As primeiras fotos que eu fiz para o blog foram assim.

O ano foi 2014 e esse espaço aqui, o Horinhas de Descuido, ainda não existia. Minha história com a fotografia começou lá no falecido Caixa-a-a, que hoje em dia tá fora do ar, e ela foi muito por acaso. Eu tive uma aluna uma vez que gostava de fotografar, e eu sempre amei tirar e aparecer em fotos. Na época o meu blog era apenas um blog de textos, como sempre havia sido, e eu queria muito expandi-lo para todas as outras coisas da minha vida que faziam parte de quem eu era.

Quem era eu naquela época?

Uma garota de 20 anos que usava apenas saias para se sentir bem consigo mesma porque cresceu odiando desde sempre suas pernas, e shorts ou calças marcavam muito as coxas e o quadril. Desde sempre eu usava cabelos ruivos, e, por questões de praticidade que só quem tinge o cabelo vai entender, alisava-os para mantê-los hidratados.

O que essa foto nos mostra? Que eu sempre tive a perna trombada e roxa. Que eu amo balanços. Que azul com amarelo é uma combinação muito legal.

É interessante que eu tenha decidido fazer minha primeira expressão artística, sem uso de palavras, em um balanço. Vai ver o meu amor por balanços seja a única coisa que não mudou desde então.

Cores.

Eu vejo muitas cores quando eu penso sobre a adolescente que eu fui. Muito laranja e azul, especificamente. Mas também um bocado de verde, vermelho e roxo. À época eu me considerava uma garota de personalidade forte e decidida. Extremamente racional e muito segura. Usei meu cabelo por muito tempo como forma de expressão, e sentia que sem ele eu não era eu. Até hoje uso, na verdade, mas há mais coisas do que beleza – em sua forma tradicional – que se pode expressar.

De lá pra cá aconteceu de tudo, 7×1 e impeachment foram só as coisas que vocês ficaram sabendo, mas, puxa os acontecimentos internos foram muito mais poderosos do que isso. Seria mais fácil falar sobre o que não aconteceu, até, eu acho. Mas eu quero muito falar sobre as coisas extraordinárias e como eu precisei ir passando fases e enfrentando chefões que eu não estava esperando, no maior estilo Super Mario World.

Ainda em 2014 eu segui a linha vestido e batom vermelho. Porque essa era a única forma que eu conhecia de me sentir confiante e bem comigo mesma. E uma das coisas que eu acho muito importante que você, que está lendo isso agora, saiba, com 20 ou qualquer que seja a sua idade nesse momento: você vai encontrar formas diferentes de fazer as coisas que você está acostumado a fazer, e isso pode ser muito assustador à princípio, mas é importante que você respire fundo e tenha um plano, porque em frente ao novo você pode se deslumbrar – para o bem ou para o desespero – e isso vai te impedir de realizar até as coisas mais simples.

Você não precisa de um vestido rodadinho que não te marca o quadril e um batom vermelho para saber que é linda. Você pode, sim, usar do que precisar para se sentir melhor, mas existem certezas que nada ou ninguém além de você podem te dar, e saber quem você é a maior delas.

Quando as coisas começaram a mudar na minha vida, a primeira coisa que eu perdi foram as cores. Àquela época eu não via isso, mas hoje, depois da tempestade, eu vejo que – muito intencionalmente – eu estava expressando coisas sobre as quais eu não podia dar conta em palavras. E isso é algo que eu também gostaria de falar sobre.

Enquanto escritora eu sempre me cerquei de palavras porque desde que eu me entendo por gente elas foram as coisas que mais fizeram sentido no mundo. Aliás, elas sempre foram as coisas que me ensinaram a dar sentido no mundo. Mas você vai encontrar formas diferentes de fazer as coisas que você está acostumado a fazer, percebe, meu bem? Hoje eu sei que a fotografia ilustra histórias que as palavras não poderiam contar em cores.

Nem sempre você vai precisar de um cabelo comprido e/ou liso para entender que você é bonita. Até porque ser bonita talvez não seja uma prioridade na sua vida, e tudo. Por que o que significa ser bonita? E aos olhos de quem? Mas, se você estiver buscando se amar e se aceitar – e não há nada que eu possa desejar a você além disso – você talvez encontre formas muito alternativas, formas das quais ninguém nunca te falou sobre, de fazer isso. Porque quem você é não está no que as pessoas te disseram sobre você.

