Eu não lembro quando foi a última vez  que eu me sentei para escrever sobre o amor e as palavras vieram alcançar a ponta dos meus dedos como quem corre uma maratona de 5km pela primeira vez e quer muito cruzar a linha de chegada pra provar que conseguiu. Dessa vez vieram. Eu olhei para um lado, olhei para o outro e lá estavam elas sentadas ao redor da mesa com as mãos cruzadas uma sobre a outra me encarando como quem espera um posicionamento importante de uma pessoa que toma sérias decisões.

As palavras me esperaram aqui.

Sinto que ficaram paradas por muito tempo, e mesmo correndo e me esforçando muito eu não estava pronta para alcança-las. Falar de amor é – sempre – falar sobre o tempo. E impreterivelmente, mesmo que implicitamente, estamos presos dentro do diâmetro do relógio. E podemos correr, correr, correr, mas nunca sair pra fora dele. E podemos correr, correr, correr, os ponteiros eventualmente vão nos alcançar.

Os ponteiros me alcançaram aqui.

Foi num por do sol desenhado pelo dedo de Deus que enxerguei cores que há muito tempo vinham correndo pra longe de mim. É tão engraçado as cores que Papai escolhe pintar certos capítulos. Dessa vez o amor veio numa paleta de verdes e tons terrosos. As palavras que dançaram na ponta dos meus dedos e me esperaram, por muito tempo, até que eu estivesse pronta para entender onde deveriam estar e sobre quem gostariam de falar, despontaram num horizonte da hora mais dourada e escapuliram pra fora de uma boca através de uma risada, escalando por uma bochecha redondinha até se içarem pelos meus ouvidos desbravando territórios há muito tempo perpetuados pelos meus tons frios de azuis e lilases.

As cores dele me encontraram aqui.

E eu lembro que eu não percebi. Eu lembro que eu não vi acontecer. Me falaram que talvez acontecesse, me avisaram que poderia acontecer, me disseram quando saí de lá que talvez tivesse acontecido, mas foi tão natural a junção daquelas cores que eu não enxerguei até que o quadro tivesse bem misturado. Era uma imagem bonita de se ver, olhando pra ela é como se eu tivesse passado muito tempo me dedicando a pintá-la mas foi tão mais rápido do que todos aqueles quilômetros em que corri das palavras, corri contra – e atrás – (d)o tempo, escrevi – mas principalmente apaguei – sobre o amor.

A arte dele me coloriu aqui.

Eu não sei por quanto tempo ele rascunhou num quadro em branco. Não sei sequer se estava procurando essas cores – não fui autorizada a fazer essas perguntas -, não sei se ele achou a pintura bonita, se ele gostaria de pendurá-la por ai. Por vezes temo que perguntar seria disparar suas pernas em uma corrida longa demais contra ponteiros que não posso mais tentar alcançar. Eu senti o amor dele, ou o que poderia ser esse amor. Mas falar sobre isso é – sempre – falar sobre o tempo, e apesar de esse ter sido um dos relatos mais fáceis e sinceros que já consegui pintar com palavras, tenho medo de que eu vá fazer perguntas e ao olhar ao redor da mesa elas ainda estarão lá com as mãos cruzadas umas sobre as outras esperando respostas que eu não posso dar.

Tampouco se elas me perguntarem sobre o amor eu não saberei responder, pois corro ao redor do relógio sendo perseguida – e às vezes perseguindo – um ponteiro de amor que é pincel numa tela que não pinto sozinha.

As respostas dele não estavam naquela colina verde naquele dia, e se estavam a luz do sol em seu sorriso me ofuscou o olhar com tantas cores que eu não lembrava que existiam. Mas pra sempre espero a primavera, é quando nascem as mais bonitas flores roxas.

Você não imagina que arte linda vai encontrar por ai, natureza afora. Há tanto mundo depois do horizonte que é o diâmetro do relógio. O negócio é que não é, nunca, possível correr deles. É preciso esperar o tempo dos ponteiros nos alcançarem, e às vezes, só de vez em quando, sabe? Numa badalada entre as doze, um clique acontece e a arte sobrevive, colorindo o mundo inteiro novamente quando duas paletas se encontram.

 

A primeira semana do desafio foi um sucesso! Que coisa incrível poder voltar para fazer o pacote de tarefinhas da segunda semana sabendo que tanta gente tem aproveitado e curtido o desafio.

Você perdeu e não sabe do que a gente tá falando, mas viu essas ilustrações incríveis por ai e quer participar? Não tem problema, a gente te esclarece bem aqui.

 

Acreditamos que empoderamento não é apenas alcançar nosso potencial, mas ajudar outras pessoas a fazer o mesmo, pensando nisso o Horinhas de Descuido libera o uso dessas imagens à qualquer página, blog ou organização desde que sem retirar os créditos e sem fins lucrativos. No instagram e no facebook não esqueçam a hastag #30diasdecuidadohdd pois estamos muito a fim de acompanhar vocês. Aqui no blog falamos muito sobre amor, amor próprio, respeito e relacionamentos, se você quer saber mais sobre a nossa iniciativa é só olhar na categoria Textos.

