Esse post é um convite, você não precisa aceita-lo se não quiser. Mas se não estiver disposto a sequer considerar mudar o curso da sua viagem eu peço que desembarque agora. Porque eu estou farta, sim, mas essa aqui ainda é uma tentativa. Porque há certas coisas a respeito das quais nunca devemos nos calar.

Você deve ter visto nos jornais, lido no facebook, acompanhado os topic trends no twitter ou ouvido falar no grupo da turma. Se você é um potterhead e cresceu fazendo amizades em filas com desconhecidos e sendo ensinado a dividir as conquistas – as lutas e os medos – com os seus amigos você, bem como eu, chorou de felicidade quando soube que J.K.Rowling, a própria rainha da nossa infância, estava escrevendo um roteiro para os cinemas com a intenção de revisitar e remodelar o mundo mágico.

E então você soube que o velho capitão Jack Sparrow estaria nele e você também vibrou com isso. Porque, certo, sabemos que Johnny Depp está sempre se fantasiando e se mascarando debaixo dos personagens. Mas enxergar isso também não significa que não tenhamos dado umas boas risadas com ele e o Pérola Negra, também está longe de querer dizer que ele não tenha feito um trabalho excelente em Edward Mãos de Tesoura, e que, apesar das opiniões divergentes, ele não possa ser um bom ator – talvez seja um ator bem melhor do que qualquer um de nós sequer pensou que ele pudesse ser.

Mas ai você viu, em Maio passado, que Amber Heard a então esposa de Depp havia pedido divórcio, preenchido uma solicitação para que ele fosse legalmente impedido de chegar perto dela (através de uma ordem de restrição), e entregado vídeos, fotos, mensagens de textos e um olho bem roxo como prova de que seu esposo estava batendo nela e sendo violento dentro de casa. Pode ser que você até tenha chegado a pensar que essa oportunista de uma figa estava tentando jogar o nome do seu querido ator para debaixo do ônibus, porque, afinal, ela deve estar querendo uns 15 minutos de fama. Aliás, quem ela pensa que é para acusar alguém de violência doméstica quando ela mesma foi presa por maltratar a ex-namorada em 2009?

Esse post é um convite, porque vocês precisam parar para pensar sobre o que a história de uma pessoa significa. E como é errado usa-la para diminuir a pessoa quando você não está disposto a ouvir o lado dela, mas aceita qualquer coisa que joguem pra você como a verdade universal.

É perigoso quando pessoas em posições de poder começam a repetir discursos engessados por termos e contratos. É vergonhoso que uma mulher como J.K.Rowling libere uma nota em seu site oficial dizendo que se sente triste por não ser livre para falar abertamente com seus fãs sobre o caso, e que não devemos emitir parecer sobre o que acontece entre duas pessoas. É vergonhoso porque não apenas sabemos que J.K.Rowling superou um marido agressor – não sozinha! – o que idealmente significaria que ela se posicionaria contra ter um homem violento ganhando rios de dinheiro e fama sob seus holofotes, como também sabemos que é muito possível recomeçar projetos e re-escalar atores e atrizes novos para personagens. Foi o que fizeram quando os abusos de Kevin Spacey foram trazidos à tona.

Christopher Plummer foi tomar o lugar de Spacey em um filme que já estava com as filmagens encerradas. A NBC demitiu o Matt Lauer, um de seus apresentadores mais bem pagos, por conta de uma acusação que levou à uma investigação sobre ele. Até mesmo o Senador Al Franken, nos Estados Unidos, está enfrentando uma processo investigativo por conta de um abuso que cometeu dez anos atrás quando ainda era comediante.

Em grandes partes a pergunta não é se podiam ou não terem demitido o Johnny Depp e escalado um outro ator. A maior pergunta que precisa ser feita aqui é por que não quiseram?

É um fato que quando homens são acusados de violência contra uma mulher algumas mulheres em sua vida aparecem para defende-lo e dizer que ele nunca foi inapropriado, como foi o caso da outra ex-mulher de Johnny Depp, Vanessa Paradis, dar depoimentos dizendo que ele nunca abusou – como se isso fosse suficiente para indicar que ele não poderia ter feito diferente com qualquer outra pessoa.

