Querida, há tantas coisas que eu gostaria de te dizer mas eu não sei como.

Eu não acho que há alguém no mundo que se sinta como eu me sinto sobre você nesse momento. Sei que passou tempo  o suficiente procurando amor por aí nessa vida, e talvez ache que já é o momento de ter descoberto o que é pra fazer, mas vai ver esse é o tipo de resposta que não se tem; para o tipo de questões insolúveis, sabe?

As pessoas nunca são respostas, elas só podem ser perguntas.

E é de se admirar que você se contente com a vida que tem. Quer dizer, não que não seja boa: ela é boa, é legal, é ok. Mas preciso parabeniza-la, pois cair em tantos buracos de dor fervente e escaldante que teriam feito várias outras pessoas se derreterem, mas você, bem, sinto que a dor não foi o bastante para te desfazer.

Mas vai ser quando você entender que para cada construção é preciso um terreno limpo e sólido. Começar de novo como você espera requer, antes de mais nada, uma bola de destruição imensa trazendo abaixo os tijolos mal empilhados que você cimentou com paixão, no desespero de construir um lar às pressas.

Pode ser que não encontre as respostas em outras pessoas, porque elas só podem ser perguntas, mas se olhar bem atentamente para si mesma – se estiver de fato procurando – vai enxergar que a resposta é: Ainda não dói o suficiente.

Amanda nos ensinou isso: só pode cessar quando doer o suficiente.

Ainda acredito em você. Quero que saiba disso. Sei que pode ter se esquecido. Ei, garota!, grito a plenos pulmões para o espelho, eu ainda acredito em você. Ainda não dói o suficiente, e por isso você talvez ache que pode suportar, que tudo bem se sentir assim, que a paz não é um sentimento que você tem direito de possuir, de pertencer à ele. Talvez você ache que cair em buracos de dor fervente e escaldante é apenas o único jeito que a vida pode seguir, e que você pode – deve – suportar isso.

Mas vai doer. E ai, quando você achar que não tem mais jeito vai perceber que era isso, tão mais simples do que pensávamos: só pode cessar quando doer o suficiente, quando você der um basta com a doer através dela mesma, porque sabe, querida, a cura para a dor é a dor. Ela é o veneno da sua alma, você acha que vai morrer, mas quando dosa o suficiente ela te salva de todos os nãos e talvezes, dos sims que você sonhou sem saber – porque quando acordou já havia esquecido do sonho. O fim da dor te resgata para uma nova era, onde você é mais forte, mais consciente, mais confiante.

Pode até correr um burburinho pelas ruas, as pessoas vão achar que o fogo no seu coração se apagou. Você sabe o que cantam por ai, e é mesmo verdade, as estradas que temos de andar são sinuosas. É um fato, as luzes que nos levam até elas estão nos cegando.

E ainda tem muitas coisas que eu gostaria de te dizer mas eu não sei como, mas por hoje eu quero que seja capaz de olhar no espelho e saber que no fim das contas você é meu poço de paz, sonhos e proteção. O destino e a estrada. A dor e a cura. A fraqueza e a força. As perguntas e as respostas.

E talvez, – só, sabe, bem talvez – você é aquela que vai me salvar.

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com amor,
muito amor,
muito, muito amor,

cs

É muito difícil responder “não sei” quando alguém me pergunta sobre como ele tá. Minha avó pergunta sempre, ela às vezes me pede pra dançar com ela, porque ele dançava toda vez que íamos lá. De vez em quando eu danço, e rio, mas não deixa de ter um certo aperto no coração.

Saudade é um sentimento louco.

Mas eu não sei como ele tá. É estranho viver coisas de tirar o fôlego, ter medos e conquistar coisas sem nem pensar em ligar pra ele. Eu me dou conta semanas depois, quando já passou e eu pude pensar sobre, que é o que eu teria feito instantaneamente, mas hoje essa possibilidade nem passa na minha cabeça, e a percepção disso é o que torna tudo diferente.

Mas eu não sei como ele tá. Espero que esteja bem, sempre vou desejar, eu acho. Já cheguei a não desejar nada, bem depois da dor, da raiva, da ausência de sentimentos.

É frequente eu não querer saber. Porque foram três as ocasiões em que me contaram coisas sobre ele que eu não podia imaginar, e me doeu. Foram duas as vezes em que ele me viu e fingiu que eu não estava lá. Então, é melhor não saber.

Mas às vezes, só, sabe, bem de vez em quando, numa tarde de quinta, correndo pelo parque, eu vejo as nuances do por do sol ofuscar o olhar de algumas pessoas que nunca conheci. O mundo está cheio delas. As pessoas que nunca conheci, é o que quero dizer.

Algumas são, inclusive, antigos conhecidos muito íntimos. Todos são estranhos, e eu espero que estejam bem, mesmo que eu não saiba de verdade; espero que estejam felizes.

E eu não sei dele, mas eu sei de mim.

Eu, que antes achava que a felicidade era estar com ele hoje estou feliz, porque finalmente entendi: a felicidade nunca pode ser mais do que reconhecer seu lugar no universo, e se sentir bem com ele, sabendo que nesse momento é o único lugar para se estar, fazendo o que você está fazendo após ter conquistado o que você conquistou e vivido o que viveu. Porque estar feliz e estar em paz, são sentimentos que nascem da mesma raiz.