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Daquela vez foi diferente.

Daquela vez a gente não conseguiu reparar. Já houveram vezes em que o orgulho foi muito alto, a dor muito funda o amor muito raso e a compreensão evaporou. Mas mesmo disso a gente voltou. Voltamos de tudo, menos daquela vez. Eu sempre pensei que eu poderia me escolher, que eu poderia ir embora – eu nunca pensei, acho, sobre como voltar depois caso quisesse. Nunca pensei que ia precisar.

O amor não é sobre precisar. Nunca se diz “eu preciso de você” como uma coisa boa. Precisar é sempre sobre eu, o amor é sempre sobre nós. Eu posso amar sem que o outro não me ame, mas eu não posso amar sem que outro exista. Por isso o amor-próprio é uma jornada muito longa, porque tudo que conhecemos sobre o amor é o que os outros nos contaram sobre ele e é necessário construir uma identidade nossa antes de aprender como amá-la – é necessário conhece-la

Precisar é muito egoísta, por isso eu nunca achei que fosse precisar até que precisei ir embora. E foi fácil, sabe? O estranho é que foi fácil. Não exatamente fáaaaacil, mas, ao menos, não tão difícil quando deveria ter sido. Foi difícil à beça, mas eu consegui, entende? Nunca pensei que conseguiria. Às vezes acho que deveria ter dado um pouco mais de trabalho. Sinto que a coisa certa a se fazer teria sido desmaiar em sarjetas e fazer ligações de madrugada, mas nada disso aconteceu. Nada disso nem chegou perto de acontecer.

Precisei ir. Fui. E daquela vez foi diferente.

Porque eu não precisei voltar.

E hoje eu sei que há tempestades das quais não se volta. Porque a gente nunca sai de uma tempestade conforme entramos: uma parte nossa fica lá dentro, presa para sempre no limbo do passado de quando entramos. Mas há uma pessoa que saiu da tempestade. Uma pessoa que ainda contempla o céu estrelado e sorri consigo mesma por causa dele – independente de quem escolhe contemplar ao lado. Uma pessoa que amou muito, e quando esse sentimento adormeceu continuou sendo um bom lugar, um bom lar para se viver.

Ainda dá pra andar pela cidade e ver as pessoas, conhece-las, se apaixonar pela vida delas, pelas suas mentes, pelo seus corações. É possível ser um bom lugar. É possível abrigar corações, fazê-los sentir-se em casa, fazê-los dar saltos e remar contra fortes ventos apenas para voltar para o abrigo de um abraço. Não é mais preciso se desdobrar para caber em braços pequenos demais para o seu grande coração. Há uma pessoa que saiu da tempestade, e essa pessoa – você – ainda é um bom lar.

Você nunca mais será a mesma.

Tudo porque daquela vez foi diferente. Porque daquela vez você conseguiu ir e não voltar. Porque você precisou mais de si mesma do que te ensinaram que o amor precisaria de você. O amor não é precisar. O amor é não precisar e querer mesmo assim – porque dá pra ter uma vida de escolhas em conjunto sem precisar escolher pelo outro, e talvez ele não precise de você, mas queira ficar mesmo assim, e isso é o amor.

Porque vamos todos sobreviver às tempestades, mas ainda podemos escolher ter uma vida depois delas. O amor não é a tempestade, ele é o remo. O amor não é o afogamento, é o braço estendido. O amor não é o furo no barco, ele é a vela aberta. O amor não é – nunca é – quem exige que você permaneça a mesma ou te ame apenas sob os bons tempos de sol escaldante. Ele é tudo aquilo que nenhum vento nunca foi capaz de levar embora. O amor é o que fica.

O amor nunca mais será o mesmo. Porque agora eu sei quanto ele vale, quão longe ele vai, quão forte ele luta, quanta vida ele traz consigo. E amo diferente agora, nunca mais poderei amar sob as mesmas condições de antes. Porque daquela vez foi diferente, daquela vez eu precisei ir e ele não me pediu pra ficar, e eu soube que a tempestade dele era eu. Porque daquela vez se eu precisasse voltar não poderia nadar tão forte. Quem me conheceu antes da tempestade não conhece mais. Porque eu nunca mais fui a mesma. Quem me amou antes da tempestade não pode amar mais sem permitir que eu me apresente, porque agora não há nada além de uma brisa gentil e fresca.

E eu sei que tudo isso foi porque daquela vez foi diferente. Todas as outras vezes eu tinha sobrevivido, daquela vez eu vivi e por causa daquela vez em que escolhi viver, eu nunca mais fui a mesma.

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