Sim, acredito em padrões de comportamento. Mas também acredito que para uma coisa acontecer basta que ela comece a acontecer. Não há um único homem sobre a face da Terra que tenha nascido abusador, estuprador ou violento. As pessoas se tornam quem elas são, o problema maior que se fala aqui, o convite que faço, é para que tentem parar com o endeusamento agudo dos seres humanos como se eles não fossem passíveis de erro. As pessoas são corrompíveis.

“Eu te venero”, “Minha deusa”, “Rainha soberana”, entre os outros termos que se popularizaram não são uma demonstração de carinho. São um redirecionamento do que é perfeito e sagrado para lugares onde o perfeito e sagrado não podem estar. Johnny Depp é apenas um homem, J.K.Rowling é apenas uma mulher e não importa quanto carinho tenhamos por eles, quão importante estejamos apegados na memória afetiva, o quanto tenhamos rido ou chorado pelo prazer de suas companhias: ambos podem, e vão, errar.

O que me incomoda aqui não chega nem a ser a violência em si, eu acho. O que me incomoda aqui é o silêncio. Johnny Depp poderia estar pagando pelo que fez, poderia até seguir sua carreira no futuro. Mas o que ensinamos aos homens quando dizemos que podem estar acima da lei? O que ensinamos às mulheres quando dizemos que serão acusadas de loucura ou puro interesse financeiro ao denunciar alguém?

Eu não escrevo esse post como quem diz que a violência não existe, ou acredita que ela não vai existir. Eu escrevo esse post como alguém que acredita que fingir que ela não está aqui perpetua sua existência na vida de centenas de milhares de mulheres que jamais vão se sentir confortáveis para falar sobre o que passaram porque sabem que vão perder emprego, serem vistas como histéricas, loucas ou exageradas que entenderam errado. Veja, não foi isso que ele quis dizer!

Quando um homem acusou Amber Heard de bater em sua ex namorada num aeroporto, em plena vista de todo mundo que viu aquilo não estava acontecendo, a própria ex namorada, Tasya van Ree precisa dizer que não foi aquilo que aconteceu e tira-la da cadeia (informando no ano passado que é um absurdo que essa história infundada prejudique o julgamento das pessoas sobre Amber, que jamais a agrediu). Mas quando a própria mulher acusa um homem de bater nela, mostra os vídeos, os exames médicos, as mensagens e as fotos do que aconteceu, certamente não podemos confiar nela, porque esse homem não tem um histórico de violência.

Quando um homem abusa de outro homem ele é demitido, tem sua carreira destruída e não importa quão bom profissional ele seja, não estamos dispostos a trabalhar com ele ou apreciar sua fabulosa atuação. Mas quando um homem abusa de uma mulher devemos lamentar a falta de liberdade para falar sobre isso e exaltar sua presença numa franquia que ensinou todas as pessoas em pelo menos duas gerações a se posicionar contra o que é errado, independente de quão difícil pareça fazer a coisa certa?

Nós jamais saberemos como Amber Heard conseguiu aquele olho roxo. Não estou aqui para julgar o que aconteceu ou deixou de acontecer. Em momento algum eu militei à favor de Amber como se absolutamente cada palavra que ela disse fosse verdade. Mas por que parece tão fácil aceitar que tudo é uma mentira? Porque veneramos os homens como se estivessem acima da verdade e da justiça e aceitar que sejam capazes de maldades destruiria todo um imaginário que não passa disso – um imaginário.

Ontem eu li um depoimento incrível de uma mulher que foi abusada quando criança e disse que isso não mudou sua vida. Que ela conseguiu seguir, que ela foi feliz, que ela mal lembra do acontecido. No texto ela dizia que entendia que as coisas tinham sido assim para ela porque no exato momento em que ela delatou seu abusador, no auge de seus oito anos de idade quando ele era um adulto, sua família inteira acreditou nela e tomou as devidas providências. Ninguém achou que era uma invenção infantil, ninguém disse que a culpa era dela por ir brincar no parquinho, ninguém disse que devia ser uma brincadeira e que ela tinha entendido errado.

O que me incomoda aqui é o silêncio porque o que acontece quando calamos uma mulher e ignoramos o seu pedido de ajuda, é que o seu abusador se torna mais potente, maior, mais seguro, mais corajoso de continuar tentando obter poder às custas da humilhação alheia, porque ele sabe que vai sair impune. Não podemos combater um mal que não existe, e se achamos que ele é grande demais, por que não simplesmente ignora-lo?

