Tenho quase certeza de que ele usou a isca do intelecto pra me fisgar. Foi muito fácil perceber o quanto eu adorava ficar horas e horas a fio falando sobre os temas mais absurdos. Não tenho certeza se ele fez de propósito, acho que era a única forma que ele conhecia de expressar quem é. Se eu for pensar bem não acho que ele poderia ter feito de outro jeito.

E eu acho importante ressaltar que uma das coisas que eu mais amava sobre a companhia dele era como ele parecia saber sobre tantas coisas, ser apaixonado por tantos assuntos e conhecer tantas áreas diferentes.

Mas eu não tenho certeza de que ele sabia muito sobre quão diferente o amor pode ser do que nós achamos que ele é.

Por vezes me ocorre que a nossa noção do que o amor é está – até demais – ligada às pessoas de quem recebemos esse amor, quando na verdade elas não são o sentimento em si, mas um canal que ele precisa passar para chegar até nós.

Não tenho certeza de que o fato de eu ser diferente de todos os livros que ele já tinha lido fez diferença nesse momento, porque em muito eu sinto que o medo foi maior do que a surpresa frente ao inesperado que ele encontrou ao virar minhas páginas naquele dia.

Tem coisas que não se aprende nos livros. Sei que, como eu, ele deve ter ouvido diversas vezes que o amor é uma força poderosa o suficiente para nos curar. Mas as pessoas não conhecem verdadeiramente nossas feridas. Como elas podem conhecer o remédio? Por que deveriamos acreditar que personagens de fora da história são capazes de enxergar coisas que os protagonistas não podem se afastar o suficiente para ver à distância sob a luz de uma perspectiva diferente?

É fácil acreditar que tudo que se há para saber sobre a vida, o universo e tudo mais, está datilografado. Mas a verdade é que muita gente não conseguiu racionalizar certos conhecimentos e explica-los de maneira lógica e didática.

Eu, por exemplo, não sei nada sobre o amor.

Já me disseram que o amor não é nada além de uma reação química no corpo, induzida através do estímulo e liberação de certas substâncias na corrente sanguínea. Como se o fato de o amor ser uma reação química o impedisse de ser todo o resto que também é. É triste como as pessoas se assentam pelo conveniente e se satisfazem facilmente com indagações de enlouquecer uma mente curiosa.

Tem coisas que não se aprende nos livros, mesmo eu – que não sei nada sobre o amor – sei que as leis da física não se aplicam quando ele me olha sem precisar dizer nada com a boca quando nossos corpos ocupam o mesmo espaço e sua retina encontra a minha dizendo tantas coisas sem precisar articular a boca ou encontrar a ordem sintática das palavras.

E ele poderia ter discursado sobre a queda do império romano, eu sei. Mas é engraçado que se trate aqui da mesma pessoa que não registrou o fato histórico que se iniciou com o beijo dele enquanto o braço segurava minha jaqueta jeans, numa noite chuvosa, e eu sentia cada sabor de cada narrativa que ele fizera misturada à cevada em sua língua.

A aventura em toda literatura fantástica que se desencadeia quando estamos juntos ou a poesia erótica que perpassa a linha superior da boca dele, debaixo de toda aquela barba, segundos antes de ele me beijar com gentileza, pra depois me morder numa provocação.

Tem tanta coisa que não se aprende nos livros.

E, certo, não estou enganando ninguém, a verdade é que eu não sei nada sobre o amor, mas mesmo que ele seja, de fato, uma reação química, não é de se esperar que uma reação capaz de mudar tudo que uma pessoa é e acredita seja, na verdade, muito – muito – mais que uma combinação de elementos químicos a maratonar pela corrente sanguínea em direção à linha de chegada no nosso coração?

É apenas matemática básica concluir que ele e eu teríamos sido mais fortes do que ele sozinho pra lutar contra a soma de todos aqueles demônios em madrugadas insones de terror. Pode ser que ele tenha pensado que o amor viria para fazer as perguntas certas, mas o que eu realmente queria era que ele se importasse menos com o gabarito e parasse de tentar responder tudo sozinho.

Eu sei que ele me fisgou pelo intelecto. Mas me parece curioso que mesmo um cara tão inteligente acredite saber tudo que há para saber sobre o amor, porque, sabe, é possível ler todos os livros do mundo e não encontrar as respostas que se procura.

E as pessoas que já descobriram quais são as perguntas têm sorte o suficiente de se dedicarem a uma coisa só – que é soluciona-las. Mas é só quem entende que se a resposta é o amor a pergunta tanto faz, que é capaz de endireitar todas as interrogações que a vida faz questão de dobrar e jogar em cima da gente.

Alguns afirmariam suas certezas aos sete ventos, apesar do gabarito final. Mas eu, por exemplo, prefiro curvar essa exclamação. Quem souber me fale, eu não sei nada sobre o amor?

Justifique sua resposta.

