Daquela vez foi diferente.

Daquela vez a gente não conseguiu reparar. Já houveram vezes em que o orgulho foi muito alto, a dor muito funda o amor muito raso e a compreensão evaporou. Mas mesmo disso a gente voltou. Voltamos de tudo, menos daquela vez. Eu sempre pensei que eu poderia me escolher, que eu poderia ir embora – eu nunca pensei, acho, sobre como voltar depois caso quisesse. Nunca pensei que ia precisar.

O amor não é sobre precisar. Nunca se diz “eu preciso de você” como uma coisa boa. Precisar é sempre sobre eu, o amor é sempre sobre nós. Eu posso amar sem que o outro não me ame, mas eu não posso amar sem que outro exista. Por isso o amor-próprio é uma jornada muito longa, porque tudo que conhecemos sobre o amor é o que os outros nos contaram sobre ele e é necessário construir uma identidade nossa antes de aprender como amá-la – é necessário conhece-la

Precisar é muito egoísta, por isso eu nunca achei que fosse precisar até que precisei ir embora. E foi fácil, sabe? O estranho é que foi fácil. Não exatamente fáaaaacil, mas, ao menos, não tão difícil quando deveria ter sido. Foi difícil à beça, mas eu consegui, entende? Nunca pensei que conseguiria. Às vezes acho que deveria ter dado um pouco mais de trabalho. Sinto que a coisa certa a se fazer teria sido desmaiar em sarjetas e fazer ligações de madrugada, mas nada disso aconteceu. Nada disso nem chegou perto de acontecer.

Precisei ir. Fui. E daquela vez foi diferente.

Porque eu não precisei voltar.

E hoje eu sei que há tempestades das quais não se volta. Porque a gente nunca sai de uma tempestade conforme entramos: uma parte nossa fica lá dentro, presa para sempre no limbo do passado de quando entramos. Mas há uma pessoa que saiu da tempestade. Uma pessoa que ainda contempla o céu estrelado e sorri consigo mesma por causa dele – independente de quem escolhe contemplar ao lado. Uma pessoa que amou muito, e quando esse sentimento adormeceu continuou sendo um bom lugar, um bom lar para se viver.

Ainda dá pra andar pela cidade e ver as pessoas, conhece-las, se apaixonar pela vida delas, pelas suas mentes, pelo seus corações. É possível ser um bom lugar. É possível abrigar corações, fazê-los sentir-se em casa, fazê-los dar saltos e remar contra fortes ventos apenas para voltar para o abrigo de um abraço. Não é mais preciso se desdobrar para caber em braços pequenos demais para o seu grande coração. Há uma pessoa que saiu da tempestade, e essa pessoa – você – ainda é um bom lar.

Você nunca mais será a mesma.

Tudo porque daquela vez foi diferente. Porque daquela vez você conseguiu ir e não voltar. Porque você precisou mais de si mesma do que te ensinaram que o amor precisaria de você. O amor não é precisar. O amor é não precisar e querer mesmo assim – porque dá pra ter uma vida de escolhas em conjunto sem precisar escolher pelo outro, e talvez ele não precise de você, mas queira ficar mesmo assim, e isso é o amor.

Porque vamos todos sobreviver às tempestades, mas ainda podemos escolher ter uma vida depois delas. O amor não é a tempestade, ele é o remo. O amor não é o afogamento, é o braço estendido. O amor não é o furo no barco, ele é a vela aberta. O amor não é – nunca é – quem exige que você permaneça a mesma ou te ame apenas sob os bons tempos de sol escaldante. Ele é tudo aquilo que nenhum vento nunca foi capaz de levar embora. O amor é o que fica.

O amor nunca mais será o mesmo. Porque agora eu sei quanto ele vale, quão longe ele vai, quão forte ele luta, quanta vida ele traz consigo. E amo diferente agora, nunca mais poderei amar sob as mesmas condições de antes. Porque daquela vez foi diferente, daquela vez eu precisei ir e ele não me pediu pra ficar, e eu soube que a tempestade dele era eu. Porque daquela vez se eu precisasse voltar não poderia nadar tão forte. Quem me conheceu antes da tempestade não conhece mais. Porque eu nunca mais fui a mesma. Quem me amou antes da tempestade não pode amar mais sem permitir que eu me apresente, porque agora não há nada além de uma brisa gentil e fresca.

E eu sei que tudo isso foi porque daquela vez foi diferente. Todas as outras vezes eu tinha sobrevivido, daquela vez eu vivi e por causa daquela vez em que escolhi viver, eu nunca mais fui a mesma.



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