera. Vestindo o que a gente menos espera. Cantando o que a gente menos espera. Tocando o que a gente menos espera. E às vezes não precisa de um toque sequer, pra de fato sermos tocados. Mas o telefone dele não tocou antes de eu escrever esse texto, porque eu não liguei.

Como poderia, se ele não estava esperando o amor?

Não soube o que era. Por vezes, quando um amor vai embora, o que sobra da bagunça e do caminhão de mudança é só o silêncio. Ouvi-lo é o que nos faz escutar todo o resto. Ouça.

 

 

 

Percebe?

O barulho que você não escuta, é o telefone não tocando.

Eu sei que era amor sim. O silêncio soube que era amor sim. O chá que tomei enquanto escrevia esse texto soube que era amor sim. Minhas amigas de Teresina que leem esse texto do outro lado do país souberam que era amor sim. O cachorro marrom que passou na calçada abanando o rabinho no fim da tarde soube que era amor sim.

Mas ele não soube. Porque não aprendeu a ler entrelinhas, não aprendeu a ouvir o silêncio.

 

 

 

Percebe?

Mas já pensou se eu tivesse ligado? O que será que ele teria dito depois do alô? Será que ia ter gente em casa? Será que em algum momento teria dito, ei, bem vinda? chega mais, fique a vontade. você não é nada do que eu esperava, quando eu esperava, vestindo o que eu esperava, cantando o que eu esperava, sorrindo pro que eu esperava, mas sinta-se em casa.

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love,
cs