Querido E.,

Eu costumava colocar todas as coisas mais importantes sobre mim dentro de uma caixa. Era uma caixa bonita, eu gostava de morar dentro dela. Tinham algumas corujinhas voando de um lado pro outro e uma das paredes era rosa, a outra verde limão. Uma imensa máquina de escrever me fazia companhia ali num cantinho, e o motivo pelo qual eu colocava tanta coisa ali era porque eu achava que era o único lugar que me cabia.

Somos doutrinados a nos diminuir para caber nos lugares. Hoje eu sei que fazia isso porque não acreditava que a magia em mim era poderosa o suficiente para me assentar em espaços maiores, portanto, me escondia.

Ter encontrado você foi uma coisa importante para mim, porque você me relembrou lições sobre a magia que há muito tempo eu havia esquecido, e embora a sua pessoa estivesse destinada a se assentar em tronos muito maiores, não pensou duas vezes antes de me abraçar com cuidado e aninhar seu corpo no meu numa madrugada de primavera.

Eu não acho que os fios do nosso destino terminem num laço, mas em muito me alegra saber que as mãos que seguram a agulha e a tesoura foram cuidadosas o suficiente pra permitir que alguns dos meus pontos fossem costurados junto aos seus aqui e ali nessa colcha de retalhos.

Sabe, E., eu descobri que o significado do seu nome é esperança e acho que em toda a magia oculta na linguagem parece irônico que você não seja capaz de esperar grandes coisas de seus próprios feitos nesse momento. É tão difícil, eu sei. Sentir por tempo demais ou ouvir de outra pessoa que não somos o suficiente nos faz achar que o nosso lugar é pequeno e nossos melhores talentos cabem melhor dentro de uma caixa de sapatos embaixo da cama, só pra gente.

Mas eu espero que você seja capaz de romper com o medo e se posicionar em lugares maiores do que dentro apenas de si mesmo. Vejo tanta magia em você, gostaria que visse também. A forma como você ilumina minha noite e me faz sentir como se todas as coisas pudessem ser resolvidas amanhã bem cedo, depois do café, é um sentimento que eu já sinto saudades desde agora.

A vista de fora é linda. Eu gostaria que você pudesse sentir o vento, ver o rio e o vale, apreciar o cheiro das árvores e o barulho que elas fazem no silêncio da noite quando seus galhos são balançados. Por favor, não se diminua para caber em espaços tão pequenos.

Tenho esperança de que um dia você vai acreditar em você o suficiente para saber que merece um lugar fora dessa caixa. Há bagunça em toda parte, mas quanto menor o espaço que tentamos nos encaixar mais as coisas vão ficar fora do lugar pois há muito em nós que não cabe em parte alguma, até criarmos o lugar propício para que essas coisas possam existir em harmonia com quem nós somos.

Você criou lugares novos em mim para sentimentos que eu não podia esconder ou conter em caixa nenhuma.

Por toda a vida somos doutrinados a nos diminuir para caber nos lugares que as pessoas esperam que nós preenchamos. Mas o amor não nos ensina a encolher, ele nos ensina a aumentar. Eu desejo ter sido capaz de fazer você se sentir um pouco maior do que você realmente achava que era. Na maior parte das vezes coragem não é realmente algo que sentimos, mas algo que fingimos sentir para que através do acreditar que ela existe, se torne real em nós.

Sei que há uma pessoa por debaixo dos seus escudos de guerra, e sei que por muito tempo você acostumou a carregar o peso dessa armadura, mas antes de ir embora eu precisava muito te dizer que eu me apaixonei por quem sustentava essa armadura, muito mais do que o quanto ela brilhava ou quão reluzente parecia estar mesmo que você sangrasse por debaixo dela.

Se eu pudesse deixar uma única mensagem depois de tudo, pediria que você deixasse a armadura dentro da caixa e fosse capaz de conhecer o mundo um pouco mais leve, com todo seu glorioso esplendor, em sua própria e gigantesca companhia, que é sem dúvida nenhuma a melhor que já tive em muito tempo.

Não acho que eu vá te escrever mais por enquanto, não aqui, não dessa forma. Mas não parecia certo não me despedir com uma carta – são as palavras mais minhas que esse pulso poderia trazer à existência – talvez a próxima eu te entregue em pergaminho. Essa carta não é apenas para dizer tudo isso e me despedir, é também um obrigada. Por me aquecer e me lembrar o significado da luz que brilha em mim.

Espero que saiba que eu gostaria muito de ter ficado, te ajudado a carregar as coisas pesadas, tentar curar as feridas debaixo da armadura e aninhado meu corpo no seu com carinho por algumas madrugadas a mais – em qualquer estação – mas é muito difícil lutar contra você por esse espaço quando você não acha que merece caber nele.

