Tem quatro meses que eu furei minha orelha. Tenho o primeiro furo desde que eu nasci, ai fiz o segundo e o terceiro furo nas duas orelhas quatro meses atrás. Depois de uma semana tirei os brincos para limpar e o terceiro furo da orelha direita fechou nos dois minutos que me levou pra lavar o brinco com água boricada. Hoje eu tenho três furos de um lado e dois do outro, hahaha, foi muito divertido.

Na hora do furo, apesar de ser rápido, senti uma dor que não esperava. Todo mundo me falou que seria tão rápido que eu nem sentiria, mas eu senti, e ai me assustei porque ninguém me disse que eu sentiria isso. É confuso, sabe, sentir coisas que as pessoas não te disseram que você iria sentir. Mas eu sabia que ia doer depois, até a cicatrização.

Eu não sei como você chegou até aqui, porquê você chegou até aqui ou em que estado você chegou; o que te trouxe. Mas eu estou feliz por você estar aqui agora, porque nesse momento compartilhamos o mesmo espaço, e é importante que cada coisa tenha seu lugar.

Quando eu comecei o ano de 2018 eu sabia que ele seria um ano que mudaria a minha vida. Não por causa dos furos na minha orelha, mas porque eu sentia. Dentro de mim.

Mudanças chegam a nós como tempestades, com pequenas ondas reverberando à distância, de modo que quem está prestando atenção pode antecipar o que ainda não chegou. E eu senti meu coração reverberando por um tempo. Hoje eu me olho no espelho e eu vejo meus furinhos na orelha e eu sei que todas as coisas estão relacionadas.

Tem gente que não me vê há anos. Gente que me conheceu quando eu só tinha um furinho em cada orelha e ainda era alérgica demais para preenchê-los. Gente que talvez achou que já tinha visto tudo que tinha pra ver em mim, conhecido tudo que havia pra conhecer, sabido tudo que havia pra saber, rido tudo que tinha pra rir, confiado tudo que tinha pra confiar. Talvez era tudo isso mesmo o limite.

Era.

Mas isso foi antes. Antes de 2018.

Em alguns anos eu sei que eu vou olhar esse texto que agora escrevo deitada numa cama de Hostel em Nova Iorque, um texto que comecei a escrever várias vezes e não consegui terminar ainda, e eu vou pensar que no momento em que ele estava sendo escrito eu talvez não soubesse o que estava fazendo tão bem quanto saberei lá, naquele momento.

E, sabe, não ser ainda tão completa assim não me impede de ser o melhor que eu preciso agora. Porque eu sei que eu vou estar pra sempre inacabada, e absolutamente preenchida mesmo assim. Mesmo agora. Como era quando tinha só um furo na orelha. Como eu era quando as pessoas acharam que já tinham visto tudo que tinha pra ver de mim.

Mas eu nem cheguei lá ainda. Eu não tô nem perto. Eu sou só um garota de orelha furada, que pegou um trem pra um lugar, sem cama pra dormir quando chegasse lá.

Eu me mudei de país. Furei minha orelha. Fui conhecer gente que eu nem sonhei que existia. Eu chorei no meio da rua, de gratidão. Eu saí pra dar uma volta e eu ouvi gente falando três linguas diferentes, ai eu desci em seis paradas na linha 7 de metrô e eu estava na Broadway. Meus cinco furinhos na orelha e eu estávamos na Broadway.

Mas eu não cheguei lá ainda.

Eu não tô nem perto. Mas eu cheguei aqui.

E aqui… É onde tudo começa. É em mim, onde tudo começa. Porque cada coisa tem que ter seu espaço e eu sei que eu não estive presente nesse meu espaço por um tempo. Mas eu cheguei aqui agora. 2018, eu não posso acreditar que foi só a metade.

