Esse é o meu pai.

Ele não gosta de morangos, e é de longe a melhor pessoa que eu já conheci. E eu já conheci gente à beça. Gente que era pai e gente que não era. Entre todas essas gentes ele sempre foi a minha favorita.

Meu pai perdeu o pai dele muito novo. Eu nunca conheci meu avô paterno. Às vezes eu sinto falta dele mesmo sem tê-lo conhecido. Não só porque eu tenho certeza de que ele também foi uma pessoa incrível, mas porque às vezes o meu pai precisa de coisas que, eu sei, só um pai pode dar.

Tudo que eu precisei na minha vida que só um pai podia dar, meu pai me deu. E mais uma porção de coisas que eu não precisei, ele me deu também. Eu queria que o pai do meu pai estivesse aqui, pra dar tanta coisa legal pra ele também. Às vezes eu fico em dúvida se meu pai recebeu tanto amor assim pra saber como dar, ou se ele sempre teve mais do que o bastante para transbordar.

Quando eu era criança meu pai me ensinou a jogar xadrez, contar estrelas, ler poesia e fazer figuras com as sombras das velas. Ele subia no terraço comigo e a gente comia melancia vendo o céu – eu lembro disso. Eram melancias, porque meu pai não gosta de morangos.

Ainda muito nova eu comecei a ir à igreja e aprendi que existe um Deus que me ama muito. Ele criou todas as coisas e sonhou com todas as pessoas do mundo, e Ele ama essas pessoas, e Ele deseja cuidar delas. Eu sempre entendi esse amor, porque eu sempre soube quão longe um pai iria por minha causa.

O meu pai Fábio faria a mesma coisa. Ele é ateu, sabe, mas ele daria a vida dele pela minha a qualquer dia, sem precisar marcar horário. Às vezes quando ele diz que não acredita em Deus mesmo quando um milagre acaba de acontecer bem diante dos nossos olhos – foram muitos, nunca consegui conta-los – eu o vejo dando uma espiadinha pra cima, pra conferir se Papai ouviu a ofensa e vai se manifestar pra provar que ele está errado. Mas Papai não manifesta. Meu pai Fábio não sabe, mas na maioria das vezes o milagre é ele.

Quando eu como melancia, jogo xadrez e escrevo poesias eu sinto muito amor pelo meu pai, porque são coisas que ele me ensinou a amar. E eu o amo todos os dias – muito mesmo – mas quando eu faço essas coisas eu também lembro do quanto ele me ama, em se importar de dividir memórias tão incríveis comigo.

Teve uma época que a gente não tinha muito dinheiro, e meu pai trabalhava muito longe, ai ele ia e voltava a pé de uma ponta à outra da cidade porque não tinha como pagar o ônibus e fazer o jantar no mesmo dia. Todos os dias teve jantar. E mesmo sem comer morangos ele comprava.

Eu nunca fui uma garota cujo sonho era casar e ter filhos. Eu não sei por quê não fui. Em muitos aspectos eu sempre tive uma família muito irada, então montar uma outra não era uma coisa que eu me preocupava tanto. Mas hoje em dia eu acho que talvez eu acabe fazendo isso, que talvez eu seja uma mãe um dia. Porque deve ser legal ensinar uma pessoa a gostar de poesia, e viver pra sempre através da poesia que ela lê.

Meu pai não só me ensinou a ler poesia ou gostar de poesia, ele também me ensinou a escrever poesia. Quando eu tinha 9 anos ele fez uma poesia com o meu nome, e disse que eu era o Sol.

Eu sei que eu fui mesmo. Porque ele fez eu me sentir assim. E eu agradeço ao meu pai, por meu ensinar tudo sobre o amor, e por me dar o suficiente pra eu nunca precisar mendigar à quem não tem.

Quando eu era criança meu pai me colocava nos pés dele e a gente dançava. E até hoje ele me carrega por ai. E eu sei caminhar sozinha, mas nem sempre quero, porque as sombras do fogo na parede e os cheque-mates são muito mais interessantes ao lado dele. Mas você me deu mais que ritmo para dançar, pai, agora chegou a hora de dançarmos lado a lado, com quatro pés no chão, de igual para igual.

Obrigada pelas asas, e por nunca me deixar esquecer quão longe elas podem me levar. Você nunca duvidou.

Eu quero ter muito cuidado com essa carta, porque eu não quero ofender nenhuma pessoa que não tenha tido um pai. E com isso quero dizer um pai incrível, não só um pai biológico – um pai é sempre muito mais do que um amontoado de células. Mas mesmo assim eu não posso evitar de escreve-la, porque é possível viver sem morangos, mas é impossível continuar escrevendo sem jamais ter te dito, pai, o quanto é importante que você tenha ido e voltado à pé para que eu pudesse jantar.

