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Eu nunca pensei muito sobre os meus votos de casamento. Sempre achei engraçado que as pessoas passem tanto tempo pensando sobre isso, principalmente nos filmes. É como se todo o destino da relação entre o noivo e a noiva estivesse dependendo daquelas palavras. E eu, que sempre me apeguei às palavras mais do que em qualquer outra coisa, parecia achar que apenas algumas palavras não iam mudar muita coisa, e que o mais importante devia ser, na verdade, como você demonstra o sentimento que as palavras não podem traduzir.

Essa semana eu estava, mais uma vez assistindo à série How I Met Your Mother, porque essa é uma das séries que eu acho que mais fala sobre o caráter humano, e como a gente não tem nada pronto, e como é comum passar vários anos procurando, e é uma série que eu tenho ficado cada vez mais apegada, porque a cada vez que assisto, vejo uma coisa diferente que não havia visto anteriormente. Pois bem, eu estava re-vendo a nona temporada, que eu costumava achar a temporada mais fraca da série, e revi uns episódios bem chave, que me permitiram ter um conhecimento mais completo dos personagens. É no penúltimo episódio da série inteira, o Last Forever Part I, que acontecem dois discursos de casamento.

E eu entendi que os discursos são bem importantes mesmo. Não porque eles revelam o segredo oculto do destino para o relacionamento desses noivos, mas sim porque eles falam muito sobre quem a gente é. Algumas pessoas tem medo de falarem, tem medo de demonstrarem o que sentem, e esse é um momento em que elas se sentem livres para o fazê-lo sem o peso do julgo alheio. O discurso devela muito sobre quem o faz, porque são sentimentos traduzidos em palavras, que ficam soltas, expostas.

Foi quando eu comecei a pensar sobre o que eu diria, se fosse me enlaçar à você por toda a eternidade.

Eu não prometo, por exemplo, ser sempre feliz e agradável. Mas eu prometo te amar todos os dias, principalmente quando eu quiser odiar. Eu não prometo ver todos os jogos ao seu lado, mas garanto que vou te zoar quando seu time perder, mas nem sempre.

Eu não prometo que eu vá fazer almoço todos os dias, mas eu prometo que eu vou fazer sempre que você puder me ajudar na cozinha, ralando as verduras e lavando a louça enquanto a gente ouve Foo Fighters e fala sobre nosso dia, nossos amigos, sonhos e medos.

Eu não prometo que eu vou ter todas as respostas daqui até a eternidade, mas eu prometo descobrir todas ao seu lado. Essa é uma resposta fácil, que, pelo bem ou pelo mal, eu descobri: não tem nada que seja maior do que a minha vontade de ficar com você.

Eu não prometo que eu vou constantemente querer receber visitas na nossa casa, mas eu prometo que eu vou realmente amar quando vierem, e vamos nos divertir, e conversar, comer e jogar bastante, pra fortalecer todos e quaisquer laços de amor, amizade ou fraternidade.

Eu não prometo te acompanhar quando você toma cerveja, porque esse trem é bem ruim mesmo. Mas eu prometo cuidar de você se você beber muito, desde que não seja sempre. Eu prometo que você vai ganhar no video-game em qualquer jogo que não for tetris. Não porque eu te amo tanto que vou deixar você ganhar, eu simplesmente não levo jeito mesmo.

Eu prometo não fazer nada que me deixe com tanta vergonha que eu precise mentir. Sobretudo, eu prometo ser sincera. E eu prometo perdoar. Eu prometo ter fé. Em mim, em você, nos sonhos, na gente. Eu prometo te mostrar, todos os dias, o porquê de você ter escolhido eu.

Se você disser sim pra mim, e não para todo o resto, eu prometo que vai valer a pena.

Se você escolher eu, e não os medos, as incertezas, ou o passado, eu prometo esse futuro.