Tendo vivido uma vida sem cores eu também me sinto na obrigação de dizer a você que: a forma mais simples de saber em qual lugar você pertence é saindo de todos os lugares nos quais você já esteve. Vou repetir isso até você se cansar. Até que perceba, até que entenda, até que decore.

Desnudar-se de tudo que já te vestiu é a abordagem mais eficiente no caderno de possibilidades para te ajudar a entender sob qual pele você quer estar. A solidão me fez entender isso. Porque nada torna a solidão mais eficaz e entendível aos olhos de quem está sentindo-a do que procurar o propósito dela. O propósito da solidão é se apresentar a si mesmo, e te fazer entender que você se basta. Uma vida em preto e branco também vai te ensinar sobre qual a sua cor favorita.

As pessoas sempre dizem que isso vai passar. Sabe? Não se preocupe, vai passar.

E, olhe, eu não estou aqui para repetir isso. Quer dizer, estou, mas não da mesma forma. Sim, é evidente que isso – o que quer que seja que você está vivendo – vai passar. Não quero que tenha dúvidas. Há um ano atrás eu estava com meu cabelo mais curto do que jamais havia estado, e acho que a razão disso foi eu ter entendido que eu precisava ser mais eu mesma do que o quê eu jamais havia sido. Porque foram muitos – 20 – os anos que gastei sendo o que esperavam que eu fosse. Também estava parando em esquinas para chorar antes de entrar no trabalho, e por algumas vezes voltei o caminho que já havia andado e fui para casa me esconder debaixo das cobertas porque eu não tinha forças para enfrentar o mundo naqueles dias. Foi também nessa época que eu comecei a sair para correr antes do nascer sol porque um céu rosado e endorfina eram a única coisa que me faziam sentir bem. Mas a garota que eu era aos 20 anos jamais imaginaria que uma combinação entre acordar cedo e praticar exercícios daria significado aos meus dias, e tudo bem, porque foi um processo em encontrar novas formas de me sentir bem.

E isso foi apenas há pouco mais de 365 dias. Mas eu não parei de tentar. Eu descobri que eu podia usar uma calça e isso me fazia me sentir muito bem. Por que ninguém nunca me disse isso? Por que era tão importante que eu ouvisse de alguém? Por que eu não desafiei minhas crenças a respeito de mim mesma antes? Eu também tirei o laranjado de vista, porque ele sempre combinou muito com o azul e naquela época a vida andava cinza demais, mas eu também tentava recuperar as outras cores. Cores diferentes, cores para as quais eu daria novos significados. Descobri o rosa. Descobri que eu podia amar rosa e me sentir feminina sem ser vista como “menininha”. O que quer dizer isso, afinal de contas, e por que é uma coisa ruim?

Tudo que o primeiro semestre de 2016 teve de doloroso, excruciante e atormentador o segundo teve de sossegado, pacífico e refúgio. Pelas minhas contas, me levou mais de 600 dias para entender que eu estava passando por um processo de transformação. Culpei o ano ímpar, depois culpei 2016 sem condições de entender que a minha perspectiva em relação ao novo é que o tornava tão horrendo. A negação nos faz rejeitar o novo, porque uma parte nossa sabe que com ele tudo que é velho – mesmo que permaneça – será visto sob um novo olhar.

Então, querida, sim, as coisas vão passar. Mas você ainda vai existir depois que elas tiverem ido embora, e é seu dever como sobrevivente à esse processo, encontrar tudo de melhor que o trajeto – ainda que horrível – vai lhe trazer.

Depois disso foram mais quase 400 dias para entender quem eu seria depois do vazio deixado pela morte da garota que fui. O processo de descobrimento que o cabelo lisinho, preto e curto me deu foi surreal, e eu queria te dizer que, mesmo que você não corte seu cabelo curtinho, o use liso ou tinja de preto, há alguma forma de fazer as coisas à sua própria maneira e desnudar-se das crenças que você possui sobre si mesma porque ouviu das pessoas. Saia de todos os lugares de onde já esteve para encontrar onde você pertence nesse mundo.