É impossível que você não saiba que eu vejo o Sol no seu olhar, e todas as estrelas que mais brilham não parecem tão brilhantes à sombra dos seus olhos. É impossível que eu não seja uma escritora, quando você me ensinou como as palavras são importantes, e é altamente improvável que eu não tenha nunca te escrito uma poesia, já que as minhas palavras nasceram de você – mais que um amontoado de células.

Fábio,
Fechei os olhos por um momento e enxerguei você na curva do meu coração.
Fiz um retorno, pra não te perder de vista e chegar a tempo de descansar no seu colo, me esperando no portão.
Não precisei bater, você sempre deixou a porta aberta. Nenhuma chave seria grande o suficiente pra fechar seu peito.
Sábio,
O nome do amor é o mesmo que te procurar no dicionário.
Luas revolvem-se em ciclos completos ao redor do Sol, e eu não preciso me revolver em volta de ninguém porque recebi todo o eixo que precisava para continuar.
Ei, hábil. Chega aqui, tem melancia picada na geladeira.
Ei, Fábio. Fica aqui pra não me deixar cair na ribanceira.
Mas se a sorte me testar, um dia sem você devo continuar, é eterno o que se grava no coração com todo seu suor e sua dedicação.
Fechei os olhos e te enxerguei na curva do meu coração.
E por todas as vezes,
por todos os dias
por todas as noites,
mesmo as mais frias
Fiz um retorno pra chegar a tempo e descansar no seu colo.

Pai, essa é uma carta de amor àquele sem o qual todas aquelas estantes cheias de livros e palavras jamais teriam passado de papel. Você me deu muito mais que palavras, e hoje te devolvo algumas.
Espero que sejam tão incríveis quanto a jornada que você nos colocou quando decidiu acreditar em si mesmo todos aqueles anos atrás.

Não teve nenhum dia que eu duvidei. Espero ser a melhor (no máximo a segunda melhor!) filha que você poderia ter tido. Você certamente é o melhor (no máximo o segundo melhor!) pai que eu tenho. Por favor, tome conta de você, e deixe que a gente tome também. Eu não sei se um dia eu vou te dar netos, mas se der espero que você esteja aqui para ensina-los a jogar xadrez, quando a gente já tiver ido à Feira de Santana autografar alguns livros.

Esse é meu pai. Um dos.

E eu sou filha dele – uma das. E quando dizem que sou parecida com ele eu fico muito feliz. Porque isso significa que tenho muito amor pra dar, mesmo quando for pouco. A gente faz assim por aqui: até transbordar.

Que nem a luz do Sol sobre a Terra.
Te amo.

Querida, há tantas coisas que eu gostaria de te dizer mas eu não sei como.

Eu não acho que há alguém no mundo que se sinta como eu me sinto sobre você nesse momento. Sei que passou tempo  o suficiente procurando amor por aí nessa vida, e talvez ache que já é o momento de ter descoberto o que é pra fazer, mas vai ver esse é o tipo de resposta que não se tem; para o tipo de questões insolúveis, sabe?

As pessoas nunca são respostas, elas só podem ser perguntas.

E é de se admirar que você se contente com a vida que tem. Quer dizer, não que não seja boa: ela é boa, é legal, é ok. Mas preciso parabeniza-la, pois cair em tantos buracos de dor fervente e escaldante que teriam feito várias outras pessoas se derreterem, mas você, bem, sinto que a dor não foi o bastante para te desfazer.

Mas vai ser quando você entender que para cada construção é preciso um terreno limpo e sólido. Começar de novo como você espera requer, antes de mais nada, uma bola de destruição imensa trazendo abaixo os tijolos mal empilhados que você cimentou com paixão, no desespero de construir um lar às pressas.

Pode ser que não encontre as respostas em outras pessoas, porque elas só podem ser perguntas, mas se olhar bem atentamente para si mesma – se estiver de fato procurando – vai enxergar que a resposta é: Ainda não dói o suficiente.

Amanda nos ensinou isso: só pode cessar quando doer o suficiente.

Ainda acredito em você. Quero que saiba disso. Sei que pode ter se esquecido. Ei, garota!, grito a plenos pulmões para o espelho, eu ainda acredito em você. Ainda não dói o suficiente, e por isso você talvez ache que pode suportar, que tudo bem se sentir assim, que a paz não é um sentimento que você tem direito de possuir, de pertencer à ele. Talvez você ache que cair em buracos de dor fervente e escaldante é apenas o único jeito que a vida pode seguir, e que você pode – deve – suportar isso.