Quais são as vozes que ressoam mais alto sobre a multidão, e por que elas tapam gritos agudos e desesperados com as mãos? O silêncio é a própria violência. Uma pessoa sem voz é uma pessoa apagada do seu direito de contar sua própria história, do direito de fazer História.

Não acho que absolutamente todas as mulheres que já acusaram um homem de abuso sejam pessoas 100% íntegras e sinceras, porque eu tenho a minha cabeça no lugar e não venero corpos de carne e osso. Mas não parece errado presumir que 100% delas esteja mentindo? Que é errado destruir a carreira de um homem assim? Que pode até ser que ele tenha feito o que dizem que fez, mas não estamos interessados na vida pessoal dele e sim em quão bem ele faz seu trabalho?

Espere… O QUÊ?

Vocês permitiriam que um pedófilo fosse professor por que ele é professor excelente? Vocês permitiriam que um assassino fosse médico porque ele opera tão bem? Por que quando se trata das violências contra a mulher tratamos de colocar todas as outras opções acima da simples possibilidade de que talvez seja necessário investigar o caso pois pode ser que seja verdade?

Há de esperar que se entenda tudo o que não é dito à partir do que é dito. Quando uma escritora diz “vou dizer tudo que posso sobre o caso de Depp no elenco” entendam que há algo que não se pode dizer, que não é dito. Quando se diz que “a incapacidade de falar abertamente sobre isso com os fãs tem sido difícil, frustrante e por vezes dolorosa” não justifica a tentativa desesperada que milhares de pessoas fazem diariamente em se comunicarem com J.K.Rowling e são bloqueados. Os contratos podem ser desfeitos, os atores podem ser escalados novamente, eu não sei se os abusadores serão presos, mas eles devem sim ser investigados.

Os Crimes de Grindewald só vamos descobrir no ano que vem, mas os crimes de quem tem voz e a usa para apagar o pequeno suspiro de esperança dos que não tem eu convido agora para que olhem mais de perto. Ouvi dizer por muito tempo que eventualmente chega o momento de decidir entre o que é fácil e o que é certo. Pra falar a verdade, hoje eu não sei mais quem disse isso, mas gosto de pensar que quem quer que tenha sido, teria me incentivado a olhar um pouco mais de perto ao invés de acreditar cegamente na primeira história que foi repetida, recontada, aumentada – ou pior, recortada – para se perpetuar como verdade.

Você merece o amor.

Me parece como se tivessem se esforçado para nos fazer acreditar que em toda a nossa imperfeição não poderíamos ter merecido e que era necessário sermos menos errados, menos tortos, menos bagunçados e menos fragmentados pra merecer um sentimento tão completo e acolhedor como este. Mas eu quero te dizer – e peço que leve isso em consideração; tente acreditar – que você merece o amor, e já merecia antes de estar pronta pra ele.

Pode ser que não sinta que está. Em muito eu acho que não importa o quanto se remende um coração, há rasgos nele que às vezes se tornam profundos demais para sair por ai distribuindo confiança aos outros. Mas há uma cura – sim, há – e a cura vem em pequenas doses. Se sentir em paz é como estar bêbado, não vai acontecer depois de um único gole.

Também não existe esse negócio de esquecer as pessoas. Pois o que realmente é a memória além de um sequestrador das imagens dos outros que os mantém eternos reféns do que precisaríamos que eles tivessem sido ou desejamos que fossem?

Mas não se esquece, se lembra; entendendo que há um fluxo de tempo que não permite às verdades da cabeça que permeiem o mundo real. Tudo que sabemos sobre quem as pessoas foram está no passado, porque não conhecemos quem elas são, apenas nos  lembramos do que elas quase foram.

Então no fundo, ser capaz de realmente conhecer alguém é uma espécie de milagre.

Porque as pessoas que criamos são apenas isso: uma criação da nossa imaginação fértil. Enquanto a verdadeira identidade das pessoas é bem real e está por ai desesperada por uma chance de aparecer. Embora, sim, você tem razão! Tem um bocado de gente sem saber quem é e que aceita vestir essas nossas próprias propostas de máscara. Isso nunca dura, pois eventualmente descobrem como é bom entrar em paz com a identidade.

Nós não podemos mudar as pessoas. Nós não podemos transforma-las no que precisamos naquele momento. Os outros não existem para nos reparar – as pessoas também precisam delas mesmas para remendar seus próprios corações.