Eu prometo calor, sol e varanda. Abraço, cuidado e risadas. Fotografias e memórias. Não prometo que não vai haver frio ou medo, stress ou dúvida, mas eu prometo sempre estar com você para superar isso. Nunca à sua frente, nunca deixada para trás, eu prometo estar ao seu lado. Eu prometo te respeitar, e levar os seus sonhos tão a sério quanto os meus. Eu prometo nunca me esquecer dessa escolha, e prometo ser fiel à ela. Eu prometo que todo o mundo vai conhecer a nossa história através das minhas palavras, e prometo que como eu, eles vão entender que não existe nenhum outro lugar no mundo onde eu queira estar, do que ao seu lado.

Me ame, me cuide, me escolha. E eu prometo isso: amar você mesmo quando quiser odiar, cuidar de você mesmo quando você não souber cuidar de si mesmo, e escolher você mesmo quando houverem outras coisas ou situações entre essa escolha e eu. Apesar de ainda achar que existem sentimentos que as palavras não podem traduzir, eu espero que essas sejam o bastante para você entender. Eu escolho ficar, mesmo se algum dia eu quiser ir. Eu prometo me lembrar do que importa.

Eu te amo, e se você escolher me amar quando quiser odiar, me cuidar quando eu não souber cuidar de mim mesma, me escolher quando houverem outras coisas e situações entre você e essa escolha, se você escolher ficar mesmo se quiser partir, e se lembrar do que importa, eu escolherei esse amor, mesmo quando eu esquecer, eu escolho estar ao seu lado para me lembrar.

E sucedeu, que a alma de Jônatas foi ligada com a de Davi, e Jônatas o amou como a sua própria alma… Depois Jônatas e Davi fizeram um pacto, porque ele o amava como a sua própria alma.

– I Samuel 18:1-3

 

 

 

Querido Daryl,

Eu achava  engraçado o que o medo faz conosco.

O medo é como uma capsúla protetora. Quando somos criança e nossa mãe diz que não devemos colocar a mão no fogão pois podemos nos queimar, nós entendemos que queimar é algo ruim que nos causa dor, e temendo que isso aconteça nós evitamos o fogo, e sabemos que assim estaremos seguros. O medo nos salva da dor da queimadura,  o medo nos protege da ferida, e não nos permite ter cicatrizes.

Pelo menos, é o que dizem. Engraçado eu estar escrevendo sobre isso, porque eu sempre tive tantos medos, e hoje eu não tenho mais, porém quando tinha, nunca escrevi sobre isso, e agora não tenho mais, porém escrevo para que você saiba.  Talvez porque quando eu tinha medo eu achava que todo mundo a qualquer momento fosse me quebrar, e eu tentava de todas as formas me proteger disso. Me proteger dessa queimadura, dessa ferida, dessa cicatriz.

E agora escrevo porque quero que saiba que não está sozinho. Muitas pessoas se sentiram assim, eu me senti assim, e eu não tenho mais medo. Não é que eu não sinta a dor, é que eu não tenho mais medo de me ferir. Escrevo também porque eu descobri que não vale a pena. Digo, viver dentro da capsúla protetora. Não vale a pena. Muitas pessoas te falaram isso, mas existe um mundo lá fora que merece ser vivido ao máximo. Em todas as suas cores, na máxima saturação que houver. Nós éramos preto no branco, e eu seria tudo outra vez, mas quando se diz respeito às cores da vida não pode existir preto e branco.

Eu gostaria que você não tivesse que passar por tudo que eu passei para entender isso. Eu gostaria que você não tivesse que cometer os meus erros, fugir como eu fugi, se fechar dentro de si mesmo como eu fiz, e magoar as pessoas ao meu redor, que queriam me dar apoio enquanto eu sentia que o chão sob os meus pés havia desaparecido. Eu gostaria que você percebesse antes, mas você é teimoso demais, e essa carta é pra dizer que eu respeito isso. Eu não quero que você sofra, mas tudo que eu fiz até hoje para te proteger da queimadura, fez com que você se queimasse mais, por isso essa carta é para dizer que eu não vou tentar mais.

Foi o meu medo que te feriu. O meu medo abriu o buraco sob os seus pés, de modo que você não pode mais confiar que eu vá te segurar, e essa carta é para dizer que eu espero que um dia você se erga sobre seus próprios pés. Eu gostaria de ter sido mais forte e menos medrosa para não ter feito nada disso, mas como sabemos, eu não fui e agora ambos pagamos por isso.

