A Elphaba, a colcha de retalhos, as máscaras e as conchas

Dia 07/05/2019
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Sobre Textos
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Quando eu era criança minha avó fez uma colcha de retalhos pra mim. Não é dessas de revistas muito caras e com padrões chiques e bem elaborados que faz uma colcha de retalhos custar, sei lá, R$ 600,00. É uma colcha de retalhos retalhos, toda aleatória e nenhum pouco vendável, que se manteve por anos como a coisa mais preciosa que eu tenho. Na segunda casa que eu chamei de lar na vida, eu tive essa colcha e ela segue comigo até aqui. Casa oito, lar: a definir. Foram 5 até agora. Os lugares onde eu realmente me senti em casa, é o que quero dizer. Os lares.

Dois deles não foram sequer casa minha ou da minha família, aliás. Foram “só” lugares que me acolheram, ambos sem nem saber que eu mesma sequer sabia o quanto o que eles estavam fazendo seria importante. Ambos sem nem saber que eu mesma sequer sabia o quanto eu precisei daquilo, o quanto eu precisei deles. De me sentir em casa, é o que quero dizer. De “só” me acolherem, eu os carrego para sempre em mim.

Eu agradeço à Clarice (Falcão, não a Lispector) por entender. Tem dias que a gente vive bem sendo independente e metendo a cara e tendo muita coragem, mas tem dias que é muito importante ser entendido, e se a Clarice Falcão não tivesse escrito a música do Capitão Gancho em que ela enumera fatos sobre ela que são tão dela que sem eles não seria ela – se não fosse a Clarice esse texto não seria ele, de modo que sem o texto o blog não seria tão descuidado e sem o descuido não seria eu. Tanto a Clarice, quanto o Capitão Gancho dela me entendem aqui nessa primeira noite que passo na casa de número oito.

O amor por conchas eu adquiri no lar dois, quando Poseidon e eu éramos vizinhos. O amor por máscaras e cuidar de mim foi na cinco, onde também tinha o mar ao lado, mas pra ir na praia a gente tinha de comprar uma ficha que era válida por todos os meses do verão, mas a prefeitura usava a grana dessas fichinhas pra manutenção da praia – isso aqui me matou de amores, e essa fichinha carrego na carteira.

A Elphaba foi no lar quatro. Eita, que falei tchau pro cinco antes de falar pra ele, e foi infinitamente mais dolorido. O quatro foi onde tudo aconteceu. Todo o crescimento da pessoa que eu sou hoje, todos os choros mais doloridos e os gritos mais altos e as danças mais serenas e as risadas mais altas e os beijos mais carinhosos e os adeus mais difíceis e os textos mais incríveis e os voos mais altos por sobre as gravidades mais perigosas foram sonhados e planejados. Sem o quatro não seria eu.

Como já talvez não seja. Como é provável que ter saído dele me transforme muito mais ou ao menos tanto quanto o ter entrado me transformou. Tanto quanto a Elphaba, a colcha de retalhos da minha avó, as máscaras e as conchas me transformaram.

Eu escrevi aqui em outra oportunidade que o fim das coisas não é nunca menos complicado que o início delas, e isso não se provou menos verdade depois que eu escrevi. Na verdade se provou muito mais real do que eu achei que era. O fim das coisas é por vezes mais complicado que o início delas, você pode sempre contar com isso. Só que por mais vezes do que se observa, o fim também é mais importante que o inicio. Sem o fim não se validaria a experiencia, sem o fim não se contabilizaria o valor, e sem ele tampouco haveriam novos começos.

Vai ver o medo que temos do fim não seja do que termina por si só, entende? Vai ver o medo é do que vai começar a seguir. Vai ver o medo é não saber a altura do abismo quando se salta. E pode até ser que alguém como eu tivesse medo, mas se eu não conhecesse a Elphaba e não tivesse aprendido com ela, não seria eu.

Se não fossem os cavalos marinhos, as tulipas roxas e a escrita nao seria eu. Se não fossem meus sobrinhos, a minha lasanha de frango, Deus e seu amor apaixonado e ousadérrimo não seria eu. Eu também podia tentar ser eu sem as roupas de cama limpas e trocadas, ou a turma da Mônica, o Neil Gaiman, o mar e o Oscar mas o negócio é que eu não ia conseguir ser. Sem a Shonda Rhimes, a California, shimeji na manteiga e a fotografia ia ser outra pessoa também. Se não fosse a ioga, o La la land, as estrias, e os muito medos com esperanças ainda mais absurdas não seria eu. Eu juro que pode até parecer que se me deixasse intacta e tirasse só o amor por carrosséis ainda seria eu, mas não seria. Só com isso já desandava bastante.

Eu até podia dizer que seria eu sem o lar número quatro – ou qualquer um dos anteriores -, a Elphaba, a colcha de retalhos da minha avó, as máscaras faciais e as conchas, mas não seria. Seria uma versão menos acumuladora de mim, talvez. Não seria eu sem suco de maracujá, as rifas que me levaram pra Londres, cursos online e poesia. Não seria, entende? Então não dá pra deixar ser. Até daria pra ter uma versão não apaixonada por musicais e não tão disposta a arriscar toda a segurança em coisas insanas. Vai ver seria uma pessoa razoavelmente boa se não tivesse fé pra achar que pode ganhar ingressos em sorteios, seria uma pessoa legal à beça sem o circo as piruetas e o acreditar que os sonhos se realizam. Só que não seria eu.

Valeu aí, ein, Clarice – a Falcão dessa vez – por me lembrar que foi o resto da vida inteira que me fez assim. E pode até ser que alguém que não fosse nada disso – e não conhecesse a Elphaba – tivesse medo de perder esse lar que foi tudo; o quatro. Mas se não fosse pra levar ele comigo onde eu for aí não seria eu, e o negócio é que eu sou; é tempo de ser.