Eu nunca falei isso.

Não pra você, não em voz alta. Nem pra mim mesma, porque as palavras tornam tudo real, e pronuncia-las é trazer à existência coisas que não existiam, ou que existiam mas podíamos ignorar antes de serem verbalizadas.

Mesmo não dizendo eu sentia. E percebo agora que é muito difícil modalizar sentimentos para que pareçam com o que precisamos que eles sejam. Eu não poderia ter deixado você ir embora sem que soubesse, sem que conhecesse o sentimento real que eu sinto, ao invés do que o que eu achei que deveria ser.

Foi o que me trouxe aqui. As palavras sempre me buscam quando tento me esconder, por tempo demais, das verdades. Tempo demais em silêncio também me faz organiza-las melhor, é na saudade que as palavras me abraçam como se nunca tivessem ido embora.

Não sei se algum dia você vai ler esses pedaços de alma que espalhei no meio das letras e perceber que poderia ter amado essa mulher, mas não vejo como isso vai fazer diferença, já que daqui a pouco eu não serei mais ela. Mas eu vou me esforçar, pois prezo pela sinceridade nas coisas e a guria que eu sou hoje quer te contar algumas coisas – eu não quero mais me engasgar na tentativa de conter as palavras dela.

Talvez foi a minha síndrome de tentar fazer as pessoas se sentirem melhores. Foi a minha tentativa de permitir que as pessoas – você – contassem suas histórias e fossem ouvidas. Foi aquele negócio que eu sempre faço, de ser muito doce e prestativa, compreensiva e amável. Disponível e receptiva.

Foi tanta coisa. Foi quase tudo antes de ser qualquer coisa, porque você foi pra mim a maior possibilidade que eu tive desde que eu decidi aceitar o talvez. Você não foi um quase talvez. Tudo em ti era um talvez certo. Seu jeito de me dar bom dia nas primeiras semanas, a forma como você queria compartilhar coisas pequenas, o fato de que você estava passando por grandes coisas na sua vida e falar sobre isso comigo o tranquilizava. Os teus segredos só a mim confidenciados, os conselhos que eu dei sem você pedir. O dia que eu li sua personalidade quase tão facilmente como a cigana lê o futuro com algumas linhas na palma d’uma mão aberta.

Tudo, absolutamente tudo em você gritava Talvez pra mim.

Você gritou tão alto depois de um período tão grande em que eu passei navegando em silêncio que não tinha como eu não ter ouvido. Foram meses e meses sem nada além de um mar azul e o eco da minha própria voz.

Eu nunca falei isso. Não em voz alta, não pra você. Eu não sei até hoje se você foi a tempestade ou o bote salva vidas, o deserto ou o oásis, a noite ou as estrelas, mas o fato é que eu gostaria muito que você olhasse pra esses pedacinhos de alma que espalhei no meio das palavras e entendesse como o seu talvez amor talvez tenha me mudado, me aquecido e me partido. Muito antes de toda essa maré ter virado meu barco.

Eu nunca vou dizer isso. Não em voz alta, não pra você, mas eu quase tenho certeza de que eu queria muito que o seu talvez tivesse ficado. Que sentimento é esse eu não sei, talvez nem tem nome. Talvez eu chamasse ele de você, de amor, de querido. Se você não tivesse me mudado, me aquecido e depois partido, talvez a gente descobrisse.

As chances são grandes de que mesmo quando você olhar pra trás e perceber que talvez tivesse amado essa mulher, mesmo lá, a gente não descubra mais.

 

Minhas amigas disseram que você e eu éramos uma boa ideia. Todas elas, sem exceção, disseram que eu não tinha nenhum motivo pra ter medo ou ir embora de uma coisa que nem nome tinha ainda. Mas eu tentei ir, porque eu sabia o nome que ia ter depois.

Sabe, eu me conheço.

Eu sei o que começa no meu coração quando o meu cérebro começa a perder o controle de borboletas no meu estômago. Eu sei o que cresce quando eu passo a esperar mensagens no meu celular. Eu sei o que vira quando um abraço se torna uma casa, e eu sei o quanto é preciso trabalhar dentro da cabeça da gente quando entendemos que todas essas sensações viraram a chave, deram partida e foram embora atravessando sinais vermelhos aos arrancos.

Não é, exatamente, medo da dor. Eu não tenho medo da dor. Eu teria tido antes, mas hoje eu sei que ela me tornou uma sobrevivente. Pessoas feridas são mais fortes, porque elas sabem que podem sobreviver.

Sabe, eu posso sobreviver. Eu sei disso.

A solitude não me amedronta e eu gostava de ser sozinha.

Eu acho que o que eu quero mesmo é te dizer que eu me importo. Que eu sei que nem sempre parece, porque eu aprendi muito bruscamente a tomar cuidado com as pessoas para quem eu vou dar esse cuidado e essa atenção. O negócio é que às vezes a gente aprende, bem até demais, a ser descuidada.

E eu sei que eu sou. Descuidada, quero dizer. Eu sei que eu sou descuidada. Mas eu também quero dizer que eu me importo.

E não é no medo de que você vá embora que estou dizendo isso. Não é no medo de que eu possa não ter outra oportunidade, mesmo que você vá eu sei que terei outras oportunidades. Eu estou escolhendo dizer porque você está aqui agora, e, bem, esse não deveria ser um motivo bom o suficiente? Sua presença me parece um motivo bom o suficiente.

Minhas amigas disseram que eu e você éramos uma boa ideia.

A estrada em frente vai seguindo, deixando a porta onde começa. Agora longe já está indo, devo seguir, nada me impeça.

