Textos
08/08/2015

Querido Daryl,

Eu achava  engraçado o que o medo faz conosco.

O medo é como uma capsúla protetora. Quando somos criança e nossa mãe diz que não devemos colocar a mão no fogão pois podemos nos queimar, nós entendemos que queimar é algo ruim que nos causa dor, e temendo que isso aconteça nós evitamos o fogo, e sabemos que assim estaremos seguros. O medo nos salva da dor da queimadura,  o medo nos protege da ferida, e não nos permite ter cicatrizes.

Pelo menos, é o que dizem. Engraçado eu estar escrevendo sobre isso, porque eu sempre tive tantos medos, e hoje eu não tenho mais, porém quando tinha, nunca escrevi sobre isso, e agora não tenho mais, porém escrevo para que você saiba.  Talvez porque quando eu tinha medo eu achava que todo mundo a qualquer momento fosse me quebrar, e eu tentava de todas as formas me proteger disso. Me proteger dessa queimadura, dessa ferida, dessa cicatriz.

E agora escrevo porque quero que saiba que não está sozinho. Muitas pessoas se sentiram assim, eu me senti assim, e eu não tenho mais medo. Não é que eu não sinta a dor, é que eu não tenho mais medo de me ferir. Escrevo também porque eu descobri que não vale a pena. Digo, viver dentro da capsúla protetora. Não vale a pena. Muitas pessoas te falaram isso, mas existe um mundo lá fora que merece ser vivido ao máximo. Em todas as suas cores, na máxima saturação que houver. Nós éramos preto no branco, e eu seria tudo outra vez, mas quando se diz respeito às cores da vida não pode existir preto e branco.

Eu gostaria que você não tivesse que passar por tudo que eu passei para entender isso. Eu gostaria que você não tivesse que cometer os meus erros, fugir como eu fugi, se fechar dentro de si mesmo como eu fiz, e magoar as pessoas ao meu redor, que queriam me dar apoio enquanto eu sentia que o chão sob os meus pés havia desaparecido. Eu gostaria que você percebesse antes, mas você é teimoso demais, e essa carta é pra dizer que eu respeito isso. Eu não quero que você sofra, mas tudo que eu fiz até hoje para te proteger da queimadura, fez com que você se queimasse mais, por isso essa carta é para dizer que eu não vou tentar mais.

Foi o meu medo que te feriu. O meu medo abriu o buraco sob os seus pés, de modo que você não pode mais confiar que eu vá te segurar, e essa carta é para dizer que eu espero que um dia você se erga sobre seus próprios pés. Eu gostaria de ter sido mais forte e menos medrosa para não ter feito nada disso, mas como sabemos, eu não fui e agora ambos pagamos por isso.

Mas essa não é mais uma carta de amor, são sentimentos loucos traduzidos em palavras para que você possa entender o que eu entendi. É também um pedido, para que você se cure, seu moço! Hoje eu posso dizer o que nunca pensei que fosse dizer, que eu espero que você seja feliz com quem estiver. Eu nunca pensei que eu fosse dizer isso porque eu sempre achei que eu era essa pessoa que te fazia feliz, mas o seu medo me afastou tanto, que eu não posso mais aceitar esse amor desfigurado que você diz sentir. Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos, e eu sei que não é isso que eu mereço, por isso essa carta é para dizer que eu não tenho esperanças de ser o chão sob os seus pés.

Você tentou de todas as formas me dizer que não queria que eu fosse, e quanto mais eu tentava, mais você se fechava dentro da sua capsúla protetora do medo me afastando para dentro de um abismo de dor. E essa carta é para dizer que eu não quero mais estar nesse abismo, e eu tentei de todas as formas sair dele ao seu lado, por acreditar que eu poderia te tirar do seu medo enquanto você me tirava da minha dor, mas você foi tão convincente em suas fugas que eu já não posso te alcançar mais.

Eu sinto a dor. Não quero que você ache que eu não a sinto. Não é que eu não sinta a dor, é que eu não tenho mais medo de me ferir. Eu achei que eu fosse ficar bem se eu não sentisse a dor. E achei que eu fosse te salvar de sentir a sua, e tudo que eu fiz para evitar a sua ferida fez com que você se afundasse ainda mais dentro dela, porque, como eu um dia, você hoje acha que pode evitar a dor.

