Você merece o amor.

Me parece como se tivessem se esforçado para nos fazer acreditar que em toda a nossa imperfeição não poderíamos ter merecido e que era necessário sermos menos errados, menos tortos, menos bagunçados e menos fragmentados pra merecer um sentimento tão completo e acolhedor como este. Mas eu quero te dizer – e peço que leve isso em consideração; tente acreditar – que você merece o amor, e já merecia antes de estar pronta pra ele.

Pode ser que não sinta que está. Em muito eu acho que não importa o quanto se remende um coração, há rasgos nele que às vezes se tornam profundos demais para sair por ai distribuindo confiança aos outros. Mas há uma cura – sim, há – e a cura vem em pequenas doses. Se sentir em paz é como estar bêbado, não vai acontecer depois de um único gole.

Também não existe esse negócio de esquecer as pessoas. Pois o que realmente é a memória além de um sequestrador das imagens dos outros que os mantém eternos reféns do que precisaríamos que eles tivessem sido ou desejamos que fossem?

Mas não se esquece, se lembra; entendendo que há um fluxo de tempo que não permite às verdades da cabeça que permeiem o mundo real. Tudo que sabemos sobre quem as pessoas foram está no passado, porque não conhecemos quem elas são, apenas nos  lembramos do que elas quase foram.

Então no fundo, ser capaz de realmente conhecer alguém é uma espécie de milagre.

Porque as pessoas que criamos são apenas isso: uma criação da nossa imaginação fértil. Enquanto a verdadeira identidade das pessoas é bem real e está por ai desesperada por uma chance de aparecer. Embora, sim, você tem razão! Tem um bocado de gente sem saber quem é e que aceita vestir essas nossas próprias propostas de máscara. Isso nunca dura, pois eventualmente descobrem como é bom entrar em paz com a identidade.

Nós não podemos mudar as pessoas. Nós não podemos transforma-las no que precisamos naquele momento. Os outros não existem para nos reparar – as pessoas também precisam delas mesmas para remendar seus próprios corações.

É tão injusto esperar de um namorado que cuide de mim como pai porque eu não tive pai, ou de uma amiga que me dê abertura para viver uma vida livre de amarras porque eu sempre fui presa, ou de uma irmã que seja responsável e tenha um emprego, e faça o jantar porque a mãe que a vida me deu nunca estava em casa.

Os relacionamentos não podem – nunca – ser mais do que duas pessoas remendadas após muitos rasgos, tentando se aquecer. Tem gente que é quente como o fogo, e há os outros tão gélidos como a própria morte. Exigir que as pessoas sejam para nós mais do que elas podem ser para elas é rasga-las tanto quanto dizer que quem elas são não basta.

Mas o outro nunca me basta; eu me basto.

Tudo que nós somos precisa do outro para existir, é verdade. Eu não posso ser uma tia sem um sobrinho, tampouco uma amiga sem amigos ou uma namorada sem um namorado. A identidade precisa sim do espelho que as pessoas seguram para que eu veja o meu reflexo sendo ressignificado, mas não é o outro quem determina essa identidade, é a própria interação, é o laço em si e as pessoas que o fazem.

O medo é um escudo, eu sei. É uma muralha, é a armadura de guerra, é o forte no porto. É tudo aquilo capaz de segurar um coração sem rasga-lo aos pedaços como da última vez. Mas o medo não é só o que impede as pessoas de entrarem, é também o que me impede de sair. Se tudo que eu ofereço é um espelho as pessoas não me vêem, vêem apenas o reflexo delas mesmas.

E eu existo. Eu ainda estou aqui. Eu mereço o amor. E eu sou mais que o espelho – eu sou mais do que as pessoas precisaram que eu fosse.

O medo… não! O medo não é a única coisa capaz de segurar um coração com delicadeza sem rasga-lo aos pedaços. Cada mão que escolho entregar esse coração pode escolher fazer isso. Não porque eu mereço, mas por causa do caráter delas.

Amar alguém pelo quanto ela pode se tornar quem precisamos que ela seja não pode ser amor, por que o que sobra quando precisarmos de outra coisa, além de tantos fragmentos de um espelho quebrado e uma coleção de memórias forjadas que não dizem respeito a quem a pessoa realmente é, mas de como achamos que ela era?

Você merece o amor. Pode achar que não merece. Pode ter medo de aceitar que merece por ter costurado o sentimento à memória das pessoas que o projetaram em você. Pode achar que não tem o suficiente em si para oferecer de volta. Há uma porção de talvezes que eu poderia citar aqui.

Não se assente por menos do que merece, não confie no retrato que a memória criou de quem só existe no passado. Todos nós já tentamos moldar alguém para caber nas nossas lacunas, não quer dizer que essas pessoas existam.

Deixe todas essas coisas onde elas pertencem, e então continue: porque você merece.

O perdão não é uma coisa que se faz pelo outro porque ele merece ficar livre, é uma coisa que se faz por você porque você não merece carregar o peso que é de outra pessoa.

  • Fantoni
    dia 04/12/2017

    Todos os textos terminados far-me-ão chorar ou lacrimejar os olhos? <3

    Cogite a hipótese/ideia de pleitear uma cadeira na ABL, obrigado de nada

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    Carol Santana,
    dia 04/12/2017

    @Fantoni, cogito todos os doas antes dos meus olhos abrirem pela manhã, porém, acho brabo eles decidirem cede-la a uma mera mortal como eu.
    Jaá te agradeci pelo apoio hoje?
    Muito obrigada <3

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  • dia 04/12/2017

    Ainda estou apaixonada por esse texto, obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada.

    Quando eu puder imprimir, é sério, eu vou imprimir e colar na parede <3

    Love, Nina.

    [Responder]

    Carol Santana,
    dia 04/12/2017

    @Nina, Um mar infinitos de de nada, de nada, de nada, de nada ecoando entre a minha existência (e palavras) e a sua (e as suas palavras).
    Que a libertação por meio delas continue nos encontrando após os naufrágios.
    Te amo, amiga! <3

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