É tão injusto esperar de um namorado que cuide de mim como pai porque eu não tive pai, ou de uma amiga que me dê abertura para viver uma vida livre de amarras porque eu sempre fui presa, ou de uma irmã que seja responsável e tenha um emprego, e faça o jantar porque a mãe que a vida me deu nunca estava em casa.

Os relacionamentos não podem – nunca – ser mais do que duas pessoas remendadas após muitos rasgos, tentando se aquecer. Tem gente que é quente como o fogo, e há os outros tão gélidos como a própria morte. Exigir que as pessoas sejam para nós mais do que elas podem ser para elas é rasga-las tanto quanto dizer que quem elas são não basta.

Mas o outro nunca me basta; eu me basto.

Tudo que nós somos precisa do outro para existir, é verdade. Eu não posso ser uma tia sem um sobrinho, tampouco uma amiga sem amigos ou uma namorada sem um namorado. A identidade precisa sim do espelho que as pessoas seguram para que eu veja o meu reflexo sendo ressignificado, mas não é o outro quem determina essa identidade, é a própria interação, é o laço em si e as pessoas que o fazem.

O medo é um escudo, eu sei. É uma muralha, é a armadura de guerra, é o forte no porto. É tudo aquilo capaz de segurar um coração sem rasga-lo aos pedaços como da última vez. Mas o medo não é só o que impede as pessoas de entrarem, é também o que me impede de sair. Se tudo que eu ofereço é um espelho as pessoas não me vêem, vêem apenas o reflexo delas mesmas.

E eu existo. Eu ainda estou aqui. Eu mereço o amor. E eu sou mais que o espelho – eu sou mais do que as pessoas precisaram que eu fosse.

O medo… não! O medo não é a única coisa capaz de segurar um coração com delicadeza sem rasga-lo aos pedaços. Cada mão que escolho entregar esse coração pode escolher fazer isso. Não porque eu mereço, mas por causa do caráter delas.

Amar alguém pelo quanto ela pode se tornar quem precisamos que ela seja não pode ser amor, por que o que sobra quando precisarmos de outra coisa, além de tantos fragmentos de um espelho quebrado e uma coleção de memórias forjadas que não dizem respeito a quem a pessoa realmente é, mas de como achamos que ela era?

Você merece o amor. Pode achar que não merece. Pode ter medo de aceitar que merece por ter costurado o sentimento à memória das pessoas que o projetaram em você. Pode achar que não tem o suficiente em si para oferecer de volta. Há uma porção de talvezes que eu poderia citar aqui.

Não se assente por menos do que merece, não confie no retrato que a memória criou de quem só existe no passado. Todos nós já tentamos moldar alguém para caber nas nossas lacunas, não quer dizer que essas pessoas existam.

Deixe todas essas coisas onde elas pertencem, e então continue: porque você merece.

O perdão não é uma coisa que se faz pelo outro porque ele merece ficar livre, é uma coisa que se faz por você porque você não merece carregar o peso que é de outra pessoa.

Foi a forma dele de me olhar que fez com que eu entendesse tudo nos três segundos que antecederam os fatos. Antes de ele me beijar eu soube que aconteceria, por causa da forma que ele me olhou.

E esse primeiro beijo não foi uma cena de filme conforme eu teria escrito, até porque ele não tem nada em comum com o roteiro de amor que eu pensei que escreveria, mas há um fato inevitável sobre ele que nunca posso ignorar: é que ele sempre vai me surpreender de formas inusitadas. Já até aconteceu de eu me pegar chorando por conta dessas surpresas, embora quase todas tenham feito um fio de energia percorrer toda a minha espinha, como aconteceu no dia que ele me beijou desroteirizadamente.

E eu lembro de tudo, antes e depois desse beijo. Mas o que realmente eu me lembro bem, com correção de cores e riqueza de detalhes, é do segundo beijo. Eu vi o beijo antes de ele me beijar.

A principal coisa que eu me lembro é de como ele parecia certo de que queria inclinar seus lábios em direção aos meus e tocar sua mão quente no meu rosto com delicadeza enquanto a outra se apoiava na minha cintura por debaixo da minha blusa. Eu sabia que ele não tinha toda aquela certeza, mas fez com que eu sentisse que tivesse. Talvez tenha apertado os dedos com um pouco mais de força em alguns momentos, porque achou que eu fosse embora, mas eu não ia.