Então, o ano é 2017.

Eu tenho 23 anos, e já escrevo há mais de 7, mas encontrei outras artes capazes de mostrar ao mundo quem eu sou. Hoje em dia me arrisco a contar histórias através de uma lente ao invés de uma caneta.

Eu já fui muito, muito feliz, e já fui muito, muito triste. A minha vida, que por muitos anos foi regida pela mesma paleta de cores, já foi tão negra depois de toda saturação da adolescência que eu custava a enxergar um palmo na frente do nariz. E eu já chorei um bocado por conta de coisas que eu me sentia pequena demais para sentir tão grandes.

Eu descobri garotas e mulheres diferentes dentro de mim. E se antes eu era uma, de personalidade forte e decidida, cuja mente guiava cada decisão, eu me fragmentei, me varri e me colei em pedaços de todo tamainho e tamanhão até poder dizer uma definição sobre eu mesma com tanta convicção assim novamente. Em realidade, hoje eu acho que não é, exatamente, as afirmações que fazemos a respeito de nós mesmos que vai dizer aos outros quem somos, sabe, querida? Mas o porque decidimos – e precisamos – fazê-las.

Meu cabelo agora está mais cacheado, como ele era há muito tempo, e também aceito as cores que ele tenta expressar. O batom vermelho, as saias, calças, shorts não me definem mais enquanto pessoa. Porque eu não sou uma mais ou uma a mais. Eu sou uma, e mais.

De todas que fui aprendi algo. E fui. Várias vezes eu fui, e várias vezes elas foram mas há uma parte delas que mora comigo.

A melhor parte. Que eu guardei especialmente numa pasta sanfonada interior que eu chamo de “à todas que por aqui passaram”. E serei sempre casa d elas. Você não diz que um tijolo da base é menos importante que o que está segurando a viga do telhado, porque todos eles constroem a casa – mesmo os que não podem ser vistos.

Eu ainda tenho uma personalidade forte, e já tentei me livrar de cores vezes demais para entender que às vezes todo azul que uma pessoa precisa está no céu, e ele vai combinar comigo sendo meu cabelo laranja ou não. Não importa quantas vezes eu corte ou tinja, meu cabelo sempre vai crescer.

Não importa quantas vezes as pessoas cortem – ou tentem cortar – seus galhos, você vai crescer sempre. E um galho cortado hoje talvez cresça um pouquinho mais pra direita ou pra esquerda do que o anterior que estava ali, porque existem formas diferentes de fazer a coisa ser bonita.

Quando a água evapora ela volta como chuva. Quando uma semente é enterrada, ela floresce. Quando um galho é cortado ele cresce novamente. Essencialmente, o renascimento precisa que as coisas deixem de existir como nós as conhecemos para fazer a sua mágica.

Falar de renascimento é falar sobre a vida, e eu não consigo pensar sobre como fazer isso sem expressar a relação dicotômica que ela tem com a morte. Transformação significar modificar algo que já estava formado ali. Isso às vezes dói muito, pois envolve trocar raízes já fixadas de terreno, mas não significa nunca, sob nenhuma hipótese, que coisas lindas, diferentes, coloridas e muito vivas, não vão mais nascer ali naquele lugar.

“Quando a tempestade tiver passado você não vai se lembrar de como você passou por ela, de como você fez para sobreviveu. Você nem sequer vai ter certeza se ela realmente acabou. Mas uma coisa é certa. Quando você sair da tempestade você não vai ser a mesma pessoa de quando entrou. É pra isso que a tempestade serve.” – Haruki Marakami

Eu queria que você soubesse, meu bem, que navegar por mares inexplorados pode, sim, por vezes, te fazer naufragar. Mas às vezes também te faz abandonar todo o navio enquanto carcaça, e, com muito mais frequência do que se imagina vai te levar à tesouros escondidos.

Aproveite a vista.

