Conheci um cara incrível cujo maior traço de personalidade, o maior troféu na vida e também a maior qualidade, de acordo com ele, é o fato de ele saber viver muito bem sozinho. Isso me levou a pensar muito sobre o que entendemos por solidão e qual o papel dela em nossas vidas. Mas, principalmente, por que ela se torna um escudo contra a aproximação de estranhos. Em qual momento no discurso de amor-próprio ficou estabelecido que autonomia e liberdade são sinônimos de ficarmos sozinhos, e que relacionamentos – em qualquer de suas dezenas de aspectos – são para pessoas carentes e fracas?

Veja bem, eu me considero uma pessoa introspectiva e relativamente antisocial  que valoriza muito mais um Netflix do que uma gandaia e eu sou muito feliz assim. Mas eu não sou alguém que tem medo de conhecer outras pessoas, eu sou aquela garota chata na fila do banco que pergunta as horas, e, se em um bom dia, falo sobre toda a minha e a sua vida ali mesmo.

As pessoas me dizem com frequência que eu as deixo confortável para falarem sobre si mesmas comigo, e, por vezes eu já ouvi que conversar comigo é libertador pois, de alguma forma, eu permito que as pessoas se abram e elas não tem medo ou receio de mim por isso. Porque eu sei que no fundo as pessoas só querem ter suas histórias contadas.

Mas isso não me torna uma pessoa menos solitária. Me torna uma pessoa gentil e paciente, mas não menos solitária.

Ainda há um pequeno número de pessoas com quem eu me abro, e essas pessoas – a quem devo toda a minha sanidade – por vezes me ouvem falar muito mais do que eu as ouço, porque há dias em que eu sou egoísta à beça, e eu sei muito bem disso. Às vezes eu preciso de mim demais para me doar fácil aos outros, e por mais vezes do que posso contar nos dedos da mão eu preciso dos outros para não evitar pedir que se doem à mim.

Um pouco do que eu quero dizer, acredito, é que explodiu nos últimos anos um discurso a respeito do amor próprio e solitude que fez as pessoas crerem que elas são as únicas pessoas no mundo que importam e podem viver bem sozinhas, muito bem, obrigado. Veja, isso funciona muito bem quando o aplicamos em relacionamentos amorosos. Não estou aqui para te dizer que você não deve jamais estar sozinho e/ou se sentir feliz assim. Muito pelo contrário, toda a construção da pessoa que eu sou hoje se deu em cima das ruínas que o relacionamento em que eu estive deixou em mim quando desabou, e eu amo demais a mulher que me tornei para sentir pena de mim por isso. Eu agradeço, na verdade. Porque eu errei muito em achar que seria mais fácil abrir mão de mim do que dele, e sou grata à vida por ter me mostrado a verdade.

Eu acho, e muito, que você precisa estar sozinho para saber quem você é. E, mais do que isso, recomendo que você encontre todas as formas fantásticas, que nunca pensou que existiam, de se sentir bem, feliz e preenchido dessa forma antes de tentar um relacionamento com uma outra pessoa. A última mensagem que você jamais lerá aqui é a de que o amor romântico é a única força poderosa que pode te mover. Isso não é apenas uma mentira, como perpetua-la iria contra tudo que eu já escrevi até hoje, porque há de se admitir que o amor é muito superestimado.

No entanto, por mais Orkut que isso vá parecer, você pode estar solteiro sem estar sozinho. A solidão não é sobre o seu status no facebook ou a aliança no seu dedo.

Em uma era em que likes determinam o quão querido, bonito ou socialmente aceito você é, é apenas compreensível que as pessoas pensem em se distanciar muito de tudo isso e se voltar para um face de realidade muito mais palpável sem uma tela de vidro. Talvez porque nós nos isolamos tanto que somos em nós mesmos tudo de real que sobrou do mundo fora do instagram. Me vê mais uma dose de umbiguismo, garçom!

Mas tudo bem você ainda precisar de pessoas.

E, certo, pode ser que você não precise. Mas há tantos discursos sobre autossuficiência que o que de fato acontece com as pessoas que acham que a única forma de cultivar amor próprio é usar a solidão como uma muralha fortificada? Onde se coloca todos os outros sentimentos que ainda podemos sentir por alguém além de em um calabouço muito profundo e úmido, esquecido nas profundidades das nossas torres de sentimentos quando dizemos que não precisamos de ninguém?

