Eu podia sentir que ele me amava em cada aspecto que é possível de se amar alguém. Nas coisas que se podem ver e nas que não se podem, no entanto, quando ele olhava pra mim eu sentia a colisão dos sentimentos dele com os meus emergirem de dentro pra fora. Acho que eu brilho mais forte perto dele, mas não sei se ele sabe que também é uma parte da combustão.

O amor, eu acho, começa como uma admiração antes de queimar e brilhar.

A gente admira as pessoas pelo que elas escolhem ser, apesar do que a vida insiste em torna-las. Há quem escolha ser forte, ou ao menos se sentir forte mesmo que não seja, pra conseguir continuar. 

Eu soube desde o primeiro momento que ele me admirava, mas eu não tenho certeza se ele soube que era recíproco. É curioso como a gente pensa pouco de si mesmo.

Ninguém esteve tão presente no nosso inverno quanto nós mesmos. Ninguém acompanhou tão de perto quando apareceram pra roubar os frutos, ninguém viu a troca de cor das folhas – uma a uma. Só a gente que viu, centímetro por centímetro, quando a seiva começou a nutrir as folhas, tão antes de elas caírem ao chão. A gente é quem sentiu os galhos sacolejarem e depois se partirem. Só a gente sabe quanto frio fez.

As flores são bonitas, e as pessoas as vêem de longe. Mas é curioso como a gente pensa pouco de si mesmo, porque ninguém esteve tão presente no nosso inverno quanto nós mesmos.

Em muitos aspectos eu acho que ele me lembrou um pouco das belezas simples. À distancia a lua é linda e iluminada, mas de perto é cheia buracos, vazios e muitas coisas que um estrangeiro não pode conhecer até ter chegado perto o suficiente.

Coração dos outros é terra estrangeira pra gente. Ainda não tenho certeza de que um dia o conheceremos bem o suficiente pra ganhar cidadania e visto permanente pra viver de perto cada detalhe, mesmo as crateras mais fundas.

Eu poderia fazer uma lista de todas as coisas que são bonitas de longe: café fervendo, a lua e as estrelas, o século XVIII, peixes com escamas azuis brilhantes, tulipas roxas, o coliseu, a vista do alto de um despenhadeiro, o mar.

Nem tudo a gente pode chegar perto o suficiente. Ô mania de querer tocar as coisas intangíveis.

Uma estrela brilhou no nosso encontro, ele disse – antes de me tocar.

Quando duas estrelas colidem e uma delas é mais densa que a outra ela absorve o calor e juntas se tornam uma maior. É o que chamam de globular cluster. Quando uma estrela pouco quente e viva – a vermelha, que já queimou muito hidrogênio – colide com uma estrela mais densa e viva que ela – a azul, com mais massa e que queima hidrogênio mais intensamente e por isso é mais inflamável – ela pode se tornar tão quente que fica azul mesmo tendo sido vermelha a vida toda. É o que chamam de blue sttraglers.

A gente não entende o que torna as coisas bonitas. A beleza que podemos ver é apenas o que sobreviveu aos colapsos e combustões. As flores só são bonitas à distância porque nós não vemos quão perto da morte elas chegaram no inverno – se soubéssemos veríamos as flores como um deboche na cara da morte.

Por isso que quando ele olhou pra mim e disse que eu era uma das coisas mais lindas que ele já tinha visto, eu sabia que não era sobre as flores que ele podia ver mas sobre cada vento e neve que eu contei que tinha enfretado, mesmo que para ele a estação mais fria ainda esteja na metade.

É mais difícil pensar pouco de nós mesmo quando tem alguém logo ali nos lembrando constantemente de que somos maiores do que o inverno. Ele não precisava lembrar, ele precisava descobrir. Nem toda beleza que eu vi nele foi suficiente pra que ele brilhasse.

Uma parte de todas as coisas lindas sempre vai ser que nem a lua, cheia de buracos e vazios que nenhum estrangeiro pode conhecer até ter chegado perto o suficiente. Eu queria muito que ele pudesse ver motivos para continuar emitindo calor e brilho apesar disso, porque quando a estrela dele colidiu com a minha e ele me informou em um idioma mágico que o céu se iluminou de um jeito diferente, ele não sabia, mas ele também era parte da combustão.

É uma pena que por vezes demais a gente se acostume com o inverno para entender o fenômeno que começa com pequenas sementes se descongelando e brotando em terrenos áridos e quase inférteis. Mas eu ainda vou continuar admirando as flores, as luas, as estrelas e as pequenas belezas de quem se veste de força pra se sentir quente e continuar.

Mesmo de longe.

Porque ainda em seu inverno, ele me olhava como se eu fosse a coisa mais linda que ele já pudesse ter visto, e isso foi antes, durante e depois de tropeçar nos buracos e vazios deste corpo solar reluzente que sobrevive e brilha com mais luz à noite. E eu posso sentir, independente dos quilômetros de distância invernal que nos separam.

Eu nunca falei isso.

Não pra você, não em voz alta. Nem pra mim mesma, porque as palavras tornam tudo real, e pronuncia-las é trazer à existência coisas que não existiam, ou que existiam mas podíamos ignorar antes de serem verbalizadas.

Mesmo não dizendo eu sentia. E percebo agora que é muito difícil modalizar sentimentos para que pareçam com o que precisamos que eles sejam. Eu não poderia ter deixado você ir embora sem que soubesse, sem que conhecesse o sentimento real que eu sinto, ao invés do que o que eu achei que deveria ser.

Foi o que me trouxe aqui. As palavras sempre me buscam quando tento me esconder, por tempo demais, das verdades. Tempo demais em silêncio também me faz organiza-las melhor, é na saudade que as palavras me abraçam como se nunca tivessem ido embora.