Mas eu penso. Você me pediu tantas vezes pra te deixar ir embora, mais vezes até do que percebeu que estava pedindo, então, por que eu sinto que é essa folga no laço que te amarra em mim?

Uma estrela brilhou no nosso encontro. Embora eu finalmente estivesse cheia e reluzente após luas demais me escondendo na calada da noite, eu não soube como agir porque minguei até quase parar de existir. Sinto que com você não preciso ter medo de ser nova ou cheia porque você parece ver coisas em mim mesmo quando eu não brilho tanto quanto um céu estrelado.

Não vou me despedir porque dói. E você pode ficar se quiser, até porque eu gostava de ser sozinha.

Mas isso foi antes. Antes de você chegar.

 

 

A história de como um coração se parte talvez nunca será desvendada. Mas se eu tivesse que mapear diria que começa quando ele se apaixona.

O amor, eu acho, aparece como a estrela vespertina depois de uma noite negra muito mais longa do que deveria ser. E nunca tão visível como imaginamos.

Os olhos acostumados com a escuridão da madrugada aprenderam a enxergam tudo à meia luz. A meia luz dos postes que piscam e se apagam como se o próprio Dumbledore e seu deluminador pisassem nas ruas. A meia luz dos carros que transitam, cruzam e param em seus caminhos para chegarem a lugares e pessoas. A meia luz dos cigarros acesos e dos olhos por trás da fumaça que eles produzem. A meia luz dos celulares guardados em bolsos, que recebem mensagens esquecidas em meio a uma conversa interessante demais para ser interrompida. A meia luz de um – ou dois – corações que se aquecem em noites chuvosas onde o vento tira guarda chuvas – que poderiam ser de qualquer cor, mas nessa cena vou ilustra-los amarelos, para que você entenda bem – para dançar.

A meia luz propicia enxergar meias verdades. Meios amores, meias decepções e medos inteiros. Mas mesmo um coração meio partido é inteiramente visível à meia luz.

Ainda que esteja se apaixonando.

É aqui que ele começa.

É aqui, num riso de canto de boca ou numa gargalhada de fazer deitar a cabeça pra trás e a boca pro alto. É junto com a virada da garrafa de cerveja na mão já gelada. O cérebro entende o que é a possibilidade do amor antes de o gosto de cevada chegar na língua. A possibilidade do amor começa a despontar, muito discreta, quando as similaridades aparecem, na identificação e descrição de uma tatuagem em comum. Na recontagem e compartilhamento de histórias pessoais demais para serem contadas a qualquer pessoa. Na problematização de uma poesia em latim, na questão do cenário político brasileiro ou na admiração que cresce e cresce, palavra por palavra, risada por risada. Ritmicamente, tragada por tragada.

Há tempos descobri que um coração quebrado não sabe pulsar, mas a realidade de que mesmo corações partidos ainda se quebram me atingiu devagar demais em uma madrugada não tão iluminada, em uma rua não tão enfumaçada quanto deveria ser. Neste dia, sozinha, enxerguei todos os olhos. Só haviam dois brilhando, e no reflexo de um carro vi que eram meus. Não tinha nem neblina, nem chuva, nem fumaça para confundir. Tinha eu, e meu coração falhando em desvendar o mistério dos corações partidos.

Se eu tivesse que mapear diria que começa quando ele se apaixona.

Eu diria que começa em abraços mais demorados do que deveriam ser. Piadas com risadas mais intensas do que mereciam. Olhares mais cúmplices do que se esperariam de retinas que nunca haviam se visto antes. Mordidas sutis e carinhos não resistidos em curvas onde apenas os perfumes moram.

O dele… o dele me lembrava um campo ensolarado de trigo, ou um vinhedo num canto esquecido da Itália, ou um pântano verde de águas escuras ou a fumaça de uma casa em chamas a mais tempo do que se pode salvar. Ou a mistura de todas as coisas e cores e fragrâncias. Vai ver ele é um vinhedo pegando fogo num canto esquecido da Itália que só pode ser salvo pelas águas escuras de um pântano. Ou algo assim.

Eu já fui queimada mais vezes do que se espera de uma pessoa inteligente o suficiente para não entrar mais em incêndios que não podem ser controlados e é ainda com fumaça nos meus pulmões que eu digo sem qualquer certeza que não sei se aprendi a virar pra trás e ir embora ao menor de sinal de fogo.

O incêndio dele me iluminou o rumo de casa em meio a tantas madrugadas que passei perambulando na companhia de nada além de guarda-chuvas coloridos demais para noites negras muito mais longas do que deveriam ser. Meias luzes não iluminam completamente pessoas inteiramente queimadas.

Mas a combustão – rápida, mortal e enfumaçada – de um coração quebrado cujo mistério eu não tenho a pretensão de desvendar, talvez devesse durar mais do que a chama de uma fagulha, já que queima tão mais que campos de trigo, vinhedos em cantos esquecidos e pântanos verdes de águas escuras.

Nem sempre a gente vê o fogo, até que ele já tenha consumido toda a vida que encontra pela frente. Não é por isso que vamos parar de nos aquecer com meias luzes ou incêndios inteiros.

Não precisa confiar em mim. Eu nunca fui tão boa em registrar ou mapear coisas quanto as pessoas que são mais habituadas a viver, estudar e contar histórias.

Todas elas.

Todas as histórias e Histórias que são vividas, estudadas e contadas. Mesmo as que se perderam em fumaça e fogo antes de serem registradas.

Não me parece ser o caso desta.

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