carta aos pais de filhos perfeitos

Dia 09/10/2019
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Queridos pais,

Como professora dos seus filhos eu gostaria imensamente de não ter que estar escrevendo essa carta, acredite. Mas acontece que estou e se estou é porque essas palavras me encontraram e imploraram para que eu intermediasse teu encontro com elas.

Vou me manter o mais clara e objetiva o quanto possível pois o nosso tema é sério e urgente. Pais, é o seguinte: vocês estão envenenando a nossa sociedade com tanta dedicação quanto os mais de 500 agrotóxicos liberados esse ano pelo Sr. Presidente. Não estou brincando, vocês precisam botar a mão na consciência e já te digo o porquê.

Em primeiro lugar vocês estão envenenado a sociedade através dos seus filhos, que são o futuro. O futuro vai chegar e ele não pode ser podre, cabe a você se certificar de que o que você está deixando para essa Terra vai ser mais benéfico do que se não deixasse nada, e eu sinto muito pelo quanto isso te ofende mas a verdade é que muitas vezes ter um filho, e apenas isso, não vale como um grande legado. O seu filho ainda precisa ser uma pessoa boa e isso não é inerente ao ser humano, se aprende através de alguém.

Eu, como professora, não sou capaz de ensinar ao seu filho em apenas algumas horinhas com ele – e mais uma outra penca de filhos perfeitos de outros pais cujo ego não posso estourar com minhas palavras e conselhos agulha! – como não ser a pessoa que você o ensina a ser durante todo o restante do dia na sua companhia. Não é só que eu não posso, eu não quero. Não é o meu papel.

O seu filho não é perfeito, entenda. Ele é só uma criança. Pode ser que você esteja colocando todas as suas expectativas do que nunca foi, nunca teve e nunca conquistou e deseja que ele seja capaz de ser, ter e conquistar essas coisas, mas qual exatamente é o tipo de pessoa que você está criando ao permitir que ele faça absolutamente tudo por que ele é perfeito e tudo que ele faz é perfeito?

Eu dou aula para muitas crianças de 5, 6 e 7 anos que estão no auge de sua raiva e eles não sabem por que estão nervosos e querem jogar as cadeiras no chão sempre que eu digo “não é a hora de correr agora, agora é hora de ouvir e colorir.”. De onde vem essas crianças que só fazem o que querem, quando querem e escolhem o que é o melhor pra elas?

Qual o dano para a sociedade em ter uma criança que leva o livro apenas quando quer, ouve a história apenas quando quer, faz a tarefa apenas quando quer, sai da sala quando quer, volta quando quer, não tem hora pra chegar na escola e não quer ouvir – se revolta, grita, bate, ergue o punho e grita – ao ser informada de que não pode beliscar o coleguinha?

Eu realmente preciso explicar essas coisas? Pais? Vocês estão aí? Eu preciso explicar? Porque eu não quero ter que explicar, eu não sinto que posso educar vocês mas o negócio é que se vocês não souberem, se a resposta para essas perguntas não for óbvia, eu vou ter de fazer isso. Porque eu sou aquela que passa horas planejando um momento de 15 minutos com os filhos de vocês para que esse momento nunca se realize ou concretize porque dos 15 minutos que eu tinha para fazer aquela tarefa, 45 foram perdidos entre pedir silêncio, separar brigas e recuperar materiais que seus filhos jogaram no chão.

Se o bom senso – que definitivamente não é a mesma coisa de senso comum – não falar mais alto nesse momento eu vou ter que apelar para fatores óbvios: parem de jogar seu dinheiro fora e abandonar suas crianças por horas em escolas que vão fazer de tudo para ensiná-los a ser coisas das quais vocês não fazem a menor ideia. Qual foi a última vez que você sentou com seu filho para olhar a tarefa de casa dele? Para ver se ele escovou os dentes corretamente? Para jogar um jogo e ouvir uma história que ele aprendeu e quer contar? Quando foi isso?

A escola não é um depósito de crianças para que você as guarde lá enquanto vai trabalhar. Educar e ensinar crianças são dois processos muito diferentes, e pelo fato de que vocês, pais, não tem sido capazes de educar seus filhos, nós, os professores, não temos sido capazes de ensiná-los. Vocês também estão nos envenenado.

O ego de vocês está destruindo as nossas carreiras. Olha, eu sinto muito se isso é sincero demais e você se ofendeu. Certamente eu não posso dizer essas coisas na reunião de pais porque além da dos muitos processos jurídicos eu também faliria a escola. Mas aí é que tá, seus filhos não tem limites e não sabem ouvir não porque vocês não os ensinaram – vocês não sabem!

Mas imagina o choque deles – a ansiedade, as crises de pânico, a dificuldade em se encaixar num curso de faculdade com horários e metas e padrões a serem cumpridos, a inabilidade de encontrar um emprego de baixo salário sobre a perspectiva de ter que começar de algum lugar, como um ninguém – ao crescerem e terem de descobrir que não são e a única função desse conto de fadas besta que você deixou ele – e você mesmo – acreditar, é fazer com que os professores a autoridades que ele conheceu pela vida fossem desafiados e frustrados pela permissão maluca e irreal de uma vida sem consequências que não existe.

Essa carta é muito mais um desabafo do que de fato um pedido. A mudança que eu gostaria é possível, mas exige que vocês admitam que talvez seus filhos não sejam perfeitos, que talvez eles errem, que talvez eles estejam errando o tempo todo na escola, que talvez tirar notas boas não significa ser uma pessoa boa, que talvez o comportamento social da sua criança devesse ser mais importante que seu boletim. Nada disso é possível se vocês, pais deles, não admitirem, em primeiro lugar, que seus filhos não são perfeitos porque vocês não são.

E não há problema em não ser. Realmente não há. Ninguém é.

Mas ainda precisamos ser capazes de reconhecer nossas limitações. E eu queria ainda ter esperança de poder ensinar crianças – tão incríveis e cheias de potencial – sabendo que meu papel não é aturar qualquer coisa ou perder meu emprego. É que eu queria poder trabalhar sem ser envenenada enquanto isso, e fazer valer o dinheiro que vocês estão me pagando para que seus filhos sejam melhores que ontem – e pra isso dependo de vocês entenderem que ontem, no auge de seus 5, 6, 7 anos, ele ainda não estava completo ou perfeito.

Com amor (mas não muito dessa vez),
Carol