chuva de verão; dias de sol

Dia 10/02/2020
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Sobre Textos

some old work circa 2013–2014

Eu imaginei um dia desses como seria a sensação do toque entre os braços dele e a parte debaixo das minhas costas quando ele me abraçasse e eu pudesse pousar meus braços ao redor de seu pescoço enquanto meu rosto descansasse em seu ombro. A relação com o amor é uma coisa doida que se transforma conosco quando descobrimos com quem vale a pena construí-la. 

Pensei sobre como seria o cheiro de sua camiseta tão maior que eu depois que a recolhesse no varal, e também não nego que passou pela minha cabeça que talvez ir ao mercado, e, principalmente, subir as compras e guarda-las, fosse uma tarefa menos difícil aos meus braços caso os dele estivessem por perto para me ajudar com o peso. Sob todos os aspectos, ele me pareceu alguém com quem eu teria gostado de compartilhar certos fardos.

É bem maluco isso. Por anos nos convencemos de que tudo bem não querer se envolver ou não precisar se envolver com alguém e um belo dia isso muda. Ou talvez não muda que não quisemos naqueles momentos em que nos permitimos não querer, muda que nós mudamos e conosco mudam os cenários da vida em que nos encontramos – digo belo dia, mas não necessariamente vai ser um dia bonito, pode bem ser um dia trágico se você olhar pra como a desconstrução de certos conceitos acabam com a gente na derrubada dos muros. 

Era a referência de um lugar seguro, concluí. Encontrar aquele abraço pra me aninhar despertava a sensação de segurança e acolhimento que nem sei se meu cérebro sabia que meu corpo já conhecera antes. Dá pra pedir por coisas que não lembramos que existem? Que não sabemos que podemos ter? Que não fomos apresentados, ou se fomos foi em outra vida tão distante e enterrada nos escombros do passado que chegamos a nos esquecer que foi nossa? Da pra sentir falta dessas coisas como se elas tivessem nos pertencido? Como se qualquer mínima parte nossa sequer se lembrasse de como fora possuí-las?

Achei que não.

Ou talvez achei que sim. Não sei. Não cheguei a tirar meu tempo pra elaborar uma resposta e pensar sobre isso, entende? Ele irradiou em meus dias nublados despretensiosamente como quem sai de casa com um guarda-chuva a tiracolo no único dia do verão sem previsão de chuva na esperança de poder dançar na chuva.

Também trouxe de volta as belezas dos dias de sol e nunca me escapa a percepção de quão curioso foi que por causa dele eu tivesse essa luz e calor de volta em meus dias. Será que ele teria desconfiado se eu não tivesse falado nada? Será que saberia que seu sorriso me aquecia? Será que perceberia a derrubada silenciosa de meus muros cuidadosamente construídos, tijolo por tijolo individualmente cimentado com a intenção previamente estabelecida de não saber que eu ainda podia ter aquilo, de não lembrar que essas coisas existiam?

Em certa medida eu ainda quero acreditar que é belo o fato de vivermos pra ver esses muros caírem, apesar das defesas nossas, construídas a duras penas, que caem com eles. Teve um tipo de gravidade nos atraindo um pro outro, era claro como os primeiros raios do nascer do dia que nossas fortalezas se chocariam uma contra a outra, derrubando tudo que tivesse no meio do caminho e unindo esses reinos abandonados para parecerem que sempre foram uma coisa só.

Mal posso explicar quanto medo senti de assistir isso lá da janela mais longe da torre mais alta. Quando vi minhas defesas ao chão, meu terreno limpo e minhas nuvens indo embora, percebi que eu sabia a resposta. Sempre soubera a resposta, esperava encontrá-lo desde antes de me esquecer disso. Ter me esquecido do quanto eu o queria – o que ele representava – não significava ter deixado de querer.

A sensação era de vulnerabilidade; e não me amedrontei quando meu corpo aceitou a resposta do abraço que meu cérebro já esperava. O cheiro na camisa era de chegar em casa após um longo dia de trabalho; era de pertencer. A referência também estava certa, era de um lugar seguro. A mão em volta de seu pescoço, no entanto, só fui descobrir depois; me dava espaço pra brincar com seu cabelo, que eu amava.

Não dava pra pedir por coisas que eu não lembrava que existiam, nem que eu não sabia que podia ter, nem que eu nunca fora apresentada. Mas dava, e o calor ensolarado que emanava dele me fez ter certeza, pra redescobrir em outras pessoas formas de nos lembrarmos do que já não sabíamos ter esquecido.

E querer essas coisas. E amar sermos as pessoas que um dia as encontraram, mesmo se em outro dia a chuva voltasse – dançaríamos nela protegidos ou não, como nos dias mais quentes de verão – e alguma coisa me dizia que a estação do sol se tornaria a minha favorita, por causa dele e tudo que novamente eu pude pedir, depois que ele chegou e derrubou meus muros.