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Ah se soubéssemos a fórmula mágica do amor! Que mundo bonito seria esse em que amamos uma pessoa e ela nos ama de volta: andamos de mãos dadas pela praia, rimos descontroladamente até parar de sair som ou até sair água pelo nariz, nos aconchegamos na batida do coração do outro, e o peito se encaixa como se não houvessem duas peças de lego tão perfeitas.

Mas não sabemos.

Quando se convive com crianças tanto quanto eu convivo fica fácil identificar e passar por cima das mancadas da vida. Quando começamos a andar só caímos até que chegou o dia em que nosso peso já não era tão pesado assim e o equilíbrio deu um jeito de nos manter de pé apesar de sentirmo-nos mais confortáveis no chão. As crianças também sofrem pra aprender a ler e escrever. Eu diria que é a parte mais difícil, terminei minha licenciatura sem saber direito como num belo dia um monte de letras vão se amontoar para fazer sentido de palavras. Mas seguimos crescendo, andando apesar das quedas e lendo apesar das palavras diferentes que não conhecemos e precisamos encontrar o significado. As crianças me ensinaram que tudo bem errar.

O amor é como a alfabetização. Não dá para explicar como funciona, como um belo dia você percebe que aqueles pedaços quebrados de sonhos, erros, histórias, qualidades, passado, defeito, bagagem, dor, acertos e esperança se amontoam numa pessoa e ela faz sentido enquanto aquela que você quer ao seu lado até o fim da eternidade.

E escrevemos muito errado, sabe? Leva um tempo até começarmos a entender a nossa própria caligrafia. Não é da noite pro dia que entendemos as nossas próprias palavras, não é da noite pro dia que a nossa história começa a fazer sentido. Tem vezes que queremos apagar tudo e começar de novo, tem dias que a página já está tão borrada que não aguenta a força de mais uma borracha e se rasga. Existem histórias cujos personagens só sofrem, e existem escritores que se cansam da história que escreveram e decidem jogar esse livro fora porque ele parou de fazer sentido.

Eu não sei qual é o momento em que o cérebro faz sentido das letras, tampouco sei qual é o momento em que a história para de ser feliz. O que eu sei é que como não nascemos sabendo andar – é preciso cair – e nem sabendo ler – é preciso errar – também não vamos acertar de primeira no amor, e tudo bem, sabe? É difícil pra uma mente que nunca viu isso antes na vida saber que a voltinha do “q” é para um lado e a do “g” é para o outro. É difícil, leva um tempo até cair a ficha. É difícil, vamos escrever muitos geitos e muitos queigos.

O equilíbrio aparece um dia, quando menos esperamos e nos mostra que dá pra andar sem cair – embora isso não signifique que não haverão buracos na estrada pra nos fazer tropeçar -. É ali, no meio da praça, durante a aula de matemática, o meio do almoço, na hora do desenho que a criança percebe o que é “j” e o que é “g” e a partir daí dificilmente vai errar.

O problema é que ninguém nasce sabendo disso, e a alfabetização é sofrida, lenta e nem sempre resulta em um bom escritor. Mas é importante saber disso: só porque uma história foi mal escrita não quer dizer que ela é ruim. A alfabetização não acontece na mesma velocidade para todas as crianças, não quer dizer que os retardatários não vão aprender nunca, eles só precisam de mais tempo.

Claro, vamos precisar enfrentar palavras desconhecidas, soletrar palavras que nunca lemos antes e isso nos causa uma dúvida, às vezes até erramos porque a intuição foi pro lado errado, ler mil histórias antes de aprendermos como dar voz aos nossos próprios protagonista e alguns escritores vão decidir que um conto de fadas deixou de ser mágico e por isso vão guardá-los para sempre na gaveta dos fracassos. Mas aprendemos.

Achamos que a página vai rasgar da próxima vez que precisar ser apagada, achamos que não é forte o bastante pra aguentar a reescritura da história que aprendemos a escrever, achamos que não aprendemos nada e por isso logo mais adiante a borracha vai precisar entrar em ação novamente, achamos que quando ficar pronta ninguém vai achar essa história boa o suficiente e por isso ela nem merece ser escrita. Achamos que é preciso computador, depois mudamos pra manuscrito, tem gente que só consegue na máquina de escrever. Mas aprender a fazer sentido das pequenas frações pra enxergar a obra completa leva tempo, ler leva muito tempo, escrever demora ainda mais.