A vida é sobre dar tempo para que as coisas se encaixem nos seus lugares. Tirar o que transborda em excessos desnecessários, abandonar as correntes que algemamos em nós mesmos, vestir roupas confortáveis para ir ver o pôr do sol e comprar bilhetes pra outras cidades sem ter lugar pra passar a noite. No fim das contas pode ser qualquer ano. O que importa é como a gente se apresenta no espaço, porque nem sempre dá pra mudar de país – às vezes não dá pra mudar nem de bairro! – mas sempre dá pra mudar a gente, e a forma como vemos tudo.

Talvez você devesse começar furando a orelha, vai doer um pouco mas depois vai passar. E quando tiver passado e você olhar no espelho, só vai ver você e o que a dor te deixou (brincos lindos e reluzentes!). Porque tudo passa, mas a gente fica aqui nesse nosso espaço. Vai doer um pouco, mas depois vai passar.

(E olha que eu ainda nem cheguei lá!)

 

 

@ohhcouture

Eu cresci amando contos de fadas.

Quando eu era mais nova a minha mãe lia histórias fantásticas para mim. Desde antes de eu nascer eu ouvi falar sobre leões reis, guarda-roupas mágicos, princesas corajosas, sapatinhos vermelhos de cristal e gatos sorridentes guiando o caminho. Todas essas histórias tem uma coisa em comum. Uma só não, aliás, várias.

A primeira delas é que nenhum personagem começa a história da forma como terminou. Enquanto escritora eu sei que a jornada foi feita para transformar o personagem, e que se ela não o faz amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem ele era quando começou o livro, é como se ela nem tivesse existido. Quem gostaria de escrever ou viver uma história que era melhor nem ter existido? Nenhum personagem merece isso – ninguém merece isso.

A jornada do herói, como chamam, é o que faz a história valer a pena. Todos os personagens a iniciam de uma forma e a terminam de outra. A vida é sobre isso, e é por isso que nos dizem para nunca ter medo de transformações. Mudar de opinião, gostar de uma coisa que você experimentou há muito tempo e não gostava, cortar o cabelo mais curto do que jamais pensou ter coragem, assumir seu gosto musical ou estilo em se vestir, trocar de curso na faculdade, se distanciar de pessoas que você confiava e não confia mais. Amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem você era quando começou. Você vai passar – muito – por isso. Significa encontrar a sua verdadeira voz.

E observei também um denominador comum entre essas jornadas e esses heróis. É que são jornadas difíceis. Não pode haver nada de simples em abandonar toda a vida que se conhece para se arriscar no além-mar. Digo, no desconhecido. Os personagens que não embarcaram em jornadas foram convocados para elas por acidente, ou por acaso – mas a jornada os mudou mesmo assim, trazendo a eles um novo conhecimento e perspectiva sobre si mesmos que não tinha antes. Dorothy Gale é uma personagem por quem tenho grande apreço. E ela nunca embarcou numa jornada, ela foi sugada para dentro de uma.

O terceiro ponto que costura todas as histórias vai além da transformação que a jornada proporciona e como essas jornadas se apresentam. É quem trilha a jornada conosco. Totó, eu não acho que estejamos mais no Kansas. Eu nunca disse, mas poderia ter dito muitas vezes. Porque foi muito mais de uma vez em que me vi girando no olho do furacão, sem chão sob meus pés e sem apoio para as mãos, sendo lançada para muito distante da minha zona de conforto e nada além de um amigo muito leal ao lado.

Tem pessoas que escolhemos para estar ao nosso lado, tem pessoas que são chamadas para as mesmas aventuras que nós, outras que são jogadas pelo furacão no meio delas, tem gente que nos escolhe para andar com elas pelos tijolos amarelos. E é a lealdade de quem caminha conosco que determina os pedaços do caminho em que vamos cantando de braços dados e os quais vamos fugindo de raios, trovões e macacos voadores se aproximando do oeste.

E veja bem, o nosso trajeto permanece o mesmo. A distância que percorremos permanece a mesma. Amadurecer, crescer, mudar ou ser – de alguma forma – diferente de quem éramos começamos, ainda é uma coisa que nós vamos passar. Mas o terceiro ponto – é quem trilha a jornada conosco – é que determina a forma como todo o resto acontece.