Felicidade é pertencer, não a ele, mas a mim e onde estou. Não quero estar aqui pra sempre, mas amo esse lugar pois ele é único que me permite realizar tudo que eu preciso pra chegar onde sonho. A saudade é um sentimento louco, mas a felicidade é desafiar a gravidade e confiar nas suas próprias asas. 

Confie em mim quando eu digo: tem dias que não dá pra ser mais feliz.

Então, às vezes eu lamento que ele tenha se tornado apenas uma das pessoas que eu nunca conheci – e sei que vovó lamenta que ele não esteja mais lá para dançar com ela – mas mesmo toda essa gente que cruza comigo quando corro pelo parque, todos esses estranhos que nunca conheci, eles tem seus lugares no mundo e eles também podem ser felizes nele, se amarem esse lugar e descobrirem que, por hora, pertencem à ele.

Eu continuo respondendo “não sei” quando me perguntam, mas espero que ele esteja feliz. Hoje eu entendi onde pertenço, o que preciso fazer aqui, e por quem e como – e como às vezes acontece apesar de todos os outros degraus que ainda não escalei, das pessoas que nunca conheci, das tantas milhões de coisas que ainda não fiz ou dos vôos que não me lancei, eu me reconheço onde estou e sei que não dá pra ser mais feliz. E eu desejo isso pra todo mundo, os que conheci e os que desconheci, os amigos e os estranhos e a ele também, que em algum lugar no tempo acaba se encaixando em um desses espaços.

Já se passou a metade do primeiro mês do ano. Foi rápido, mas pra falar a verdade eu já fiz tanta coisa, tenho vivido tanta coisa, cuidado de projetos diversificados e aprendido tanto sobre a minha própria força de vontade e determinação que me dá a impressão de ter vivido bem mais do que só quinze dias.

Veja, o tempo é uma coisa muito relativa.

Eu acho que pode ter alguma coisa a ver com o fato de nem sempre sermos capazes de perceber os momentos que levam ciclos a se fecharem – apesar de sempre notarmos os finais. As coisas incríveis levam mais do que duas semanas para acontecerem, principalmente porque elas começam de dentro pra fora, e tudo que nasce numa camada tão interna de quem somos – os medos, os sonhos, e as transformações – precisam de tempo pra amadurecerem e serem o que precisam ser.

Nem sempre essa passagem de dias e semanas é notada como a solução dos problemas. Acontece com algumas pessoas de às vezes não terem nada de bom pra falar sobre o que viveram, quem se tornaram ou o que o tempo levou consigo pelos últimos períodos delimitados.

Acontece, sim, de o relógio levar muito para alguns – mas nunca mais do que precisa, às vezes só mais do que percebemos. Independente de quantas voltas ao redor do sol este planeta dê, e do quanto eu ache que precise de tudo que talvez tenha ficado em tempos passados, eu sei que uma parte incrível de quem eu sou hoje segue assim: acreditando nas coisas boas só de birra.

Fazendo pirraça com as infinitas maldades que já vi, e escolhendo o amor como quem grita bem alto “É TUDO QUE VOCÊ PODE FAZER? AINDA ESTOU AQUI, AINDA SOU MAIS FORTE.”

E no fim agradecendo, porque ser forte é isso, nem sempre se sentir forte, mas ver a força no escolher continuar, mesmo que, só por um tempinho ou por um tempão, pareça impossível.

Nunca é.

Nunca é impossível, espero que perceba logo. Rápido, eu talvez dissesse em outro contexto. Mas o que é mesmo a velocidade, quando sabemos que o tempo é relativo?

Há muitos 15 dias pela frente, ainda em Janeiro tem mais, depois duas duplas em quase todos os outros meses do ano. Eu vejo que o mais importante no meio dos medos, dos sonhos e das transformações – de tudo que nasce numa camada tão interna de quem somos – não é o prazo de duração, mas a percepção que se tem dos fatos em si; os do passado; os do presente; os do futuro.

E a gente aprende a dar birra com a vida, e se recusar a aceitar menos do que merece. A fazer pirraça com os medos e não se deixar rendido por eles. Em 15 dias dá pra fazer muita coisa: muita coisa, inclusive, que faz a gente. Mas para o que leva tempo, eu sempre digo, é preciso começar de algum lugar, e é mais do que perspectiva, otimismo ou fé. O fato é que se você começar agora vai ser melhor do que era ontem, quando nem havia tentado.

Você vai sentir em você depois de um tempo. Fervendo no lugar onde você acha que se coração deveria estar, bem ai, crescendo mais forte a cada dia: a força que chega após certos períodos de fraqueza, quando você decidir escolher você e escolher ver as coisas com amor e dar birra com os desafios, se recusando a render-se a eles.

Vai cantar seus medos pra dormir, colocar seus sonhos ao sol pra acordarem energizados e transformar cada partezinha mais íntima do seu ser. Tá sentido?

Vai te levar a lugares. Nunca é impossível.

Nunca é.

Espere só mais um pouquinho – o tempo é relativo, e eu espero que você perceba logo o quanto ainda pode fazer, mesmo que muito já tenha se passado e pareça tarde demais: nunca é.

 

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