Por que esquecemos do valor de amigos que nos ouvem, jogam cartas e levam vídeo game e açaí para nos fazer feliz? Porque passamos toda uma vida aprendendo que amar significava se casar e ter filhos, e que o nosso valor estava no quanto alguém estava disposto a aceitar passar todo o resto da vida conosco.

Mesmo quando muitos de nós não se aguentavam dentro de si mesmos por três dias em solidão esperávamos que os outros se dedicassem em nos completar. Isso não apenas não é amor como também destruiu a forma como enxergamos relacionamentos (românticos ou não).

É necessários entender que o amor é também, em mais aspectos do que seria saudável, subestimado. Porque não nos ensinam a quem amar, ou como – de fato – ou quando, e muito menos o porquê. É falado que somos frágeis e vulneráveis ao nos abrirmos para receber o amor de alguém, e, sim, pode ser que isso não tenha o resultado mais feliz do mundo.

No fundo eu acho que eu não sei dizer, exatamente, o quanto de nós realmente é nosso e o quanto dos outros costuramos em pontos tão bem tecidos que chegam a se perder em nossos retalhos rasgados. Mas esperar que todas as suas ausências sejam completas em outro pode ser tão doloroso quanto achar que a única condição para ser feliz é precisar – e afirmar aos sete ventos! – que elas não sejam.

E, não. Eu ainda não acho que você vá achar seu lugar ao sol enquanto tudo ao seu redor for chuva. Mas eu acho que é muito mais fácil enfrentar todas as tempestades com alguém segurando o guarda-chuva bem ao seu lado.

Além do mais, você sabe que eu estaria mentindo se dissesse que não aprecio dançar na chuva. Me parece um tanto quanto prudente te dizer que você pode dançar comigo também sem precisar jurar lealdade para a eternidade e sem parecer que isso te torna menos forte ou autossuficiente.

Há mais de uma forma de ser amado por alguém, meu bem. Beijos, alianças e filmes vistos com dedos entrelaçados são só uma forma que te ensinaram, mas não estar pronto para isso não vai ser, por si só, o fator determinante para que você viva uma vida em isolamento de todos os outros sentimentos bons do mundo que podemos sentir pelos outros – e eles por nós.

 

  • Débora Vieira de Lima
    dia 27/09/2017

    Que textão veeei! Arrasou 😍

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  • dia 02/10/2017

    Demorei pra aparecer, mas tô aqui :)

    Concordo com quase tudo. Eu amo seus textos, porque me vejo muito neles. E, apesar de geralmente eu vir aqui quando preciso de apoio, fico feliz por chegar aqui, agora, e perceber que seu texto é só mais um texto (e, de maneira alguma, tô falando que ele é menos que os outros). É que, apesar de estar um pouco descarregada de felicidade em comparação aos meus dias anteriores, fico muito aliviada por perceber que não preciso de palavras de outras pessoas para devolver amor e tranquilidade a mim mesma.

    Ah, algo que me deixa sempre bem triste nesses discursos de que a solidão “se torna um escudo contra a aproximação de estranhos”, bem como você me colocou, é que nunca é mencionado a fobia social. Eu tenho fobia social e é sempre extremamente difícil eu conseguir me relacionar com as pessoas, mesmo as que eu mais amo. Provavelmente, a minha fobia social foi desencadeada pela minha ansiedade, mas me lembro de ter, tipo, seis anos e sentir fobia social (sem saber o que era isso, claro). A verdade é que, apesar de eu querer me relacionar com as pessoas, elas pessoas me cansam e me consomem na mesma medida, senão mais. Eu tenho tido, aliás, episódios de fobia social tão intensos que volto pra casa com muita enxaqueca, com muito cansaço. E, ainda assim, não significa que eu me escondo na solidão – é só que, infelizmente, é assim que eu funciono, por mais que eu tente, tente, tente todos os dias ser alguém menos fóbica.

    Acho que seu texto é lindão, que eu precisa ser lido por todos, sim, porque eu tô aqui pra enaltecer as coisas lindas das minhas migas :)

    Love, Nina.

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