pra continuar colhendo o dia e dançando balé com rosas

Dia 18/11/2019
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Sobre Textos
degas; dancer with a bouquet of flowers

Eu tenho essa memória de desde sempre “não ser uma pessoa muito de perfume”. É engraçado certos conceitos que carregamos sobre nós mesmos por muito tempo, às vezes eu penso sobre umas verdades que eu ando proclamando há anos e me questiono se elas ainda são assim tão verdadeiras – fiz uma parmegiana de berinjela um dia desses e joguei tudo fora porque, sim, berinjela ainda é horrível!

E as pessoas ao meu redor sempre tiveram suas identidades atreladas a um tipo de perfume – e minha mãe tinha razão, eu não sou todo mundo. Minha tia tem cheiro de Tati, do Boticário. Minha avó de Vovó, da Natura, meu sobrinho de mamãe & bebê. E os caras do colégio disputavam entre Malbec, Kaiak e sei lá mais o quê era popular 10 anos atrás.

Eu fui achar a tradução da minha identidade no mundo dos perfumes faz pouco tempo, e da forma mais absurda que você pode imaginar – não estava procurando, ainda não achava que eu era muito uma pessoa de perfume, e com certeza não pensei que quando eu me mudasse pra outro país pra ser faxineira por alguns meses, quase quebraria acidentalmente um perfume muito gostosinho enquanto lavava o banheiro de alguma pessoa muito rica.

Amazing Grace, foi o nome do perfume que eu quase quebrei. Fui ao shopping naquele fim de semana procurar por ele e quando eu achava que aquele perfume não podia combinar mais comigo, descobri que ele tinha uma linha chamada Ballet Rose pensada para, bem, bailarinas.

E daí que semana passada eu entrei num Uber e o motorista estava usando o perfume que meu ex namorado de 10 anos atrás usava, e no minuto que eu sentei no banco foi como se eu estivesse sendo transportada por uma fenda temporal ao meu passado – que não é de Malbecs nem de Kaiks, mas cujo aroma saiu de linha antes que a gente entrasse na faculdade.

A gente associa tanta coisa com os cheiros.

Mesmo eu, que nunca fui uma pessoa com uma identidade aromática estabelecida – apenas de hidratantes corporais – sempre soube disso. Mas quando o tempo passa e as memórias vão se apagando e a gente é sugado pra dentro delas sem aviso próprio – por um perfume que inclusive até nem era pra existir mais pois foi descontinuado – a surpresa é grande.

O motorista disse que é um perfume novo, do Boticário. Não perguntei o nome, apesar de o antigo chamar Carpe diem, imagino que se tiverem de relançar a mesma fragrância, haverão de nomear diferente depois de todo esse tempo.

Então, eu uso um perfume que chama Amazing Grace Ballet Rose. Ele é tão mais eu do que jamais pensei que um frasquinho de nada pudesse ser. Além disso, se eu não tivesse mudado de país por um tempo pra ir fazer faxina pra umas pessoas muito ricas, eu jamais teria descoberto isso – e acho que ser uma pessoa que se muda pra outro país pra fazer faxina diz certas coisas sobre mim.

Certas verdades que daqui um tempo vou pensar se de fato são tão absolutas quando a de que berinjela é péssimo – e talvez eu descubra que não são. Ou talvez eu passe anos achando que são, ou não achando absolutamente nada, porque nem sempre a gente tem opinião sobre tudo, mas ai um dia eu entro num Uber e descubro que qualquer verdade sobre aquele assunto faz agora muito pouca diferença, e que o fato é que há muitas pessoas que me abraçam e dizem puxa, como você está cheirosa!

E nenhuma dessas pessoas, sabendo ou não que conquistei isso lavando banheiros, se importa com qualquer coisa a respeito do fato de que agora sou uma pessoa com um perfume bem meu, que elas se lembram de mim quando sentem, porque elas estão muito mais interessadas com me ter na vida delas e como isso é demais, e como um dia vamos repensar isso – mas nunca mais ao ponto de eu comer berinjela outra vez!

E o tempo vai seguir passando, e alguns perfumes desaparecendo no meio deles, e a gente segue se transformando, e repensando verdades até nos tornarmos pessoas que entram em taxis e perguntam ao motorista, com cara de espanto de quem não sente uma fragrância em mais de uma década, mas que perfume é esse que você está usando? mesmo se a gente não for lá uma pessoa muito de perfumes.

A menos que agora eu seja. Uma pessoa de perfumes, é o que quero dizer, apesar de não ser uma pessoa muito fã de berinjelas – pra sempre.