carta para a pessoa que eu achei que eu seria

Dia 20/02/2019
|
Sobre Textos

Querida,

Foi há algum tempo. Não tanto quanto você acha, mas mais do que às vezes parece. Foi quando você saiu do colégio e toda a vida parecia difícil, mas, de certa forma, elaborada diante dos seus olhos, e isso já era alguma coisa.

Foi quando você escolheu um curso na faculdade, e passou no vestibular e isso parecia significar que todas as preocupações estavam resolvidas. Bem, porque elas estavam mesmo. E, sim, eu sei. Não era o curso que você queria. Não era na cidade que você queria. Não era para a profissão que você queria. Mas era fazer alguma coisa.

Às vezes eu penso que te faltou coragem. É duro ouvir isso, eu sei. Certamente mais duro pra você ouvir do que é para mim dizê-lo. Mas olhando em retrospecto eu te imagino sendo um pouquinho mais ousada.

E isso não é questionar o trajeto, ou achar que ele foi menos. Isso não é menosprezar ou se arrepender do que eu fui e vivi, mas é saber que talvez eu não precisasse ter sido a garota que não tentou um curso longe porque não queria ficar longe do namorado, que talvez eu não precisasse ter ouvido meu pai quando ele disse que não poderia me sustentar em outra cidade. Talvez eu tivesse sido capaz.

Pode ser que eu não precisasse ter sido a garota que pegou a solução mais fácil, na faculdade mais perto, pro curso que dava, simplesmente pra satisfazer as pessoas que me deram rotas, quando eu não conhecia nenhuma. É saber que mais comumente do que nos dizem, há formas diferentes de fazer as coisas além do que as que as pessoas nos informaram, porque o outro só conhece o que ele pode fazer e quem conhece o que eu posso fazer sou.

Que parte de ter coragem não é simplesmente fazer, mas encontrar formas de fazer. Se conhecer o suficiente pra descobrir o que funciona. Coragem é entender que eu consigo, mas não necessariamente que vai ser fácil. Eu sou capaz de fazer coisas impossíveis aos olhos de quem me ofereceu soluções mais fáceis, porque eu conheço a minha jornada, e eles não.

Com esses meus 16, 17 anos, eu achava que eu era. Desprendida. Corajosa. Ousada. Mas a verdade é que eu tinha medo.

Tudo bem falar isso agora. Porque hoje, 8 anos depois, eu sei que ter medo não torna alguém menos. Eu sei que eu finalmente sou tudo que eu achei que era, apesar de não ter sido antes. Apesar de ter demorado para me tornar. Eu sei que não ter sido o que eu achei que era, não quer dizer que eu não tenha sido uma porção de outras coisas incríveis, que nunca me ocorreu ser, eu simplesmente fui.

É uma coisa engraçada esse negócio de identidade, sabe, querida? Sabe essa foto aí de cima? Eu nunca compartilhei ela. Porque eu me achei muito gorda. Tem tanta coisa errada sobre isso.

A primeira, e mais evidente, é que eu claramente não era gorda. Apesar de me enxergar como uma pessoa bem acima do peso. A segunda, que muito recentemente eu descobri, é que, e daí se for? O que significa deixar de registrar, de viver, de aproveitar coisas que são importantes para mim por causa do tamanho da calça que eu visto? O que significa permitir que pessoas definam a forma como eu, gorda ou não, posso me comportar?

A forma como a gente se posiciona sobre o mundo, é como as experiências que ele tem pra nos proporcionar chegam até nós. Antes eu me via e me projetava como uma pessoa corajosa, apesar de ter deixado de viver muitas coisas por escolher segurança e conforto. O mundo não pode se posicionar sobre nós antes que nós nos posicionemos sobre nós mesmos.

Nos tornarmos quem nós queremos ser é constantemente deixar de ser quem éramos. Mas você não pode pedir a outra pessoa que te diga quem você é, você deve dizer a ela quem você é, e isso significa que você precisa saber quem você é muito antes de saber quem você quer se tornar.