Mas essa não é mais uma carta de amor, são sentimentos loucos traduzidos em palavras para que você possa entender o que eu entendi. É também um pedido, para que você se cure, seu moço! Hoje eu posso dizer o que nunca pensei que fosse dizer, que eu espero que você seja feliz com quem estiver. Eu nunca pensei que eu fosse dizer isso porque eu sempre achei que eu era essa pessoa que te fazia feliz, mas o seu medo me afastou tanto, que eu não posso mais aceitar esse amor desfigurado que você diz sentir. Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos, e eu sei que não é isso que eu mereço, por isso essa carta é para dizer que eu não tenho esperanças de ser o chão sob os seus pés.

Você tentou de todas as formas me dizer que não queria que eu fosse, e quanto mais eu tentava, mais você se fechava dentro da sua capsúla protetora do medo me afastando para dentro de um abismo de dor. E essa carta é para dizer que eu não quero mais estar nesse abismo, e eu tentei de todas as formas sair dele ao seu lado, por acreditar que eu poderia te tirar do seu medo enquanto você me tirava da minha dor, mas você foi tão convincente em suas fugas que eu já não posso te alcançar mais.

Eu sinto a dor. Não quero que você ache que eu não a sinto. Não é que eu não sinta a dor, é que eu não tenho mais medo de me ferir. Eu achei que eu fosse ficar bem se eu não sentisse a dor. E achei que eu fosse te salvar de sentir a sua, e tudo que eu fiz para evitar a sua ferida fez com que você se afundasse ainda mais dentro dela, porque, como eu um dia, você hoje acha que pode evitar a dor.

Vai chegar um dia que você vai entender que não pode. E a única solução se não podemos evitar a dor, é senti-la. Mas por mais que eu queira ser a pessoa a te mostrar isso e senti-la com você, não posso. Não é esse o amor que eu mereço. Então, acho, essa é uma carta de despedida. Aqui me despeço dos medos que eu tive, e dos medos dos quais tentei, inutilmente, te proteger. Me despeço de você, desejando que você um dia encontre o amor que acha que merece, desejando que um dia você não sinta medo da dor, apesar de senti-la. Desejando que você abrace todos os riscos da vida, com todas as cores, e toda saturação e que você seja capaz de colocar a mão no fogo novamente.

Quando a gente acredita em alguém, quando a gente sabe quem alguém é e quem essa pessoa pode ser conosco, a gente coloca a mão no fogo por ela. E eu sinto muito que você não tenha colocado por mim, eu teria colocado por você. Eu teria colocado meu corpo inteiro, mas se você prefere não confiar nas minhas palavras e quer cometer os meus erros, fugir como eu fugi, se fechar dentro de si mesmo como eu fiz, e magoar as pessoas ao seu redor, que querem te dar apoio enquanto você sente o chão sob os seus pés desaparecer, não há nada que eu possa fazer por você.

Eu não me conheço, nenhum pouco. Pensei que a essa altura já seria feliz, mas quanto mais eu me forço mais eu percebo que preciso abrir mão do controle. Vou deixar acontecer, apenas, deixar acontecer. É apenas uma faísca, mas é o bastante para me levar adiante, e quando escurece e não há ninguém por perto, ela continua a brilhar. Todos os dias eu tento ao máximo acreditar que amanhã as coisas vão melhorar mas acordo pra uma fria realidade na qual nada mudou. Mas vai, vou deixar acontecer.

É apenas uma faísca mas é o bastante para me levar adiante, e quando escurece e não há ninguém por perto, ela continua a brilhar. E o sal nas minhas feridas hoje não queima mais do que queimava antes, não é que eu não sinta a dor é que não tenho mais medo de me ferir. E o sangue nessas veias não está pulsando nenhum pouco a menos do que antes, mas essa é a esperança que eu tenho, e a única coisa que me mantém viva.

Eu vou deixar acontecer, porque é apenas uma faísca mas é o bastante para me levar adiante.

