carta pros meus vinte e poucos anos

Dia 31/12/2019
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Sobre Textos

Voltei hoje num lugar muito especial. Sou dessas – apegadas, que vivem revisitando. Eu amo as histórias embutidas nas coisas, eu amo, não consigo evitar.

Tem muita história minha espalhada por ai, sabe? Desde a minha infância, sim, mas há um lugar em específico que formou bastante meu caráter e se relaciona profundamente com a mulher que me tornei. A universidade onde estudei, entre os anos de 2011 e 2015, cujos corredores conheço como a palma da minha mão e cujas paredes, árvores e muros de tijolinhos acompanharam toda a transição para a minha vida adulta. Dei minhas primeiras aulas lá, descobri verdades que jamais desconfiei e aprendi a ser grata pelas oportunidades.

Sobretudo, foi o cenário da maioria dos ensaios e fotos que fiz. Os cenários de contos de fadas foram um refúgio de paz em uma das épocas mais conturbadas da vida, e foi nesse cenário que eu voltei para fazer umas fotos, em 2016, o ano da minha reconstrução, a respeito da tristeza e da dor.

E você sabe o que dizem sobre a dor.

Ela precisa ser sentida.

Essa foto representa os seus 20 e poucos anos e ela conta uma história – e puxa vida! como eu amo as histórias das coisas! – É uma história sobre a tristeza, e como ela te tornou uma pessoa forte. É uma história sobre a dor, e como você nunca vai poder fugir dela. É uma história sobre soltar o que não te pertence, e aprender a abraçar o que você tem de mais precioso.

É, sobretudo, como todas as histórias que já contei na vida, sobre acreditar. Eu quero que daqui pra frente você tenha coragem pra se lembrar, audácia pra não esquecer, sobre como foi essencial acreditar em si mesma. Acreditar na sua verdade, acreditar no que você tinha pra

contar, crescer, perdoar e se tornar.

Menina, entenda, você me salvou. A sua fé me salvou e a sua história eu hasteio com orgulho na bandeira mais alta. O seu choro na madrugada permitiu que eu não naufragasse. Sua dor me reergueu das cinzas.

Você escreveu, publicou e VENDEU seu primeiro livro nos seus 20 e poucos anos. Sim, eu estou dizendo isso mesmo. As pessoas PAGARAM pra ler o que você escreveu, e elas amaram – bem, a maioria delas, pelo menos! – e você pode ler AQUI caso não conheça ainda a magia de Selos Fantásticos.

Você terminou um relacionamento de oito anos, sofreu para um c******, se mudou pra outro país, se apaixonou pelo seu melhor amigo e isso foi incrível pois aprendeu que ainda dava pra amar outras pessoas, viveu exclusivamente do dinheiro que ganhava pelo trabalho daquele dia, teve muitas responsabilidades financeiras e não passou falta de 1 grão de arroz porque amadureceu espantosamente.

Você foi capaz de ficar 1 ano sem mexer no seu cabelo e isso me mostra quão determinada você esteve em voltar pras suas raízes. Você voltou pra casa, e minha nossa! como isso foi difícil! O lugar de onde você saiu já não te cabia, e você aguentou caladinha por 9 meses enquanto amadurecia o suficiente pra que a próxima parte da história – o próximo capítulo – se desse tempo pra ser escrito.

Daí também teve aquele negócio de ir morar com um amigo – e a tonelada de ensinamentos e lições dessa jornada não cabem aqui. Você me surpreendeu muito quando conseguiu viver por 5 meses sem nenhuma renda, só com o dinheiro que você tinha guardado, e ainda mais nos próximos quando começou a ganhar 900 reais por mês logo após ter saído de longos e maravilhosos meses fazendo quase 6 mil reais a cada mês.

Você me ensinou muito.

Lasque-se quem achou que você só chegou aqui por conta daquele período em que seu pai te sustentou. Foda-se quem não entendeu que todos partimos de lugares – e eu não parti de um lugar de conforto, encontrei-o bem depois – e nós mesmos nos direcionamos para o que faremos então.

Você me ensinou.

Me mostrou que no fim do dia, o que as pessoas pensam sobre nós não determina quem somos ou como agimos – e se determina isso também é decisão nossa.

Você construiu tudo que eu sou e é por sua causa que eu me sinto pronta.

E eu sei, por causa dessa voz que carrego orgulhosamente dentro de mim, que daqui pra frente vai ser assustadoramente mais desafiador, como nada que vivemos! Mas sei que vai ser infinitamente mais fácil, pelas habilidades que você se dispôs a aprender e com isso nos tornar mais forte.

É por sua causa que meu ano novo vai ser muito diferente. Que meus próximos anos vai se deixar permear por aprendizados e caminhos que nunca antes percorreu – porque você não teme por nós e nos deixa embrenharmos jornada adentro – nunca conheci uma aventura que você não amasse!

É aqui que se faz a necessidade de reconstruirmos nossa história. A necessidade de revisitarmos lugares, de nos apaixonarmos novamente pelas cores do mesmo por do sol. De caminhar pela mesma floresta, de pedir aqueles pratos que amávamos naquele lugar de sempre. Essa necessidade existe porque quando aprendemos a ver a vida por outros olhos não é a vida que muda.

É a gente.

E conosco todos os lugares, pores do sol, florestas e restaurantes. E conosco a própria história se reconta, e se reconstrói.

Por onde você for, nos vinte e tantos anos que ainda tem pela frente, nos quarenta, nos setenta, continue contando as histórias e reconstruindo-se através delas. A cura vem daí.

Às vezes – bem raramente mesmo – os lugares mudam. Mas em geral não. Em geral a gente que tem de mudar, e se recolocar neles pra ver quão diferentes as coisas são. O ano novo não conta novas histórias, não nos torna diferentes.

A gente que conta, e se transforma enquanto isso. Feliz ano novo, guria, te amo!