Vai chegar um dia que você vai entender que não pode. E a única solução se não podemos evitar a dor, é senti-la. Mas por mais que eu queira ser a pessoa a te mostrar isso e senti-la com você, não posso. Não é esse o amor que eu mereço. Então, acho, essa é uma carta de despedida. Aqui me despeço dos medos que eu tive, e dos medos dos quais tentei, inutilmente, te proteger. Me despeço de você, desejando que você um dia encontre o amor que acha que merece, desejando que um dia você não sinta medo da dor, apesar de senti-la. Desejando que você abrace todos os riscos da vida, com todas as cores, e toda saturação e que você seja capaz de colocar a mão no fogo novamente.

Quando a gente acredita em alguém, quando a gente sabe quem alguém é e quem essa pessoa pode ser conosco, a gente coloca a mão no fogo por ela. E eu sinto muito que você não tenha colocado por mim, eu teria colocado por você. Eu teria colocado meu corpo inteiro, mas se você prefere não confiar nas minhas palavras e quer cometer os meus erros, fugir como eu fugi, se fechar dentro de si mesmo como eu fiz, e magoar as pessoas ao seu redor, que querem te dar apoio enquanto você sente o chão sob os seus pés desaparecer, não há nada que eu possa fazer por você.

Eu não me conheço, nenhum pouco. Pensei que a essa altura já seria feliz, mas quanto mais eu me forço mais eu percebo que preciso abrir mão do controle. Vou deixar acontecer, apenas, deixar acontecer. É apenas uma faísca, mas é o bastante para me levar adiante, e quando escurece e não há ninguém por perto, ela continua a brilhar. Todos os dias eu tento ao máximo acreditar que amanhã as coisas vão melhorar mas acordo pra uma fria realidade na qual nada mudou. Mas vai, vou deixar acontecer.

É apenas uma faísca mas é o bastante para me levar adiante, e quando escurece e não há ninguém por perto, ela continua a brilhar. E o sal nas minhas feridas hoje não queima mais do que queimava antes, não é que eu não sinta a dor é que não tenho mais medo de me ferir. E o sangue nessas veias não está pulsando nenhum pouco a menos do que antes, mas essa é a esperança que eu tenho, e a única coisa que me mantém viva.

Eu vou deixar acontecer, porque é apenas uma faísca mas é o bastante para me levar adiante.

Eu espero que você entenda que você não pode evitar a dor, e que o medo não vai te proteger da queimadura. Espero que você não tema o fogo, e que coloque a mão nele por alguém cheio de erros, defeitos e bagagem, porque essa pessoa é especial. Espero também, e principalmente, que a sua ferida se feche e que você descubra, como eu descobri, que a vida ainda pode ser linda, mesmo com cicatrizes.

Não é engraçado o que o medo faz conosco.

É triste.

Com todo amor do mundo,

Shar

_________________________________

 

Beijos,
Carol Santana
Textos
31/07/2015

tlpn

Eu queria ouvir a sua voz. Eu liguei porque eu estava vendo umas fotos nossas, e aquele teu sorriso ficou impresso na minha mente de uma forma tão precisa, que a necessidade de ouvir a sua voz me inundou. Fiquei com medo de ter esquecido, então eu liguei pra confirmar. Mas você estava fora se divertindo com seus amigos e aquela menina que você ficou bem depois de a gente terminar. Parece que foi ontem e a gente tava rindo para aquelas fotos, dai hoje já fazem semanas que eu não tenho notícias suas.

Desculpa, eu não devia ter ligado. Eu me forcei a não ligar. Eu queria não ter ligado, queria ter sido forte o bastante pra até esquecer que você existe. Queria nunca ter ouvido o barulho alto do bar que você estava bem quando você disse Alô!. Mas a verdade é que eu sempre quero muitas coisas.