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com amor,

lene

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Esse post foi inspirado por um projeto fotográfico chamado essential books no qual se traduz sentimentos literários através da fotografia. O sentimento tratado aqui é Renascimento, e nenhuma histórica específica me inspirou a escrever essa carta senão a história da minha própria vida. Mas as outras participantes do projeto falaram sobre o Renascimento de uma perspectiva literária, e você pode conferir o resultado bem aqui:

Larissa | Cecília | Ana Carolina | Karla | Sammy | Karoline | Vanessa |
Nívine | Mayara | Nina | Marcia | Catrine | Fernanda |

 

Querida,

Já devem ter te falado que você vai se esquecer dele, certo? Que o tempo vai passar e você vai esquece-lo e você vai ficar bem, mas, o que, de fato, significa esquecer alguém? Esquecer alguém é não lembrar dos domingos regados à pamonha? Dos banhos de chuva e risadas? Das surras de cócegas e todos os beijos com gosto de café? Se esquecer alguém significar não lembrar mais do cheiro do perfume ao passar por um estranho na rua, e já não mais virar o rosto eu diria que não, não sei como funciona esse negócio de esquecer.

Como se esquece dessas coisas? Como se esquece do exato peso do corpo de alguém sobre o seu? Como se esquece da pontada no peito que alguém te causa porque te deixa tão sem ar que você não se lembra de ser capaz de respirar direito, ou emitir sons corretamente? Como você se esquece de alguém que sempre foi o seu futuro, mas não está mais no seu presente e preenche cada espaço em branco do que a sua memória classifica como passado? Como se vê origamis apenas como origamis?

Você é capaz?

Você é capaz de passar por alguém na rua com o mesmo perfume de uma pessoa que preencheu cada parte do seu ser e sequer virar o pescoço pra olhar de novo? Algumas pessoas são, pois passam por pessoas e pessoas diariamente sem nunca serem capazes de distinguir a fragrância.

A minha era limão com capim e cassis de fundo amadeirado, mas eu não acho que ele jamais teria se lembrado, meu bem. Não só porque esse era o perfume e eu misturava muito com o creme de lavanda e o sabonete de erva-doce criando uma combinação atípica, mas porque eu já não imagino que ele era assim tão especialista em ler meus detalhes como você me dizia que era.

Não sei se eu tenho a resposta para qualquer uma das perguntas que as pessoas me fazem sobre esquecimento. Mas, sendo sincera, a resposta certa para a pergunta errada pode não significar muita coisa porque a gente não devia estar falando sobre a eficiência da memória aqui.

Todas as perguntas erradas se resumem numa única resposta certa: você pode amar alguém e não pertencer a ela – ou ela a você. Pois o que, de fato, significa, ser de alguém? Por toda a vida nos ensinaram que éramos dos outros. Irmãos de alguém, filhos de alguém, netos de alguém, amigos de alguém, namorados de alguém. Mas não é apenas possível – é necessário – que sejamos nossos. Portanto, não estar romanticamente envolvido com alguém não significa que você precise amar essa pessoa nenhum pouco a menos, e não significa que vá – por vezes você vai amar mais.

A libertação do amor não é quando o amor acaba, ou quando a convivência acaba, ou quando um deixa de estar na vida do outro, ou quando um vai pra outro país e o outro fica, ou qualquer outra coisa que signifique afastamento, isolamento ou perda de contato. Em realidade a maioria das pessoas é capaz de conviver muito com uma pessoa e ainda assim não amá-la ou conhecê-la, entende, meu bem?. Estar junto não significa, de fato, estar feliz. Ou livre, ou amando.

A libertação do amor é quando você sabe que pode amar uma pessoa mesmo que ela não te recompense por isso e você sabe que tudo bem. É quando você sente um perfume na rua e se vira para olhar e isso te faz sorrir, porque você sabe que em algum lugar no mundo alguém que você ama está usando aquele perfume, e você deseja apenas que essa pessoa esteja bem. É quando você não sente que precisa mudar a pessoa para transforma-la no que você precisa que ela seja – magra ou gorda, morena ou ruiva, escritora ou professora, atleta ou cientista, casado ou solteiro, morador de uma cidade ou de outra – porque você vai amá-la independente de qualquer coisa que ela venha a se tornar, por qualquer coisa que ela seja.