Eu percorri uma jornada certa vez com uns leões medrosos. São pessoas que se apresentam para nós como pessoas aparentemente forte e de bom coração, mas que não tem bravura o suficiente para enfrentar seus próprios medos, e por isso tem medo de todo o resto. Sair em busca de coragem é entender que quando não há medos do lado de dentro os medos do lado de fora não tem força para atrapalhar.

Encontrei também certos espantalhos, expostos às durezas da vida sem nenhum tipo de cuidado e por mais tempo do que alguém pode suportar – é fácil esquecer o que realmente importa. Ter pessoas em nossas vidas com a cabeça no lugar e um cérebro em pleno funcionamento é o que nos permite continuar a jornada mesmo quando queremos seguir um caminho mais fácil. Os amigos com cérebro sabem que não dá pra fugir de onde precisamos ir, trilhar, chegar. Eles são sinceros e nos colocam de volta na estrada de tijolos amarelos.

O furacão tira a gente de casa, nos joga em outra terra, com perigos diferentes e estranhos além de tudo que pensamos existir, e ele tem a gentileza de nos dar coragem e sensatez, mas às vezes ele jogar pessoas com bom coração no meio das nossas aventuras, (por vezes pessoas que por terem sido afastados demais não se lembram de como fazer de outra forma, mas o coração segue lá dentro). Percorrer o caminho com pessoas que tem coração é um fator que determina quão longe você pode chegar. As pessoas de coração são as que tem gentileza o suficiente para nos avisar quando pisamos fora do caminho e quando estamos deixando que as transformações necessárias que a jornada exige está nos levando pra longe demais de quem éramos.

Tem pessoas que procuram saber das nossas fraquezas para nos tirar do nosso caminho. A lealdade das pessoas que muda quem nós somos e faz a jornada valer a pena para além de nós é quando elas nos enxergam da forma mais fraca que podemos chegar, sabendo quão limitados somos e nos fortalece para que sejamos capazes de mudar sem esquecer de quem somos. Chegar ao fim da jornada é chegar diferente, sim. Mas ainda é necessário que sejamos nós mesmos. A jornada é do herói, mas ele nunca chega ao fim dela sozinho. Nunca. Carrega partes do eu que saiu na jornada, carrega partes de quem caminhou com ele, de quem o carregou até ali, de quem ele é agora.

Ele nunca chega conforme saiu. Nunca.

Ele ganha coisas que nunca sonhou existirem. Deixa para trás toda a vida que conheceu sem saber se ainda vai caber nela quando voltar – se ela vai caber nele. A transformação começa no embarcar. No abrir mão, no ser capaz de aceitar a estrada de tijolos amarelos como um meio para um fim.

Eu cresci amando contos de fadas. Mas eu só de fato os entendi quando vivi um. A jornada não é sobre encontrar o amor. Nem sempre se escolhe a jornada, às vezes o furacão nos joga pra dentro dela. Mas nunca nos joga sozinhos. A jornada é sobre encontrar a si mesmo – e o mundo todo que cabe aqui dentro, muito além do meu celeiro. E todo mundo que caminha na estrada dourada (já me disseram que é que nem a vida).

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I wish to go home.
E a aventura acaba tão rápido quanto começou,
a estrada de tijolos desapareceu, nenhuma cidade esmeralda no horizonte,
e o celeiro no quintal.

com amor,
cs
(que vai de glinda às vezes)

source: pinterest

Eu queria dizer que esse texto começou com um Alô? Porque eu quase liguei pra ele antes de escrever esse texto.

Foi por pouco, e precisei fazer um daqueles acordos comigo mesma, sabe? De que eu ia esperar 22h despontar na tela do celular antes de ligar. Que eu ia contar as estrelas sozinha e que se o comichão de dançar pela noite estrelada me subisse pelas pernas eu ia imaginar que eu estava no meu lugar seguro, a clareira onde eu imagino as noites mais bonitas.