Não sei se algum dia você vai ler esses pedaços de alma que espalhei no meio das letras e perceber que poderia ter amado essa mulher, mas não vejo como isso vai fazer diferença, já que daqui a pouco eu não serei mais ela. Mas eu vou me esforçar, pois prezo pela sinceridade nas coisas e a guria que eu sou hoje quer te contar algumas coisas – eu não quero mais me engasgar na tentativa de conter as palavras dela.

Talvez foi a minha síndrome de tentar fazer as pessoas se sentirem melhores. Foi a minha tentativa de permitir que as pessoas – você – contassem suas histórias e fossem ouvidas. Foi aquele negócio que eu sempre faço, de ser muito doce e prestativa, compreensiva e amável. Disponível e receptiva.

Foi tanta coisa. Foi quase tudo antes de ser qualquer coisa, porque você foi pra mim a maior possibilidade que eu tive desde que eu decidi aceitar o talvez. Você não foi um quase talvez. Tudo em ti era um talvez certo. Seu jeito de me dar bom dia nas primeiras semanas, a forma como você queria compartilhar coisas pequenas, o fato de que você estava passando por grandes coisas na sua vida e falar sobre isso comigo o tranquilizava. Os teus segredos só a mim confidenciados, os conselhos que eu dei sem você pedir. O dia que eu li sua personalidade quase tão facilmente como a cigana lê o futuro com algumas linhas na palma d’uma mão aberta.

Tudo, absolutamente tudo em você gritava Talvez pra mim.

Você gritou tão alto depois de um período tão grande em que eu passei navegando em silêncio que não tinha como eu não ter ouvido. Foram meses e meses sem nada além de um mar azul e o eco da minha própria voz.

Eu nunca falei isso. Não em voz alta, não pra você. Eu não sei até hoje se você foi a tempestade ou o bote salva vidas, o deserto ou o oásis, a noite ou as estrelas, mas o fato é que eu gostaria muito que você olhasse pra esses pedacinhos de alma que espalhei no meio das palavras e entendesse como o seu talvez amor talvez tenha me mudado, me aquecido e me partido. Muito antes de toda essa maré ter virado meu barco.

Eu nunca vou dizer isso. Não em voz alta, não pra você, mas eu quase tenho certeza de que eu queria muito que o seu talvez tivesse ficado. Que sentimento é esse eu não sei, talvez nem tem nome. Talvez eu chamasse ele de você, de amor, de querido. Se você não tivesse me mudado, me aquecido e depois partido, talvez a gente descobrisse.

As chances são grandes de que mesmo quando você olhar pra trás e perceber que talvez tivesse amado essa mulher, mesmo lá, a gente não descubra mais.

 

Minhas amigas disseram que você e eu éramos uma boa ideia. Todas elas, sem exceção, disseram que eu não tinha nenhum motivo pra ter medo ou ir embora de uma coisa que nem nome tinha ainda. Mas eu tentei ir, porque eu sabia o nome que ia ter depois.

Sabe, eu me conheço.

Eu sei o que começa no meu coração quando o meu cérebro começa a perder o controle de borboletas no meu estômago. Eu sei o que cresce quando eu passo a esperar mensagens no meu celular. Eu sei o que vira quando um abraço se torna uma casa, e eu sei o quanto é preciso trabalhar dentro da cabeça da gente quando entendemos que todas essas sensações viraram a chave, deram partida e foram embora atravessando sinais vermelhos aos arrancos.

Não é, exatamente, medo da dor. Eu não tenho medo da dor. Eu teria tido antes, mas hoje eu sei que ela me tornou uma sobrevivente. Pessoas feridas são mais fortes, porque elas sabem que podem sobreviver.

Sabe, eu posso sobreviver. Eu sei disso.

A solitude não me amedronta e eu gostava de ser sozinha.

Eu acho que o que eu quero mesmo é te dizer que eu me importo. Que eu sei que nem sempre parece, porque eu aprendi muito bruscamente a tomar cuidado com as pessoas para quem eu vou dar esse cuidado e essa atenção. O negócio é que às vezes a gente aprende, bem até demais, a ser descuidada.

E eu sei que eu sou. Descuidada, quero dizer. Eu sei que eu sou descuidada. Mas eu também quero dizer que eu me importo.

E não é no medo de que você vá embora que estou dizendo isso. Não é no medo de que eu possa não ter outra oportunidade, mesmo que você vá eu sei que terei outras oportunidades. Eu estou escolhendo dizer porque você está aqui agora, e, bem, esse não deveria ser um motivo bom o suficiente? Sua presença me parece um motivo bom o suficiente.

Minhas amigas disseram que eu e você éramos uma boa ideia.

A estrada em frente vai seguindo, deixando a porta onde começa. Agora longe já está indo, devo seguir, nada me impeça.

Mas eu penso. Você me pediu tantas vezes pra te deixar ir embora, mais vezes até do que percebeu que estava pedindo, então, por que eu sinto que é essa folga no laço que te amarra em mim?

Uma estrela brilhou no nosso encontro. Embora eu finalmente estivesse cheia e reluzente após luas demais me escondendo na calada da noite, eu não soube como agir porque minguei até quase parar de existir. Sinto que com você não preciso ter medo de ser nova ou cheia porque você parece ver coisas em mim mesmo quando eu não brilho tanto quanto um céu estrelado.

Não vou me despedir porque dói. E você pode ficar se quiser, até porque eu gostava de ser sozinha.

Mas isso foi antes. Antes de você chegar.

 

 

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