Mas vai doer. E ai, quando você achar que não tem mais jeito vai perceber que era isso, tão mais simples do que pensávamos: só pode cessar quando doer o suficiente, quando você der um basta com a doer através dela mesma, porque sabe, querida, a cura para a dor é a dor. Ela é o veneno da sua alma, você acha que vai morrer, mas quando dosa o suficiente ela te salva de todos os nãos e talvezes, dos sims que você sonhou sem saber – porque quando acordou já havia esquecido do sonho. O fim da dor te resgata para uma nova era, onde você é mais forte, mais consciente, mais confiante.

Pode até correr um burburinho pelas ruas, as pessoas vão achar que o fogo no seu coração se apagou. Você sabe o que cantam por ai, e é mesmo verdade, as estradas que temos de andar são sinuosas. É um fato, as luzes que nos levam até elas estão nos cegando.

E ainda tem muitas coisas que eu gostaria de te dizer mas eu não sei como, mas por hoje eu quero que seja capaz de olhar no espelho e saber que no fim das contas você é meu poço de paz, sonhos e proteção. O destino e a estrada. A dor e a cura. A fraqueza e a força. As perguntas e as respostas.

E talvez, – só, sabe, bem talvez – você é aquela que vai me salvar.

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com amor,
muito amor,
muito, muito amor,

cs

É muito difícil responder “não sei” quando alguém me pergunta sobre como ele tá. Minha avó pergunta sempre, ela às vezes me pede pra dançar com ela, porque ele dançava toda vez que íamos lá. De vez em quando eu danço, e rio, mas não deixa de ter um certo aperto no coração.

Saudade é um sentimento louco.

Mas eu não sei como ele tá. É estranho viver coisas de tirar o fôlego, ter medos e conquistar coisas sem nem pensar em ligar pra ele. Eu me dou conta semanas depois, quando já passou e eu pude pensar sobre, que é o que eu teria feito instantaneamente, mas hoje essa possibilidade nem passa na minha cabeça, e a percepção disso é o que torna tudo diferente.

Mas eu não sei como ele tá. Espero que esteja bem, sempre vou desejar, eu acho. Já cheguei a não desejar nada, bem depois da dor, da raiva, da ausência de sentimentos.

É frequente eu não querer saber. Porque foram três as ocasiões em que me contaram coisas sobre ele que eu não podia imaginar, e me doeu. Foram duas as vezes em que ele me viu e fingiu que eu não estava lá. Então, é melhor não saber.

Mas às vezes, só, sabe, bem de vez em quando, numa tarde de quinta, correndo pelo parque, eu vejo as nuances do por do sol ofuscar o olhar de algumas pessoas que nunca conheci. O mundo está cheio delas. As pessoas que nunca conheci, é o que quero dizer.

Algumas são, inclusive, antigos conhecidos muito íntimos. Todos são estranhos, e eu espero que estejam bem, mesmo que eu não saiba de verdade; espero que estejam felizes.

E eu não sei dele, mas eu sei de mim.

Eu, que antes achava que a felicidade era estar com ele hoje estou feliz, porque finalmente entendi: a felicidade nunca pode ser mais do que reconhecer seu lugar no universo, e se sentir bem com ele, sabendo que nesse momento é o único lugar para se estar, fazendo o que você está fazendo após ter conquistado o que você conquistou e vivido o que viveu. Porque estar feliz e estar em paz, são sentimentos que nascem da mesma raiz.

Felicidade é pertencer, não a ele, mas a mim e onde estou. Não quero estar aqui pra sempre, mas amo esse lugar pois ele é único que me permite realizar tudo que eu preciso pra chegar onde sonho. A saudade é um sentimento louco, mas a felicidade é desafiar a gravidade e confiar nas suas próprias asas. 

Confie em mim quando eu digo: tem dias que não dá pra ser mais feliz.

Então, às vezes eu lamento que ele tenha se tornado apenas uma das pessoas que eu nunca conheci – e sei que vovó lamenta que ele não esteja mais lá para dançar com ela – mas mesmo toda essa gente que cruza comigo quando corro pelo parque, todos esses estranhos que nunca conheci, eles tem seus lugares no mundo e eles também podem ser felizes nele, se amarem esse lugar e descobrirem que, por hora, pertencem à ele.

Eu continuo respondendo “não sei” quando me perguntam, mas espero que ele esteja feliz. Hoje eu entendi onde pertenço, o que preciso fazer aqui, e por quem e como – e como às vezes acontece apesar de todos os outros degraus que ainda não escalei, das pessoas que nunca conheci, das tantas milhões de coisas que ainda não fiz ou dos vôos que não me lancei, eu me reconheço onde estou e sei que não dá pra ser mais feliz. E eu desejo isso pra todo mundo, os que conheci e os que desconheci, os amigos e os estranhos e a ele também, que em algum lugar no tempo acaba se encaixando em um desses espaços.

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