A história de como um coração se parte talvez nunca será desvendada. Mas se eu tivesse que mapear diria que começa quando ele se apaixona.

O amor, eu acho, aparece como a estrela vespertina depois de uma noite negra muito mais longa do que deveria ser. E nunca tão visível como imaginamos.

Os olhos acostumados com a escuridão da madrugada aprenderam a enxergam tudo à meia luz. A meia luz dos postes que piscam e se apagam como se o próprio Dumbledore e seu deluminador pisassem nas ruas. A meia luz dos carros que transitam, cruzam e param em seus caminhos para chegarem a lugares e pessoas. A meia luz dos cigarros acesos e dos olhos por trás da fumaça que eles produzem. A meia luz dos celulares guardados em bolsos, que recebem mensagens esquecidas em meio a uma conversa interessante demais para ser interrompida. A meia luz de um – ou dois – corações que se aquecem em noites chuvosas onde o vento tira guarda chuvas – que poderiam ser de qualquer cor, mas nessa cena vou ilustra-los amarelos, para que você entenda bem – para dançar.

A meia luz propicia enxergar meias verdades. Meios amores, meias decepções e medos inteiros. Mas mesmo um coração meio partido é inteiramente visível à meia luz.

Ainda que esteja se apaixonando.

É aqui que ele começa.

É aqui, num riso de canto de boca ou numa gargalhada de fazer deitar a cabeça pra trás e a boca pro alto. É junto com a virada da garrafa de cerveja na mão já gelada. O cérebro entende o que é a possibilidade do amor antes de o gosto de cevada chegar na língua. A possibilidade do amor começa a despontar, muito discreta, quando as similaridades aparecem, na identificação e descrição de uma tatuagem em comum. Na recontagem e compartilhamento de histórias pessoais demais para serem contadas a qualquer pessoa. Na problematização de uma poesia em latim, na questão do cenário político brasileiro ou na admiração que cresce e cresce, palavra por palavra, risada por risada. Ritmicamente, tragada por tragada.

Há tempos descobri que um coração quebrado não sabe pulsar, mas a realidade de que mesmo corações partidos ainda se quebram me atingiu devagar demais em uma madrugada não tão iluminada, em uma rua não tão enfumaçada quanto deveria ser. Neste dia, sozinha, enxerguei todos os olhos. Só haviam dois brilhando, e no reflexo de um carro vi que eram meus. Não tinha nem neblina, nem chuva, nem fumaça para confundir. Tinha eu, e meu coração falhando em desvendar o mistério dos corações partidos.

Se eu tivesse que mapear diria que começa quando ele se apaixona.

Eu diria que começa em abraços mais demorados do que deveriam ser. Piadas com risadas mais intensas do que mereciam. Olhares mais cúmplices do que se esperariam de retinas que nunca haviam se visto antes. Mordidas sutis e carinhos não resistidos em curvas onde apenas os perfumes moram.

O dele… o dele me lembrava um campo ensolarado de trigo, ou um vinhedo num canto esquecido da Itália, ou um pântano verde de águas escuras ou a fumaça de uma casa em chamas a mais tempo do que se pode salvar. Ou a mistura de todas as coisas e cores e fragrâncias. Vai ver ele é um vinhedo pegando fogo num canto esquecido da Itália que só pode ser salvo pelas águas escuras de um pântano. Ou algo assim.

Eu já fui queimada mais vezes do que se espera de uma pessoa inteligente o suficiente para não entrar mais em incêndios que não podem ser controlados e é ainda com fumaça nos meus pulmões que eu digo sem qualquer certeza que não sei se aprendi a virar pra trás e ir embora ao menor de sinal de fogo.

O incêndio dele me iluminou o rumo de casa em meio a tantas madrugadas que passei perambulando na companhia de nada além de guarda-chuvas coloridos demais para noites negras muito mais longas do que deveriam ser. Meias luzes não iluminam completamente pessoas inteiramente queimadas.

Mas a combustão – rápida, mortal e enfumaçada – de um coração quebrado cujo mistério eu não tenho a pretensão de desvendar, talvez devesse durar mais do que a chama de uma fagulha, já que queima tão mais que campos de trigo, vinhedos em cantos esquecidos e pântanos verdes de águas escuras.

Nem sempre a gente vê o fogo, até que ele já tenha consumido toda a vida que encontra pela frente. Não é por isso que vamos parar de nos aquecer com meias luzes ou incêndios inteiros.

Não precisa confiar em mim. Eu nunca fui tão boa em registrar ou mapear coisas quanto as pessoas que são mais habituadas a viver, estudar e contar histórias.

Todas elas.

Todas as histórias e Histórias que são vividas, estudadas e contadas. Mesmo as que se perderam em fumaça e fogo antes de serem registradas.

Não me parece ser o caso desta.

  • Débora Vieira de Lima
    dia 16/10/2017

    Eita atrás de eita!! Que TEXTÃO 👏👏👏👏

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