Queria que você ficasse ao meu lado para o que der e vier, acho que isso é uma das coisas que eu mais quis. Passei tanto tempo achando que era isso que ia acontecer que nem parei para pensar em como ia ser a vida quando você não fosse mais estar ali comigo porque, quem ia imaginar que esse dia fosse chegar? Chegou.

Queria que a gente fosse um daqueles casais de velhinhos que estão juntos há cinquenta anos. Enquanto eu olhava as nossas fotos eu achei várias muito engraçadas que iam ficar bem legais naqueles clipes zoados de casamento. Fotos da praia, dos vários natais que passamos juntos, você com um super bolo de aniversário, depois você de careta, uniforme, depois a sua primeira selfie, depois você de terno. Foram tantas fotos, de tantos momentos de tantas lembranças que compartilhamos. Mas enquanto eu pensava sobre tudo isso e na falta que você me faz, você estava em um bar.

É por isso que eu queria não ter te ligado. Porque eu preciso parar com essa mania de achar que você sente a minha falta, preciso parar com essa mania, que é quase uma morte lenta e dolorosa, de pensar que você mudou de ideia, e que agora tá tudo bem. Nada está bem. Mas teria ficado se eu não tivesse ligado. Se por um dia a mais eu tivesse simplesmente continuado a minha vida e afastado todos os pensamentos dolorosos da minha cabeça, gritando o tempo todo que independente do quão doloroso é ficar sem você, foi isso que você escolheu enquanto ainda poderíamos estar juntos e por isso só posso concluir que estar comigo não era lá o que eu achei que fosse pra você, se por um dia a mais eu tivesse esquecido essas vozes e não ligado, talvez eu não soubesse que você estava em um bar, e ai por mais um dia, eu estaria bem.

Mas não foi isso que aconteceu, né?

Achei no mínimo interessante como essa coisa de ficar solteiro funcionou pra você, porque todo mundo muda, é verdade, mas você mudou de uma forma que eu já não vejo mais quem você era. Engraçado que você sempre identificou a gente como Ross e Rachel, e hoje mais que nunca eu acho apropriado. Existe um episódio no qual a Rachel diz ao Ross que ele era a pessoa que ela mais confiava no mundo, porque era uma pessoa que ela sempre acreditou que nunca a machucaria, e agora ele parecia uma pessoa completamente diferente, por isso ela não podia mais confiar nele. Mas quando a gente está em um relacionamento a gente nunca acha que aquela pessoa vai ser capaz de nos ferir, a magia do Amor é acreditar que ele vai ser forte e bondoso, fiel e eterno, amigo e presente, parceiro e leal. A magia é acreditar que vai durar.

E teria dado certo, teria ficado bem se pelo menos eu não tivesse te ligado pra descobrir que você estava em outro lugar, com outras pessoas, não pensando em nada disso e vivendo a sua vida, tão mais diferente agora que eu não estou nela.

Foi por isso que eu desliguei.

Beijos,
Carol Santana
Textos
08/07/2015

 

pf

É engraçado como a gente sobrevive depois que um relacionamento morre. Quando estamos envolvidos em uma relação damos tudo de nós e aquele relacionamento passa a ser uma parte grande da nossa vida e de quem somos, então quando o relacionamento deixa de existir ficamos um pouco perdidos ali no limbo esperando alguma coisa acontecer, esperando para sermos felizes novamente, e o limbo vira um lugar confortável onde você não sabe quem é – porque achava que o relacionamento era quase tudo, e essa pequena porção da sua vida que não era o relacionamento parece pequena demais para preencher todo o espaço deixado pela ausência de uma relação – e não sabe o que quer fazer de agora em diante porque todos os planos que você tinha para a vida incluíam outra pessoa, e agora você precisa reescrever esses planos para que sejam planos individuais.

Mas tudo bem ser assim, e é por isso que esse período que a gente vive no limbo é confortável, porque é um tempo que você é obrigado a entrar em contato consigo mesmo e analisar o que quer. O fato de não ter ninguém por perto pra te dizer o que fazer só faz com que você seja forçado a tomar decisões por si mesmo, e por muitas vezes, isso nos faz crescer como pessoas. Então a gente sobrevive. Nunca pensando que isso podia acontecer, antes a gente achava que se o outro se afastasse a gente ia morrer. Não morre.