Eu espero que você entenda que você não pode evitar a dor, e que o medo não vai te proteger da queimadura. Espero que você não tema o fogo, e que coloque a mão nele por alguém cheio de erros, defeitos e bagagem, porque essa pessoa é especial. Espero também, e principalmente, que a sua ferida se feche e que você descubra, como eu descobri, que a vida ainda pode ser linda, mesmo com cicatrizes.

Não é engraçado o que o medo faz conosco.

É triste.

Com todo amor do mundo,

Shar

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Eu queria ouvir a sua voz. Eu liguei porque eu estava vendo umas fotos nossas, e aquele teu sorriso ficou impresso na minha mente de uma forma tão precisa, que a necessidade de ouvir a sua voz me inundou. Fiquei com medo de ter esquecido, então eu liguei pra confirmar. Mas você estava fora se divertindo com seus amigos e aquela menina que você ficou bem depois de a gente terminar. Parece que foi ontem e a gente tava rindo para aquelas fotos, dai hoje já fazem semanas que eu não tenho notícias suas.

Desculpa, eu não devia ter ligado. Eu me forcei a não ligar. Eu queria não ter ligado, queria ter sido forte o bastante pra até esquecer que você existe. Queria nunca ter ouvido o barulho alto do bar que você estava bem quando você disse Alô!. Mas a verdade é que eu sempre quero muitas coisas.

Queria que você ficasse ao meu lado para o que der e vier, acho que isso é uma das coisas que eu mais quis. Passei tanto tempo achando que era isso que ia acontecer que nem parei para pensar em como ia ser a vida quando você não fosse mais estar ali comigo porque, quem ia imaginar que esse dia fosse chegar? Chegou.

Queria que a gente fosse um daqueles casais de velhinhos que estão juntos há cinquenta anos. Enquanto eu olhava as nossas fotos eu achei várias muito engraçadas que iam ficar bem legais naqueles clipes zoados de casamento. Fotos da praia, dos vários natais que passamos juntos, você com um super bolo de aniversário, depois você de careta, uniforme, depois a sua primeira selfie, depois você de terno. Foram tantas fotos, de tantos momentos de tantas lembranças que compartilhamos. Mas enquanto eu pensava sobre tudo isso e na falta que você me faz, você estava em um bar.

É por isso que eu queria não ter te ligado. Porque eu preciso parar com essa mania de achar que você sente a minha falta, preciso parar com essa mania, que é quase uma morte lenta e dolorosa, de pensar que você mudou de ideia, e que agora tá tudo bem. Nada está bem. Mas teria ficado se eu não tivesse ligado. Se por um dia a mais eu tivesse simplesmente continuado a minha vida e afastado todos os pensamentos dolorosos da minha cabeça, gritando o tempo todo que independente do quão doloroso é ficar sem você, foi isso que você escolheu enquanto ainda poderíamos estar juntos e por isso só posso concluir que estar comigo não era lá o que eu achei que fosse pra você, se por um dia a mais eu tivesse esquecido essas vozes e não ligado, talvez eu não soubesse que você estava em um bar, e ai por mais um dia, eu estaria bem.

Mas não foi isso que aconteceu, né?

Achei no mínimo interessante como essa coisa de ficar solteiro funcionou pra você, porque todo mundo muda, é verdade, mas você mudou de uma forma que eu já não vejo mais quem você era. Engraçado que você sempre identificou a gente como Ross e Rachel, e hoje mais que nunca eu acho apropriado. Existe um episódio no qual a Rachel diz ao Ross que ele era a pessoa que ela mais confiava no mundo, porque era uma pessoa que ela sempre acreditou que nunca a machucaria, e agora ele parecia uma pessoa completamente diferente, por isso ela não podia mais confiar nele. Mas quando a gente está em um relacionamento a gente nunca acha que aquela pessoa vai ser capaz de nos ferir, a magia do Amor é acreditar que ele vai ser forte e bondoso, fiel e eterno, amigo e presente, parceiro e leal. A magia é acreditar que vai durar.

E teria dado certo, teria ficado bem se pelo menos eu não tivesse te ligado pra descobrir que você estava em outro lugar, com outras pessoas, não pensando em nada disso e vivendo a sua vida, tão mais diferente agora que eu não estou nela.

Foi por isso que eu desliguei.

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