o balanço da mediocridade

Dia 15/08/2019
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Sobre Textos
@sivan.ka

Walt Whitman é um dos meus escritores favoritos. Existem duas citações dele que amo profundamente, a primeira eu conheci há alguns anos e ela me fez entender que tipo de amor eu deveria buscar na minha vida; We were together. I forgot the rest; Estávamos juntos. Me esqueci do resto; eu ainda me lembro do dia que eu li essa frase e como ela me fez perceber como eu andava me enganando e enganada sobre uma porção de grande verdades na minha vida – que eram mentiras.

A segunda citação eu conheci essa semana. Ela veio até mim num momento que eu precisava muito – embora ainda não soubesse exatamente o quanto. These are the days that must happen to you; esses são os dias que devem te acontecer.

Esses espaços representam os muitos minutos que parei de rolar o feed para contemplar a parede e entender que esses aqui são os dias que devem me acontecer. Cada um deles. Todos eles.

Foi uma longa contemplação.

Não tão longa quanto os dias que tenho vivido. É, talvez, a fase mais difícil da minha vida. Qualquer pessoa com sensibilidade e paixão pela minha arte pode ter reparado que mal escrevi textos ao longo desse ano – e isso sempre quer dizer ocupada demais lidando com meus monstros pra conseguir expô-los antes que se resolvam.

Me encontrei nessa contemplação, e, meu Deus! como eu estava longe de mim! É uma coisa maluca demais viver uma vida pautada em sonhos extraordinários porque é exaustivo a uma pessoa só realizar tantos feitos mágicos. Às vezes me faz falta querer uma vida medíocre. Não me leve a mal, a mediocridade é vista com maus olhos, não quer dizer necessariamente uma coisa ruim. Também pode querer dizer “situação, posição mediana, entre a opulência e a pobreza; modéstia.

Por que – eu me pergunto às vezes – eu não podia ter sido a garota da cidade pequena que amava a cidade pequena e sonhava em se casar com o único cara que já beijara por toda a vida e morar logo ali na esquina da casa dos pais, em frente à sorveteria que frequentava quando criança, perto daquele mercado onde o dono guarda o pão às 15h?

A essa altura não é surpresa dizer que eu poderia realmente me beneficiar de um pouco de normalidade na minha vida. Entenda, eu não quero essa vida, eu não sinto falta dela. Mas eu gostaria de querer em dias como esses, porque estive mais perto de realizar essas coisas do que todo o resto que escolhi no lugar. A falta é do senso de realização, e há certas coisas mais fáceis de serem realizadas do que outras.

E, sim, me parece que casar alguém apenas para realizar um sonho “fácil” não é exatamente um bom motivo para passar o resto da sua vida ao lado da pessoa. Mas certamente eu, mais que qualquer outra pessoa, falo de uma posição de ter me lançado longe de tudo que eu conhecia, de todos que eu conhecia, para explorar o mundo inteiro e sei o quanto isso pode matar alguém.

Não o ir, entenda. Mas o voltar.

Já me aventurei pelos caminhos mais longínquos de sonhos ousados que você nem pode começar a imaginar. Alguns deles me causaram um grande frio na barriga, outros me deixaram noites inteiras; por semanas; sem dormir direito. Tiveram alguns que eram tão absurdamente extraordinários que enquanto eu vivia meu cérebro acusava a saudades que eu sentiria uma vez que eles passassem. Nenhum deles foi tão grande que eu precisei dar dois – nesse caso três, sete, doze! – passos pra trás antes de voltar a dar um pra frente.

Meu Deus! Como é doloroso esse processo de nos tornamos a pessoa que queremos ser! Eu sempre achei que a parte mais difícil era abandonar o que éramos antes para que a pessoa que sonhamos – desejamos – ser coubesse em todo o vazio que sobrou, mas, sabe, às vezes você abre mão de coisas e libera um espaço gigantesco e o que deveria chegar para ocupar tudo aquilo tá preso num congestionamento em alguma esquina longe demais de onde você estacionou.

Mas então me ocorreu – obrigada, Walt Whitman! – esses são os dias que precisam me ocorrer!

São essas aqui, e-x-a-t-a-m-e-n-t-e essas as questões que eu devo ter comigo mesmas. Essas respostas pra todas essas dúvidas, de todos esses dias que precisam acontecer comigo. Não quer dizer que serão dias fáceis, ou os dias que eu imaginei. Acredite, eles não tem sido; eles tem sido mais difíceis do que qualquer coisa que eu tenha pensado, e lembre-se que sou muito imaginativa. Mas porque são difíceis não quer dizer que não precisem existir.

Os meus sonhos – extraordinários e nenhum pouco melhores do que qualquer um de outra pessoa que tenha tido a sorte de sonhar sonhos “normais” e que tenham estado perto de realizá-los, ou que os tenha realizado – são difíceis e precisam existir apesar do seu grau de dificuldade.

E mesmo nesses dias, que precisam existir tanto quanto meus sonhos; tanto quanto eu, eu ainda preciso me lembrar de que o salto pro extraordinário é só um eterno gingado em um balanço onde a mediocridade se senta. Ela é a média de todas as coisas, as coisas muito incríveis não são incríveis para sempre, e as coisas abaixo da média tampouco são eternas. O balanço segue em movimento. Ele nunca para, mesmo quando meus pés estão completamente parados no chão; ou mesmo quando eles estão lançados completamente no ar. O balanço segue em movimento.

E os dias que precisam me acontecer nunca terminam de serem marcados no calendário. E os meus sonhos difíceis e extraordinários nunca se tornam menos necessários. Os sonhos normais e medíocres – no melhor sentido possível da palavra! – das outras pessoas também não são mais fáceis ou menos necessários, são só os sonhos e os dias que essas pessoas tem de passar. E eu sei que embora eu às vezes sinta que deveria ter me contentado com o que era fácil e conhecido e me impedido de me lançar tantas vezes em recomeço após recomeço, esse balanço não é pra mim – ele teria me matado!

Eu amo meus sonhos.

Meu Deus, como eu amo meus sonhos! E eu amo como eles me tornaram numa pessoa muito melhor! Eu amo mesmo o mais impossível deles; mesmo aquele mais longe e infinitamente distante. Mesmo os que eu não estou nem perto de ser a pessoa que vai realizá-los, é preciso me lembrar que pode ser o bastante nesses dias que precisam me acontecer – e precisam te acontecer! – aprender como caminhar novamente por essas estradas periculosas que às vezes vão exigir dois – ou três, ou sete, ou doze! – passos para trás antes de me lançar num balanço tão alto que me fazem voar.

Tenho aprendido a caminhar de novo. Talvez tenha esperado tempo demais – por onde eu começo?