Não podemos achar que todas as etapas da história serão tão bonitas quanto como os personagens se conheceram, também não dá pra pular todo o meio até chegar no clímax. Todo livro que se preze precisa passar por um conflito antes de chegar à resolução, mas é por causa deste conflito e do que ele desperta em nós que acontece aquele clique em algum lugar da mente e descobrimos que algumas letras viram pra direita, outras viram pra esquerda e todas elas formam palavras. Só precisamos aprender quais palavras formam as melhores histórias, mas o escritor sabe, que como no amor, todas as histórias valem a pena – elas só precisam de alguém que saiba como escrevê-las.

 

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Lá em janeiro falei aqui no blog que eu queria muito fazer looks do dia com maior frequência, né? Juro que estou tentando cumprir com a promessa! Não só porque prometi, mas porque é uma das coisas mais divertidas que esse blog me deu a oportunidade de fazer. Reparem que eu não tenho muito jeito e todos os ensaios tem as mesmas poses, mas ainda assim acabo descobrindo coisas novas sobre mim quando preciso estar do lado da lente ao invés de do lado do visor.

Houveram algumas fotos que já fiz que não gostei, e até algumas que nunca chegaram aqui no blog, mas esse ensaio definitivamente não é um deles, achei ele tão eu que é até difícil explicar. Ano passado foi um ano muito conturbado, e o primeiro trimestre de 2016 foi o tempo que eu precisei pra entender e resolver cada um dos meus problemas, então minha fase atual é de paz interior, sossego e calma. Espero que as fotos falem por si só.

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Vestido/Camisão: Marisa / Camisa da cintura: Penney’s / Colar e Brinco: Moranna / Botinha: Dafiti / Fotos: Carol Ozzy

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Querida Shar,

Não sei como começar a escrever pois não sinto que há algo que deva ser dito, tenho medo de que você possa interpretar essa carta como um declaração de amor, não é. Não sinto amor, Shar. Senti raiva por algum tempo, e depois um certo nojo e uma vontade meio doida de fugir pra praia e não te ver nunca mais, mas amor não sinto. Não sinto nada.

Você dizia que a indiferença é o pior sentimento que podemos ter por alguém, eu achava que era a desconfiança mas hoje acho que você tá certa. Tem algumas coisas que eu acho que você tá certa, me levou muito tempo para entender mas (olha outra coisa que você tava certa) as pessoas realmente mudam.

Me sinto indiferente não apenas para com você, mas há uma falta de tesão em fazer as coisas, como se aquela energia boa de poder te contar depois, compartilhar, fosse mais excitante até do que a coisa em si. Mas você sabe, eu tenho querido viver coisas diferentes há algum tempo. Daquela vez que eu fui saltar de paraquedas e não te chamei, lembra? Você tinha razão em ficar triste, sinto muito não ter te incluído nesse momento da minha vida.

Sabe, Shar, você ficou muito perdida uma época e eu sequer notei, então sei que você precisou de muita coragem e força – que você achava que não tinha – para descobrir como consertar as coisas e encontrar o caminho de volta pra si mesma, e tem uma coisa que eu nunca te disse, mas, acho admirável que você tenha conseguido. A escalada para a superfície é longa e cansativa, mas eu vejo hoje como é fácil se jogar no fundo do poço e não querer sair de lá – é quentinho, confortável – nunca mais. Queria que você soubesse que eu te admiro muito por ter conseguido fazer isso sozinha, também me sinto um pouco mal por não sido capaz de te ajudar – eu nem sequer sabia que você tinha caído lá embaixo.

Me doeu muito quando você me abandonou quando eu mais precisava, essa dor se transformou em uma desconfiança que crescia a cada dia: a qualquer momento agora, nesse minuto ou no próximo ela vai embora. Mas também tem uma coisa que você não sabe, Shar, eu decepcionei você também. 