Há magia em toda parte, meu bem, acredito que as suas chances de mudar as coisas e ser forte são muito maiores fora dessas armaduras pesadas que você insiste em carregar para se esconder em espaços menores do que é. Tenho certeza que ainda vou te ver se assentando em tronos muito maiores. Tudo começa a acontecer quando a gente deixa os medos, as caixas e as contenções de quem somos no passado e se projeta para ser quem somos destinados para ser.

com amor,
arw

 

Eu podia sentir que ele me amava em cada aspecto que é possível de se amar alguém. Nas coisas que se podem ver e nas que não se podem, no entanto, quando ele olhava pra mim eu sentia a colisão dos sentimentos dele com os meus emergirem de dentro pra fora. Acho que eu brilho mais forte perto dele, mas não sei se ele sabe que também é uma parte da combustão.

O amor, eu acho, começa como uma admiração antes de queimar e brilhar.

A gente admira as pessoas pelo que elas escolhem ser, apesar do que a vida insiste em torna-las. Há quem escolha ser forte, ou ao menos se sentir forte mesmo que não seja, pra conseguir continuar. 

Eu soube desde o primeiro momento que ele me admirava, mas eu não tenho certeza se ele soube que era recíproco. É curioso como a gente pensa pouco de si mesmo.

Ninguém esteve tão presente no nosso inverno quanto nós mesmos. Ninguém acompanhou tão de perto quando apareceram pra roubar os frutos, ninguém viu a troca de cor das folhas – uma a uma. Só a gente que viu, centímetro por centímetro, quando a seiva começou a nutrir as folhas, tão antes de elas caírem ao chão. A gente é quem sentiu os galhos sacolejarem e depois se partirem. Só a gente sabe quanto frio fez.

As flores são bonitas, e as pessoas as vêem de longe. Mas é curioso como a gente pensa pouco de si mesmo, porque ninguém esteve tão presente no nosso inverno quanto nós mesmos.

Em muitos aspectos eu acho que ele me lembrou um pouco das belezas simples. À distancia a lua é linda e iluminada, mas de perto é cheia buracos, vazios e muitas coisas que um estrangeiro não pode conhecer até ter chegado perto o suficiente.

Coração dos outros é terra estrangeira pra gente. Ainda não tenho certeza de que um dia o conheceremos bem o suficiente pra ganhar cidadania e visto permanente pra viver de perto cada detalhe, mesmo as crateras mais fundas.

Eu poderia fazer uma lista de todas as coisas que são bonitas de longe: café fervendo, a lua e as estrelas, o século XVIII, peixes com escamas azuis brilhantes, tulipas roxas, o coliseu, a vista do alto de um despenhadeiro, o mar.

Nem tudo a gente pode chegar perto o suficiente. Ô mania de querer tocar as coisas intangíveis.

Uma estrela brilhou no nosso encontro, ele disse – antes de me tocar.

Quando duas estrelas colidem e uma delas é mais densa que a outra ela absorve o calor e juntas se tornam uma maior. É o que chamam de globular cluster. Quando uma estrela pouco quente e viva – a vermelha, que já queimou muito hidrogênio – colide com uma estrela mais densa e viva que ela – a azul, com mais massa e que queima hidrogênio mais intensamente e por isso é mais inflamável – ela pode se tornar tão quente que fica azul mesmo tendo sido vermelha a vida toda. É o que chamam de blue sttraglers.

A gente não entende o que torna as coisas bonitas. A beleza que podemos ver é apenas o que sobreviveu aos colapsos e combustões. As flores só são bonitas à distância porque nós não vemos quão perto da morte elas chegaram no inverno – se soubéssemos veríamos as flores como um deboche na cara da morte.

Por isso que quando ele olhou pra mim e disse que eu era uma das coisas mais lindas que ele já tinha visto, eu sabia que não era sobre as flores que ele podia ver mas sobre cada vento e neve que eu contei que tinha enfretado, mesmo que para ele a estação mais fria ainda esteja na metade.

É mais difícil pensar pouco de nós mesmo quando tem alguém logo ali nos lembrando constantemente de que somos maiores do que o inverno. Ele não precisava lembrar, ele precisava descobrir. Nem toda beleza que eu vi nele foi suficiente pra que ele brilhasse.

Uma parte de todas as coisas lindas sempre vai ser que nem a lua, cheia de buracos e vazios que nenhum estrangeiro pode conhecer até ter chegado perto o suficiente. Eu queria muito que ele pudesse ver motivos para continuar emitindo calor e brilho apesar disso, porque quando a estrela dele colidiu com a minha e ele me informou em um idioma mágico que o céu se iluminou de um jeito diferente, ele não sabia, mas ele também era parte da combustão.

É uma pena que por vezes demais a gente se acostume com o inverno para entender o fenômeno que começa com pequenas sementes se descongelando e brotando em terrenos áridos e quase inférteis. Mas eu ainda vou continuar admirando as flores, as luas, as estrelas e as pequenas belezas de quem se veste de força pra se sentir quente e continuar.

Mesmo de longe.

Porque ainda em seu inverno, ele me olhava como se eu fosse a coisa mais linda que ele já pudesse ter visto, e isso foi antes, durante e depois de tropeçar nos buracos e vazios deste corpo solar reluzente que sobrevive e brilha com mais luz à noite. E eu posso sentir, independente dos quilômetros de distância invernal que nos separam.

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