Eu não liguei pra ele antes de escrever esse texto porque eu não teria sabido o que dizer quando ele atendesse. Eu não teria conseguido levar a pergunta adiante, eu teria tido medo da resposta e, se eu for sincera – sempre sou – eu não acho que ele teria sabido o que responder. É um desses caras cheios de imaginação também, vai ver se senta pra contemplar estrelas e não nota as constelações porque antes de enxerga-las se perde em nuvens fofas e brancas que percorrem o céu escuro e se desfazem como algodão doce num saco plástico que a gente teima em soprar.

Mas às vezes pra imaginar amor é preciso, primeiro, saber que ele pode enraizar ali. E isso é tanto pra tanta gente.

O amor assusta as pessoas. Porque nem todo mundo sabe que dá pra percorrer um céu estrelado na ponta dos pés e escorando a cabeça em braços quentes. As pessoas esquecem de certas coisas. Algumas porque o tempo apaga as informações, outras porque precisam do espaço dessas memórias pra lembrarem de outras coisas. Mas tem gente que espera estar pronto pro amor, e isso… bem, o amor não aparece apenas quando se está pronto pra ele – o que quer que isso quer dizer. Às vezes é sobre ele estar pronto pra gente.

Depois de arruinar algumas músicas em potencial com pessoas de quem não queremos lembrar, é difícil – de fato! – esperar pelo amor. Não é como se fôssemos abrir a porta da sala, sentar ali no sofá com uma xícara de chá e esperar por ele chegar como quem espera a visita. Chega mais, fique à vontade. Sinta-se em casa.

Eu não liguei pra ele antes de escrever esse texto. Poderia, você sabe. Mas não liguei não.

Daí o sol vai se pondo, e acompanho da janela da sala. Um cheiro de bolo recém assado começa a apontar pelo ambiente, o chá começa a esfriar. Eu olho pra um lado na rua, olho pro outro. Passa um cachorro na calçada, daqueles pequenos, marrom bem clarinho, o rabinho pra lá e pra cá. Viro a caneca de novo e é mais um gole. Mas até aqui, nada.

Não, não é assim que se espera o amor.

Mas às vezes é assim que ele aparece. E então há uma outra porção de cenários em que ele se apresenta, sendo a maioria deles muito inesperados. Resposta pra perguntas que não sabíamos que tínhamos. Ocupando espaços que não percebemos que existiam. Rindo em silêncios que outrora eram habitados apenas por nós mesmos. Dançando debaixo de estrelas que a gente não vê a olho nu.

Quando a gente menos espera. Quem a gente menos espera. Por motivos que a gente menos espera. Onde a gente menos espera. Vestindo o que a gente menos espera. Cantando o que a gente menos espera. Tocando o que a gente menos espera. E às vezes não precisa de um toque sequer, pra de fato sermos tocados. Mas o telefone dele não tocou antes de eu escrever esse texto, porque eu não liguei.

Como poderia, se ele não estava esperando o amor?

Não soube o que era. Por vezes, quando um amor vai embora, o que sobra da bagunça e do caminhão de mudança é só o silêncio. Ouvi-lo é o que nos faz escutar todo o resto. Ouça.

 

 

 

Percebe?

O barulho que você não escuta, é o telefone não tocando.

Eu sei que era amor sim. O silêncio soube que era amor sim. O chá que tomei enquanto escrevia esse texto soube que era amor sim. Minhas amigas de Teresina que leem esse texto do outro lado do país souberam que era amor sim. O cachorro marrom que passou na calçada abanando o rabinho no fim da tarde soube que era amor sim.

Mas ele não soube. Porque não aprendeu a ler entrelinhas, não aprendeu a ouvir o silêncio.

 

 

 

Percebe?

Mas já pensou se eu tivesse ligado? O que será que ele teria dito depois do alô? Será que ia ter gente em casa? Será que em algum momento teria dito, ei, bem vinda? chega mais, fique a vontade. você não é nada do que eu esperava, quando eu esperava, vestindo o que eu esperava, cantando o que eu esperava, sorrindo pro que eu esperava, mas sinta-se em casa.

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love,
cs

 

 

 

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