Quando você fechou a porta e partiu você logo viu que cometera um erro e tentou de todas as formas consertar, mas quando eu fiz exatamente a mesma coisa eu só conseguia pensar em como você não era mais a garota por que eu me apaixonara e eu me esqueci de olhar para quem você havia se tornado e não olhei em como você amadureceu com seus erros, o quanto eles a mudaram e tornaram seu couro mais grosso, sua mente mais preparada, seu coração mais macio e quente. Eu não devia ter seguido seus passos e fechado a porta no momento em que você mais precisava dela aberta. Eu não fui nenhum pouco melhor do que você, mas como você teve seu tempo para pensar eu tive o meu, e apesar de hoje estar tão desprovido de amor e armado com essa indiferença eu espero que você saiba que eu podia ter tentado te olhar mais uma vez com meus olhos de carinho.

Você pediu uma única coisa que o meu coração orgulhoso não podia te dar: não era um livro, não era um boneco de pelúcia, não era chocolate, não eram flores, não era uma jóia. Você queria esquecer o que passou, e eu hoje sei que embora o nosso passado é aquele que nos transforma em quem nós somos, nós também temos o poder de escolher o nosso futuro. E eu podia ter escolhido o perdão, o olhar carinhoso. 

Você sabe o que dizem sobre o tolo, né, Shar? O inteligente, como você, aprende com seus erros, o sábio aprende com os erros dos outros mas o tolo não aprende nunca. Eu não quero ser aquele que nunca enxerga, que nunca aprende. Eu podia ter aprendido com você, mas tem uma certa magia em quebrar a cara – deixa a gente mais humilde e preparado, acho que meu coração precisou passar por isso pra ser menos orgulhoso.

Tem uma coisa que eu aprendi, Shar: O amor é incondicional. Lembra quando você tentava de tudo para fazer com que eu te perdoasse e sentisse de novo como me sentia antes? Você não precisava ter passado por isso, não precisava ter tentado até sangrar.

O amor não ama porque você dá um presente a mais ou a menos. O amor não ama porque você deixou todas aqueles bilhetinhos espalhados mesmo que eu continuasse não fazendo os desenhos que você tanto queria. O amor não ama porque você fazia almoços para me agradar. O amor não ama porque você gostava de ficar com seu livro do meu ladinho fazendo nada além de estar ali enquanto eu jogava.

O amor simplesmente ama. Sem os se. Não se pode amar alguém se essa pessoa for boa, não pode amar alguém se essa pessoa não errar nunca. Não se pode amar uma pessoa se ela concordar com você. O amor não é uma coisa que você dá esperando o que vai receber de volta, eu não devia ter exigido que você fosse tanto para mim quando você mal podia ser para você mesma.

Você sabia disso muito antes, Shar. Você tratava as pessoas como se elas fossem suas melhores amigas, dava presentes para quem acabou de conhecer, falava bom dia na rua, perdoava com o coração, essas coisas são questão de amor, você tinha muito mesmo quando tinha pouco.

Espero que esteja feliz, minha Sharona. E que a pessoa que for ficar com você saiba disso: o amor é incondicional. Você não precisa se desdobrar para merecê-lo, você vai errar de novo, você não é perfeita. Mas amor é o que fica quando a tempestade passa e as nuvens vão clareando o céu até irem embora e o sol chegar. Amor é o que fica depois da briga, depois da desconfiança, depois do medo, depois do desespero, depois do desistir, por trás do voltar atrás. Amor é o que faz querermos uma pessoa na nossa vida sabendo que ela vai cometer erros depois.

Me desculpe por não ter podido te dar o que você mais quis, e me desculpe por não ter aprendido com seu erro e ter ido embora quando você precisou de mim. Você tinha razão. Nós não precisamos de alguém que nos salve, o que nós precisamos é de alguém que vai permanecer ao nosso lado enquanto nos afogamos, nos debatemos, erramos e lutamos para salvar a nós mesmos.

Tenha um ótimo dia, um feliz aniversário, sinto muito ter escolhido deixar meu amor por você de lado, sinto muito não ter podido dar o que você mais queria. A gente erra muito antes de acertar, mas o amor não erra, transborda. Porque é incondicional.

Um beijo,

Daryl.

 

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