Eu vejo muito, o tempo todo, o amor ser associado com reciprocidade. Mas o amor não necessariamente vai ser recíproco, porque ele não é uma recompensa. Não se ama alguém porque ela te ama de volta ou não, se ama alguém apesar disso. O mundo das pessoas vai continuar girando esteja você neles ou não, por isso você pode se libertar de qualquer pergunta que signifique que a outra pessoa precisa, de alguma forma, lembrar do seu amor. E se o amor não consiste em lembrar a falta dele certamente não é esquecer.  O amor não vem, necessariamente, por meio de uma palavra, um beijo ou abraço. Ele é como uma energia que se envia alguém, e não se pode enviar apenas no caso de essa pessoa te enviar também. Falta de reciprocidade não significa, por si só, relacionamento abusivo ou sofrimento.

Você entende um pouco com o tempo, meu bem, que amar alguém não te torna proprietário dela, de modo que ela é livre para fazer o que bem entender com esse amor.

Esquecer a pessoa é esquecer como os cílios dela pode ser longo ou curto, como ela te fazia rir com piadas bobas ou te fazia sorrir com uma pamonha no fim da tarde de domingo. Você nem sempre vai esquecer alguém só porque a pessoa não está mais por ai, mas a boa notícia é que da pra ser livre de alguém sem necessariamente esquecer essa pessoa, entendendo que ela nunca te pertenceu, pra começo de conversa. Pode-se estar livre de alguém junto ou separado, perto ou longe, aqui ou lá.

O amor não é sobre lembrar, é sobre libertar.

Alguns perfumes vão te deixar refém para sempre. Alguns lugares nunca vão entender pra onde foi o amor e porque ele e eu  não vamos mais lá. Algumas árvores vão crescer mais fortes sem a gente pra subir nelas, e algumas flores nunca mais serão regadas e isso não as fará morrer. Há esquinas pelas quais nossas mãos dadas jamais passarão novamente, e garçons de quem nunca nos despedimos. Alguns dias de chuva não serão como eram antes, e não é esquecendo isso que você vai se libertar, sabe, meu bem? Mas se libertando você talvez seja capaz de esquecer.

A cura não é sobre esquecer, é sobre libertar-se. Não só de tudo que foi, mas – e especialmente – de tudo que poderia ter sido.

E se você me perguntasse eu diria que a libertação vem de várias formas. Eu ainda não consigo beber achocolatado em copos sem me lembrar da sensação gostosa do alumínio gelado nas minhas mãos. Mas hoje é quarta-feira e eu comi uma pamonha muito boa. Você pode descobrir o que funciona melhor pra você, e, se não souber por onde começar, vá e molhe seu rosto na chuva. Nem todas as fragrâncias vêm de flores reais e plantadas, mas até mesmo os jardins de papel precisam de novos motivos para continuarem existindo.

Vá, molhe seu rosto na chuva. Você pode até estar molhando sozinha, mas isso não significa que não vai estar sendo amada.

 

com todo o amor de mundo,

e um respingo de chuva

M.

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19/04/2017

Poetas A-A

Tem alguém que saiu da sua vida que você diria alguma outra coisa se pudesse?

É um grande clichê, mas eu penso muito sobre o fim das coisas quando penso na morte. Escrevi no meu último texto que a morte é apenas o nome que se dá quando alguma coisa chega ao fim. E, essencialmente, isso significa que todas as coisas vão morrer. E, sabe, a morte de alguém não significa que essa pessoa não existe mais, ou que ela está sete palmos debaixo da terra. Significa que você não pode contactá-la. Significa que não importa o que te aconteça essa pessoa não pode te ajudar. Significa que ela não está aqui mais, e você está, e você vai viver coisas – novas coisas, grandes coisas, coisas assustadoras – sem ela sequer ficar sabendo.

E, sendo bem sincera, a gente não pensa sobre isso direito no dia-a-dia. E tudo bem, porque a morte é o tipo de assunto que torna a vida muito diferente e nem sempre isso é o que deveria ser. Esperar que todo mundo entenda o valor das coisas – das pessoas, das relações – antes da morte não é realista. É como esperar que todo mundo vá se tornar poeta. Algumas pessoas simplesmente não tem o quê precisa.

