Foi a forma dele de me olhar que fez com que eu entendesse tudo nos três segundos que antecederam os fatos. Antes de ele me beijar eu soube que aconteceria, por causa da forma que ele me olhou.

E esse primeiro beijo não foi uma cena de filme conforme eu teria escrito, até porque ele não tem nada em comum com o roteiro de amor que eu pensei que escreveria, mas há um fato inevitável sobre ele que nunca posso ignorar: é que ele sempre vai me surpreender de formas inusitadas. Já até aconteceu de eu me pegar chorando por conta dessas surpresas, embora quase todas tenham feito um fio de energia percorrer toda a minha espinha, como aconteceu no dia que ele me beijou desroteirizadamente.

E eu lembro de tudo, antes e depois desse beijo. Mas o que realmente eu me lembro bem, com correção de cores e riqueza de detalhes, é do segundo beijo. Eu vi o beijo antes de ele me beijar.

A principal coisa que eu me lembro é de como ele parecia certo de que queria inclinar seus lábios em direção aos meus e tocar sua mão quente no meu rosto com delicadeza enquanto a outra se apoiava na minha cintura por debaixo da minha blusa. Eu sabia que ele não tinha toda aquela certeza, mas fez com que eu sentisse que tivesse. Talvez tenha apertado os dedos com um pouco mais de força em alguns momentos, porque achou que eu fosse embora, mas eu não ia.

Era como se ele tivesse todo o tempo do mundo para esperar o sol chegar. Aliás, dessa vez nem acho que ele pensou que fosse amanhecer, era mais como se estar ali ao meu lado fosse a única opção. Eu me lembro com perfeição porque foram poucas as vezes que uma língua quente se aventurou por entre meus lábios não como se depois disso qualquer outra coisa fosse acontecer, mas com paciência e satisfação em estar naquele momento e apenas nele como se nada mais no mundo existisse além de nós dois – nenhum futuro, nenhum passado. Foi lentamente, e apaixonado o suficiente.

Sei que suspirei. Lembro disso.

Lembro porque ele fez com que eu me sentisse um livro antigo guardado numa estante empoeirada quando mãos desconhecidas, ávidas e curiosas o tocam pela primeira vez. Ele era o explorador, eu era a aventura e esse não é o tipo de sensação que se esquece. Não é o tipo de satisfação que vai embora mesmo quando as páginas foram viradas, a história foi lida – e vivida. A maioria das coisas sobre esse tipo de amor é o que fica mesmo depois de se devorar um livro de capa a capa numa única madrugada ou ler um capítulo por dia com medo do vazio que a magia deixa quando o epílogo finalmente chega.

E o negócio das histórias é que você sempre sabe assim que começa a folhear um livro e ler a dedicatória, que eventualmente aquele universo inteiro em tinta e papel vai embora e você vai fechar aquelas páginas. Mas a sensação de pertencimento quando um abraço te faz esquecer desse adeus é como descobrir a América – não é exatamente onde se pretendia chegar, mas é tão, tão, tãaao maravilhosa que tira o fôlego. Ele sempre foi meio apaixonado pelo mistério das histórias inexploradas, mas eu gosto de pensar que teria se dedicado a ler e reler algo que fosse forte o bastante para mudar sua vida.

E já haviam segurado a minha cintura antes, mas não como se a minha presença fosse mais importante do que o medo da solidão. E é um fato certo que eu já tinha sido beijada antes, mas não como se meus lábios fossem o próprio oxigênio e ele tivesse passado horas se afogando. E eu já havia percorrido meus dedos por outras costas antes, mas não como se aquele fosse um mapa para o único lugar que eu precisava chegar. E eu já tinha sido amada antes, mas não como se tudo bem o próprio amor entrar em colapso e explodir porque essas faíscas só significariam mais luzes na noite e mais estrelas no céu. E também não é como se eu nunca tivesse amado antes, porque já tinha, mas não como se algo habitando um buraco esquecido em mim acordasse pra dizer que sempre estivera esperando aquela sensação explodir para ser acordado.

Eu vi o amor antes de ele me amar.

Eu não poderia ter colocado esse amor num roteiro. Embora seja, sim, uma história bonita. É só que se distancia muito do romance que eu achei que fosse escrever. Eu gostaria de ter falado sobre espaguetes com manjericão fresco, domingos, dois controles no sofá da sala e uma camiseta maior que eu pendurada na porta do banheiro enquanto uma de suas mãos desmanchariam os cachos do meu cabelo e a outra seguraria um livro enquanto eu estivesse deitada ao seu lado ouvindo sua respiração, mas eu reconheço a magia dessa história real conforme ela se apresentou, e como se dispôs a ser contada – não acho que seja uma história menos bonita.

Ele me surpreendeu de todas as formas que é possível de se surpreender alguém, me disse coisas que eu nunca pensei que fosse ouvir e me fez viver sensações que nenhuma ficção me contou que existiam – e não foi menos amor por nada disso. E eu lembro de tudo, antes e depois desse beijo, de tudo que eu achei que a história seria, e de tudo que ela foi é. As histórias se eternizam em nós e através de nós, de modo que vivem para sempre. É só que de vez em quando eu me pego pensando no quanto a gente é realmente capaz de influenciar as pessoas, e se eu causei nele faíscas o suficiente para se equipararem às que ele causou em mim.

Foi a forma dele de me olhar que fez com que eu entendesse tudo nos três segundos que antecederam os fatos. Antes de ele ir embora eu soube que aconteceria, por causa da forma que ele me olhou e depois não olhou mais. Não daquela forma – nunca mais.

Ele me pediu – e em um roteiro perfeito eu teria feito um plano fechado do momento em que soltei sua mão e deixei, mas esse roteiro não teve nada disso. Então ele se foi, sem olhar nos meus olhos.

Eu vi o adeus, antes de ele dizê-lo.

 



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