do dia que contei estrelas sozinha, de novo

Dia 22/03/2020
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Sobre Textos
source: pinterest

Não foi o seu carro que passou na minha frente quando eu estava sentada aquele dia na porta de casa. Não foi o seu carro que parou. Não era você dentro do carro. Respirei fundo e entreguei os pontos, voltando para dentro de casa e abandonando as esperanças de ouvir você batendo a porta do carro e tocando a campainha, mas quando um outro motor apontou na esquina eu olhei pela sacada, estiquei o pescoço pela janela da sala, mas não era mesmo.

Eu esperei. Olhei no relógio constantemente, contei quantas músicas se passaram no rádio enquanto eu estava parada ali esperando. Foram sete, fora os comerciais. Counting Stars tocou, mas o céu andava totalmente nublado. Parece um pouco com a minha vida, se quer saber minha opinião.

Você sabe que eu sempre fui do tipo de pessoa que acredita em sinais. Que procura ouvir o que Deus está tentando me dizer, e procura sinais do Universo em todas as coisas. É, totalmente Ted Mosby. O problema comigo (e com o Ted Mosby, e com as pessoas românticas do mundo todo) é que elas esperam dos outros o que elas fariam por alguém. Em geral elas não encontram – porque são poucas as pessoas assim. Acredite em mim, eu tive bastante tempo para pensar nisso, foram sete músicas, fora os comerciais.

Na esquina, um outro par de luzes também apareceu – e também não era o seu carro. Também não parou. Também não era você. Era só mais alguém, que não era você, indo para algum lugar, que não era eu.

Vejo muita gente assim por ai; pessoas indo a lugares. Sinto inveja delas, pelo menos elas sabem para onde estão indo. Às vezes o meu trajeto se resume simplesmente em encontrar uma pedra para chutar. Nenhum destino estabelecido.

Mas naquele dia eu pedi por um sinal, entende? Detesto quando o Universo insiste em me dizer não. E olha, ele tem dito isso bastante e tem sido muito criativo nas maneiras de me mostrar suas recusas. Não sei você, mas eu faço desafios comigo mesma e o Universo, desafiando-o a me contradizer: Se o próximo carro que virar a esquina for dele, ou for vermelho. Se passar um casal na rua nos próximos quatro minutos. Se a luz do poste apagar sozinha, vai ser um sinal de o Universo me dizendo

Sim.

Ridículo né? Principalmente quando você sabe que a luz do poste apaga e acende a cada 30 segundos, dá um tilte e apaga de novo. Aquele dia não apagou. Só pode ter sido o Universo.

Talvez a gente apenas não devesse esperar por sinais se não estiver preparado para eles. Ou talvez a gente não devesse estar esperando por sinal algum. Devesse, simplesmente, ir lá e meter a cara por conta própria sem tentar culpar qualquer força maior pelo o que quer que esteja acontecendo – acho que o Universo pode estar um pouco ocupado.

Mas, espere, o quê é aquilo além da minha janela? O céu clareou? O tempo abriu? O brilho dos astros voltou soprando as nuvens pesadas e liberando a imaginação pra procurar constelações?

Eram muitas estrelas.

Não consegui contar todas, mas de fato tenho perdido o sono pensando sobre tudo o que nós poderíamos ser. Da minha janela o céu as vezes se faz muito claro com aquele recorte do infinito à frente, as janelas iluminadas dos outros prédios ao fundo e todas aquelas estrelas pontilhando o teto azul profundo do mundo. Recentemente ele parecia sempre nublado, e eu gostaria de ter me deitado em qualquer relva de qualquer campina pra respirar ar puro e contemplar a vida do Universo se pendurando lá de cima e se estendendo mundo afora.

No rádio ainda cantavam de poder contar estrelas, e eu sabia que você podia contar comigo. Mas não era o seu carro, por isso encarei a parede alguns minutos antes de fechar a cortina e me afastar das muitas possibilidades que a imensidão azul escondia.

Mesmo no céu pós chuvas intensas, trovões altos e um aguaceiro sem fim que tenho vivido, sei que tendo estado ao meu lado debaixo daquele céu estrelado, você ainda seria a visão mais bonita pros meus olhos.

Tentei contar outra vez mas eram muitas estrelas para uma pessoa só se dar conta sozinha. Nessa noite perdi o sono. De novo.