E, de fato, encarar a fragilidade das coisas é uma condição que requer cautela. E o mundo não é feito de pessoas cautelosas. Você sabe, nem todo mundo vai se tornar poeta. Mas você sabe como é ligar para alguém que você sabe que não vai te atender?

Ligar para alguém que está morto é como esperar que todas as pessoas se tornem poetas. Não pode ser feito. Não pode ser atendido. É uma chamada sem fim, na qual, a cada segundo, você espera que o turu-turu seja substituído por um Alô, que, você sabe, os mortos não podem dizer. E os mortos, mesmo aqueles que encheram a sua vida de vida, não podem falar sobre essas coisas. Porque a morte é o fim das coisas como nós a conhecemos. Por isso às vezes matamos pessoas em nós. Não porque esperamos que elas deixem de existir, mas porque esperamos – precisamos – que elas deixem de existir como nós as conhecemos.

E existem pessoas sobre as quais não podemos dizer certas coisas. Ou pensar certas coisas. Porque elas são queridas demais à nós para que aceitemos que morreram. Existem pessoas que seguram consigo, para sempre, mesmo depois do fim, uma parte nossa. Tão intrinsecamente nossa, de quem éramos, que aceitar a morte da pessoa se torna muito mais difícil pois sabemos que não é apenas à ela que estamos dizendo adeus, mas também à todo eu que éramos enquanto aquela pessoa vivia. Nós seguramos conosco os fragmentos dos outros.

Os outros seguram com eles os nossos fragmentos.

É uma parte do que torna as coisas eternas. Ao morrer eu me diluo de mim e existo, meio aguada, meio fosca, naqueles que me carregam. Isso faz de mim eterna. A morte não pode ser meu fim pois eu não vivo só em mim.

Dizer adeus. Perder alguém. Encarar a morte. São ações que nos custam. Mas vamos ter que fazer isso. Repetidas vezes vamos ter que fazer isso. E nunca vai haver um jeito certo de fazer. Alguns de nós ainda ligam para os mortos sabendo muito bem que se trata de uma linha muda. É curioso como às vezes ao tentar contactar uma pessoa que se foi o que nós estamos fazendo, na verdade, não é esperar que ela volte, mas que traga consigo todo o nós que existe nela.

Por isso, tem alguém que saiu da sua vida que você diria alguma coisa se pudesse? Tem algum alô que você espera ouvir, que faria alguma diferença? Você já teve um dia tão ruim que só uma pessoa que já te conhecia muito antes de você deixar de existir como você conhecia poderia te resgatar de uma existência na qual você não possui mais os fragmentos de si mesmo?

Eu já te disse tudo que eu precisava. E mesmo que haja uma nova infinidade de coisas que aconteceram depois, fragmentos do meu eu que você nunca vai ter acesso, tudo bem. Pois há uma caixa novinha em folha com uma porção de cartas que dessa vez vai realmente ficar apenas comigo. E, sim,  às vezes me falta ouvir as palavras que as minhas frações em você diriam de mim mesma.

Escrevi, por anos, cartas de amor a seu respeito muito ciente de que elas deveriam ser cartas de apenas amigos. E agora guardo quilos e mais quilos de tinta e lágrimas em papel em uma nova caixa do que poderiam ser apenas anônimos.

Pois você não é quem era quando eu deixei um fragmento meu contigo. E é no não sabendo quem você é que eu sei, só pode ser muito diferente do você de antes para deixar morrer o meu eu que te confiei. Entendo que é no enxergar as coisas – como nós as conhecemos – morrerem que aprendemos a enxergar a vida – como não a conhecemos – nascer. Mas o custo é sempre a morte.

O custo da vida é sempre a morte.

Se eu pudesse te dizer algo, logo a ti, razão das minhas primeiras cartas guardadas numa caixa de sapatos, logo a ti que sempre me leu muito bem, que sempre atendeu minhas ligações, eu diria que acho que tudo bem você não enxergar isso. E tudo bem não se enxergar nisso.

E tudo bem não atender o telefone.  Não são todas as pessoas que vão se tornar poetas e encontrar beleza em todas as coisas. Em todas as mortes. Em todas as dores. Em todos amores.

Mas todas vão sim, em algum momento, se tornar poesia.

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