Era como se ele tivesse todo o tempo do mundo para esperar o sol chegar. Aliás, dessa vez nem acho que ele pensou que fosse amanhecer, era mais como se estar ali ao meu lado fosse a única opção. Eu me lembro com perfeição porque foram poucas as vezes que uma língua quente se aventurou por entre meus lábios não como se depois disso qualquer outra coisa fosse acontecer, mas com paciência e satisfação em estar naquele momento e apenas nele como se nada mais no mundo existisse além de nós dois – nenhum futuro, nenhum passado. Foi lentamente, e apaixonado o suficiente.

Sei que suspirei. Lembro disso.

Lembro porque ele fez com que eu me sentisse um livro antigo guardado numa estante empoeirada quando mãos desconhecidas, ávidas e curiosas o tocam pela primeira vez. Ele era o explorador, eu era a aventura e esse não é o tipo de sensação que se esquece. Não é o tipo de satisfação que vai embora mesmo quando as páginas foram viradas, a história foi lida – e vivida. A maioria das coisas sobre esse tipo de amor é o que fica mesmo depois de se devorar um livro de capa a capa numa única madrugada ou ler um capítulo por dia com medo do vazio que a magia deixa quando o epílogo finalmente chega.

E o negócio das histórias é que você sempre sabe assim que começa a folhear um livro e ler a dedicatória, que eventualmente aquele universo inteiro em tinta e papel vai embora e você vai fechar aquelas páginas. Mas a sensação de pertencimento quando um abraço te faz esquecer desse adeus é como descobrir a América – não é exatamente onde se pretendia chegar, mas é tão, tão, tãaao maravilhosa que tira o fôlego. Ele sempre foi meio apaixonado pelo mistério das histórias inexploradas, mas eu gosto de pensar que teria se dedicado a ler e reler algo que fosse forte o bastante para mudar sua vida.

E já haviam segurado a minha cintura antes, mas não como se a minha presença fosse mais importante do que o medo da solidão. E é um fato certo que eu já tinha sido beijada antes, mas não como se meus lábios fossem o próprio oxigênio e ele tivesse passado horas se afogando. E eu já havia percorrido meus dedos por outras costas antes, mas não como se aquele fosse um mapa para o único lugar que eu precisava chegar. E eu já tinha sido amada antes, mas não como se tudo bem o próprio amor entrar em colapso e explodir porque essas faíscas só significariam mais luzes na noite e mais estrelas no céu. E também não é como se eu nunca tivesse amado antes, porque já tinha, mas não como se algo habitando um buraco esquecido em mim acordasse pra dizer que sempre estivera esperando aquela sensação explodir para ser acordado.

Eu vi o amor antes de ele me amar.

Eu não poderia ter colocado esse amor num roteiro. Embora seja, sim, uma história bonita. É só que se distancia muito do romance que eu achei que fosse escrever. Eu gostaria de ter falado sobre espaguetes com manjericão fresco, domingos, dois controles no sofá da sala e uma camiseta maior que eu pendurada na porta do banheiro enquanto uma de suas mãos desmanchariam os cachos do meu cabelo e a outra seguraria um livro enquanto eu estivesse deitada ao seu lado ouvindo sua respiração, mas eu reconheço a magia dessa história real conforme ela se apresentou, e como se dispôs a ser contada – não acho que seja uma história menos bonita.

Ele me surpreendeu de todas as formas que é possível de se surpreender alguém, me disse coisas que eu nunca pensei que fosse ouvir e me fez viver sensações que nenhuma ficção me contou que existiam – e não foi menos amor por nada disso. E eu lembro de tudo, antes e depois desse beijo, de tudo que eu achei que a história seria, e de tudo que ela foi é. As histórias se eternizam em nós e através de nós, de modo que vivem para sempre. É só que de vez em quando eu me pego pensando no quanto a gente é realmente capaz de influenciar as pessoas, e se eu causei nele faíscas o suficiente para se equipararem às que ele causou em mim.

Foi a forma dele de me olhar que fez com que eu entendesse tudo nos três segundos que antecederam os fatos. Antes de ele ir embora eu soube que aconteceria, por causa da forma que ele me olhou e depois não olhou mais. Não daquela forma – nunca mais.

Ele me pediu – e em um roteiro perfeito eu teria feito um plano fechado do momento em que soltei sua mão e deixei, mas esse roteiro não teve nada disso. Então ele se foi, sem olhar nos meus olhos.

Eu vi o adeus, antes de ele dizê-lo.

 

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