Hoje eu estava aqui pensando sobre você e me deu um apertinho no coração. Um apertinho no coração daquele tipo que fazia tempo que não dava, acho que é porque fazia algum tempo que eu não pensava em você. Mas hoje eu pensei e enquanto pensava me lembrei de várias coisas. Lembrei por exemplo, das viagens que a gente nunca fez. É uma coisa que sempre dissemos que íamos fazer e nunca fizemos. Achamos que tínhamos muito tempo.

Nós também tínhamos o costume de cozinhar juntos, agora eu prefiro comida de restaurante. Parece inútil cozinhar pratos individuais, e não tem diversão nenhuma ficar na cozinha sem alguém pra ficar rindo e conversando junto. A gente comprou uma edição especial do jogo que permitia que nos dois jogássemos juntos, mas isso também nunca mais aconteceu, pode ver, R$ 40,00 que nunca teremos de volta. Essas são coisas bobas e pequenas, mas eu fico pensando sobre o que poderia ter feito você abrir mão dessas coisas.

Sabe, todo mundo tem problemas. Você disse que estava passando por crises e conflitos que só poderia resolver descobrindo quem realmente era, e eu entendo isso. É muito fácil se perder. É muito fácil ter certeza de uma coisa, e depois ver que não era aquilo. É muito fácil não saber o que fazer depois. Mas eu não acho que seja fácil saber. Eu não acho que a gente pode se isolar do mundo inteiro e esperar que a solidão nos dê as respostas para os próximos vinte anos. O que eu acho, aliás, o que eu sei, é que as coisas importantes da vida a gente mantem apesar dos problemas. O que eu sei é que não é certo dizer Adeus a alguém porque ela é a melhor coisa da sua vida, e sentir tudo isso por alguém te impede de sentir outras coisas. Você pode até tentar não sentir nada por mim, mas ainda vai sentir outras coisas, ainda vai sentir todo o resto! Então se quis ficar sozinho na esperança de que a dor por estar perdido fosse diminuir, ou que você simplesmente não fosse senti-la, eu sinto muito, não vai funcionar.

Eu poderia ter sido sua bússola. Eu teria te ajudo encontrar o caminho certo. Eu teria feito isso, e teria ficado muito feliz em ser pra você quem você foi pra mim. Mas você queria encontrar o caminho sozinho. E quando eu lembro dessas coisas que você disse, sobre não saber, sobre ter dúvidas, sobre não ser, sobre estar perdido, tudo isso me faz imaginar o Pequeno Príncipe no deserto. Eu teria sido a rosa que te dá esperanças. Aquela rosa que fez com que o Pequeno Príncipe percebesse que sentia saudades de casa, sabe? Eu teria te dado esperanças, eu teria sido a sua rosa. Se você estivesse perdido e não soubesse o caminho de volta, eu teria sido a estrela que te indica a direção e se você tivesse feito um pedido, eu teria realizado.

Você nunca entendeu que eu teria sido tudo, porque você preferiu que eu não fosse nada. E é por isso que quando um relacionamento termina a gente acha que vai morrer, porque estar em um relacionamento é acreditar que teremos alguém do nosso lado em quem podemos nos apoiar quando precisarmos de conforto e ajuda, e é também ter a consciência de que existe alguém que vai se apoiar em você. Eu achei que você fosse se apoiar pra mim. Que eu seria seu Norte, sua Esperança e sua Direção. Mas você preferiu sua própria bússola quebrada que apontava lugar nenhum, um vaso sem flores e nunca olhou pra cima.

Mas a gente não morre. A gente vive.

Pode até ser uma surpresa quando nos encontramos de pé depois de uma tempestade, com uma bússola capaz de nos mostrar o caminho certo, uma rosa para não nos deixar esquecer o que é importante, e olhando estrelas no céu. Mas isso acontece, e não olhamos mais pra trás com arrependimentos ou dor. Às vezes a gente nem se dá ao trabalho de olhar, porque não tem motivos pra ver esperanças em quem não viu nada em nós.

 

Beijos,
Carol Santana
Páginas«1 ...161718192021222324... 25»