Foi há algum tempo. E as coisas que aconteceram nesse intervalo, permitiram que eu chegasse até aqui. Poderiam ter me trazido mais rápido, e por outras vias muito diferentes se eu tivesse tido coragem. Poderia ter me sentido gorda e gostado de mim em uma foto, apesar do que as pessoas me ensinaram. Poderia nem ter me sentido gorda, no fim das contas.

Eu poderia ter sido a garota que fez 5.000 rifas e vendeu por R$1,00 de porta em porta para ir ver a J.K.Rowling, e essa história poderia ter sido mais importante do que se eu fiz isso num jeans 36 ou 42.

Não foi. Mas poderia ter sido, se eu fosse a pessoa que eu achei que eu era.

E, tudo bem. Porque eu aprendi com isso. Nada disso que eu te conto é com pesar ou arrependimento, porque eu tenho um orgulho danado da minha história. Mas talvez eu poderia ter descoberto antes. Talvez você possa descobrir agora.

Eu espero que sim. Eu espero que você saiba que você talvez consiga se sustentar em outra cidade, fazendo um curso que você realmente quer, mesmo se seus pais não puderem te ajudar. E talvez você não consiga e precise voltar. Mas, você não gostaria de descobrir? Você não gostaria de ser a pessoa que teve a coragem pra amar seu sonho mais do que o medo para se esconder dele?

Tem muitas coisas que separam essas duas garotas. Cerca de 100 mil cortes de cabelo, algumas progressivas a menos, vários tubos de tinta acobreada. Uma dose de coragem. Uns rabiscos na pele. Uma renovação no guarda-roupa, bravura que me permitiu despir-me de quem me disseram que eu tinha de ser, do namorado, da faculdade e da profissão que eu tinha que ter.

Pra me vestir do livro que eu vou publicar, das amigas que eu tenho, das jaquetas que eu colecionei e dos cachos que eu orgulhosamente apresento quando tenho tempo para modelá-los, mas também do cabelo volumoso e sem definição que eu saio sem qualquer vergonha, porque às vezes acontece de o ir ser mais importante do que o como ir.

Os nossos medos mudam porque nós mudamos. E nós mudamos porque às vezes chegamos em lugares e percebemos que trilhamos a estrada de outra pessoa. Nos relacionamos com caras que não são pra gente. Pegamos diplomas que não são pra gente. Trabalhamos em empregos que não são pra gente. Confiamos em amigas que não são pra gente. Moramos em cidades que não são pra gente. Temos medos que não são pra gente. Trilhamos a estrada de outra pessoa. Aceitamos menos, porque tivemos medo de descobrir na pele o que o querer mais poderia nos trazer.

Mas a coragem não é o se despir. É o se conhecer o suficiente pra saber o que vestir em seguida. É encarar a nossa própria estrada e saber que há oito anos ou agora, ela é nossa.

Eu demorei. Eu sei que ela diria pra mim. Mas de uma forma ou outra eu tô aqui, mano. E eu sei que ainda dá tempo.

Eu sei que ainda dá tempo pra você também. De ser tudo aquilo que você talvez achou que era mas acabou não sendo. Ainda. De ser tudo aquilo que você pode ser. Agora. De ser tudo o que você não pôde ser antes porque você não estava trilhando a sua estrada, mas desbravando e parecendo muito corajosa pelas estradas de outras pessoas. De se encontrar em lugares que você nunca pensou que poderia estar. De sair da estrada que não te pertence, por mais familiar que ela possa parecer. E dar as costas pra ela, porque não é sua.

Eu sei que ainda dá tempo de ter coragem pra saber quem nós somos. Pra saber de verdade, e então caminhar na nossa estrada, à partir do que descobrimos.

Ainda dá tempo de ter coragem.

com amor,
cs